Crítica: Um Pequeno Favor

Intencional ou não, “Um Pequeno Favor” traz uma espécie de curiosa ironia ao ser um filme com forte carga de mistério que demora a mostrar o que veio. Embora o fio condutor da trama seja o repentino desaparecimento de Emily (Blake Lively), ele não acontece de imediato, de forma que somos apresentados ao mundo dos personagens antes que a proposta do longa seja apresentada. Há elementos que remetem ao tema da maternidade, por exemplo, ou ainda mais fortemente o da amizade, como fica claro na cena em que Stephanie (Anna Kendrick) conhece Emily. No entanto, o desenvolvimento vai trazendo um tom que pode remeter o espectador a filmes como “Garota Exemplar”, porém com constante presença de humor, ainda que ácido.

A estratégia dos realizadores é portanto, interessante, já que a temática não é o mistério pelo mistério. Não temos um thriller tradicional, mas um tipo de thriller que utiliza o grande chamariz da narrativa para discutir outros assuntos. O que seria amizade, exatamente? Quais seriam os limites éticos e morais para determinadas ações dentro delas? Assuntos familiares e pertinentes a relacionamentos também são pinceladas por aqui. Dessa forma,  a marcante atuação de Blake Lively e seu contra-ponto feito por Anna Kendrick dão o tom para o restante da projeção, são as duas que a comandam.

Outro fator positivo aqui é a forma com a qual as cores se comportam de acordo com o tom do que ocorre em cena. No início, por exemplo, os tons lúdicos e claros são predominantes, contrastando com a escuridão e o cinza que aparece quando o roteiro se desenrola. Não apenas em termos de fotografia, mas o figurino também reflete isso, sobretudo no que diz respeito as duas protagonistas. É possível observar até mesmo que há uma troca de cores feitas por elas. Emily passa a espelhar o que costumava ser Stephanie e vice-versa.

Entretanto, “Um Pequeno Favor” perde muitos pontos por sua megalomania. São tantas reviravoltas e uma proporção de acontecimentos tão grande que é natural nos questionarmos acerca daquilo tudo. Isso piora ainda mais se notarmos em quanto tempo tantas mudanças e revelações são feitas, constatação que só reforça a hipótese dos realizadores tentarem a todo custo extrair reações específicas de seu público. O erro, aí, é não considerar que esse tipo de artifício deve ser usado de forma espontânea e dosada. Menos seria mais, nesse caso. Não chega a ser um desastre, ou nem mesmo ruim, só inibe o grande potencial tido em mãos. Da próxima vez, então, que um estúdio quiser conceber um filme nessa linha, melhor tirar lições de David Fincher que o proveito certamente será garantido.

 

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