Em entrevista à Woo! Magazine, equipe do documentário revela bastidores da pesquisa, uso de arquivos históricos e o desafio de equilibrar mais de um século de rivalidade
Mais de um século de confrontos, títulos, personagens e mudanças de domínio entre Grêmio e Internacional formam a matéria-prima de “Grenal”. Em entrevista à Woo! Magazine, os responsáveis pelo documentário falaram sobre o processo de transformar uma das maiores rivalidades do futebol brasileiro em um filme capaz de conversar também com quem está fora do Rio Grande do Sul.
Para o diretor Belisário França, o ponto de partida esteve justamente na percepção de que o clássico ajuda a explicar parte da identidade gaúcha. A curiosidade do cineasta por questões identitárias brasileiras encontrou no confronto um território cheio de histórias.
“Ele era muito definidor do ser gaúcho”, explicou.
Durante a pesquisa, a equipe percebeu ainda uma característica importante: a rivalidade atravessa períodos de alternância, com momentos em que um clube assume protagonismo antes de a situação se inverter.
A intenção, portanto, era apresentar essas idas e vindas para um público que conhece o significado de um Grenal, mas não necessariamente seus detalhes, personagens e episódios históricos.
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Uma história grande demais para apenas 90 minutos
Transformar tamanho material em um longa trouxe um dos principais desafios da produção. Segundo Belisário, havia conteúdo suficiente para desenvolver uma série de pelo menos cinco episódios, número que poderia ser ainda maior diante de tudo o que foi pesquisado e gravado.
“O primeiro desafio foi conseguir resumir em 90 minutos uma história que daria fácil uma série”, afirmou.
A pesquisa e o roteiro passaram por um trabalho minucioso, enquanto a produção precisava lidar com duas limitações comuns ao cinema: dinheiro e tempo. Nem todos os personagens desejados puderam participar, seja por compromissos profissionais, dificuldades de agenda ou por viverem fora do Brasil.
A prioridade acabou sendo a própria história dos clássicos. Se determinado Grenal era fundamental para compreender a rivalidade, ele precisava estar presente independentemente da possibilidade de entrevistar todos os protagonistas daquele episódio.
Tatiana Sager destacou que as entrevistas foram concentradas em aproximadamente dois meses e buscaram contemplar diferentes gerações. Um dos encontros que mais a marcou foi com Joãozinho Severiano, que ajudou a mostrar como o futebol mudou desde a década de 1960, inclusive financeiramente.
O material de arquivo também permitiu recuperar personagens que já morreram. Entre os exemplos mencionados estão André Catimba e Tarcísio, presentes por meio de registros históricos de áudio e vídeo. Para viabilizar esse resgate, a equipe contou com parcerias para acessar imagens importantes, incluindo materiais da RBS e do SporTV.
Um cronômetro para medir a rivalidade
Contar uma história envolvendo duas torcidas tão apaixonadas trouxe outra preocupação: manter o equilíbrio entre Grêmio e Internacional. A solução encontrada virou parte da própria linguagem do documentário.
Um cronômetro acompanha o tempo dedicado a cada clube. Em determinados momentos, um aparece à frente; depois, os percentuais mudam conforme a narrativa atravessa outras décadas e fases da rivalidade.
A ideia reproduz dentro do filme a própria dinâmica histórica do clássico.
“Vai ter competição, vai ter marra. Então, já que ela existe, vamos botar para dentro do filme”, explicou Belisário.
Tatiana contou que a reação do público durante a passagem pelo Festival de Gramado mostrou como esse recurso funciona. Quando um dos clubes aparecia com maior percentual de tempo, comentários e reclamações surgiam na plateia, até que a vantagem se invertia posteriormente.
Essa preocupação chegou aos mínimos detalhes. Segundo a equipe, até a escolha de qual clube aparece primeiro em determinado material promocional pode despertar questionamentos dos torcedores.
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Torcedores ocupam o centro de “Grenal”
Apesar da presença de jogadores, treinadores, jornalistas e personagens históricos, a torcida ganhou papel fundamental na construção do longa.
Belisário explica que o objetivo era reproduzir cinematograficamente a sensação de acompanhar um grande clássico dentro do estádio. Por isso, imagens das arquibancadas, cantos e sons das torcidas atravessam a produção.
“Quem faz o jogo de futebol não é só o jogador, não é só o técnico. É a torcida. É a torcida que vive o jogo”, afirmou.
Taniana revelou que as entrevistas realizadas em estúdio com técnicos, jogadores e especialistas estiveram entre as últimas etapas da produção. Antes disso, foram aproximadamente dois anos acompanhando torcedores, arquibancadas e diferentes manifestações em torno do clássico.
A memória afetiva, dessa forma, tornou-se uma das bases do documentário.
Para Renato, a chegada do filme às salas comerciais abre espaço para uma experiência diferente daquela encontrada nos festivais. A expectativa é que gremistas e colorados reajam coletivamente aos gols, provocações e lembranças exibidas na tela.
O documentário também coloca torcedores identificados com um clube falando sobre ídolos do rival, mostrando como admiração e disputa podem ocupar o mesmo espaço.
Depois de atravessar gerações, recuperar arquivos e condensar mais de cem anos em aproximadamente 90 minutos, “Grenal” chega aos cinemas apostando justamente no elemento que manteve essa história viva: a relação de gremistas e colorados com um clássico que ultrapassou as quatro linhas e se incorporou à cultura do Rio Grande do Sul.
Imagem Destacada: Divulgação/Giro Filmes


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