O homem que sobrevive ao inferno, mas nunca consegue escapar das próprias escolhas
Tudo começa e termina com uma tosse seca e um lenço manchado de sangue. Enquanto a maioria dos heróis dos quadrinhos cai em batalha, salvando galáxias com feitiços reluzentes ou socos que quebram a barreira do som, John Constantine enfrenta o fim do mundo no balcão de um pub sujo, acendendo mais um cigarro da marca Silk Cut.
Se você procura o escapismo puro e a moralidade em preto e branco, “Hellblazer” não é o seu lugar. A obra, que serviu de alicerce para a linha “Vertigo” da DC Comics, é uma crônica sobre a sarjeta, sobre a falha humana e sobre o preço miserável de se estar sempre um passo à frente do próprio Diabo. Não há glamour na magia de John Constantine; há apenas o desespero de quem entende que a alma humana é, por natureza, um abatedouro.
A gênese punk e a Era Thatcher: o terror do mundo real

John Constantine não nasceu de uma profecia celestial, mas da fumaça ácida da Inglaterra do final dos anos 70 e início dos 80. Criado por Alan Moore nas páginas de “Monstro do Pântano” e imortalizado pelas mãos de roteiristas como Jamie Delano e Garth Ennis, o mago inglês é a encarnação do ressentimento punk.

Durante as primeiras edições de “Hellblazer”, o terror não precisava de chifres e enxofre. Os verdadeiros demônios vestiam ternos, habitavam o parlamento e assinavam as políticas neoliberais de Margaret Thatcher. A magia da HQ era um espelho da decadência urbana: o desemprego em massa, a miséria que empurrava jovens para as ruas, a repressão policial e o fascismo crescente. Constantine, com seu sobretudo encardido, caminhava por uma Londres onde o sobrenatural era apenas um reflexo do cinismo institucionalizado.
Ele é o anti-herói perfeito porque não quer salvar o mundo de sua própria podridão; ele apenas se recusa a deixar que o Inferno leve o crédito pela crueldade que os próprios humanos inventaram.
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Acordes dissonantes: o palco, o punk e a banda Mucous Membrane

Antes de ser o mago que barganha com demônios, John foi um frontman. Uma parte fundamental de sua alma (e de sua desilusão) foi forjada nos palcos de clubes underground londrinos com sua banda de punk rock, a Mucous Membrane.
A música, para John, era uma forma primitiva de magia. O palco exige uma performance, exige que o artista sangre diante do público e manipule a energia da multidão. No entanto, o punk prometeu uma revolução que nunca veio; o sistema engoliu a rebeldia e a transformou em produto. Essa desilusão musical e cênica moldou o cinismo de Constantine. Ele percebeu que gritar em um microfone não mudaria o mundo, e que os mesmos garotos que cantavam sobre anarquia acabavam mortos de overdose nos becos.
A atitude punk de cuspir na cara da autoridade, no entanto, permaneceu. Constantine trata os Senhores do Inferno com o mesmo desdém que um vocalista punk trataria um policial tentando acabar com um show de porão.
O desastre de Newcastle: o ponto de ruptura

Se todo herói tem uma “história de origem” que o impulsiona, a de Constantine é um estudo sobre fracasso e arrogância. O verdadeiro nascimento psicológico do personagem ocorre no sombrio incidente de Newcastle, em 1978.
John era o líder de uma banda punk e de um grupo amador de ocultistas chamado Newcastle Crew. Quando descobriram que um homem abusivo estava usando magia negra em sua própria filha, Astra Logue, libertando um monstro chamado Norfulthing, John achou que podia resolver tudo.
Para derrotar a criatura, Constantine invocou o demônio Nergal. O feitiço saiu de controle, Nergal massacrou o monstro, mas levou a alma da pequena Astra diretamente para o Inferno. A culpa e a falha em salvar a garota quebraram a mente de John. Ele foi internado no Asilo Psiquiátrico de Ravenscar, onde sofreu abusos, terapias de choque e afundou na loucura, até perceber que a única forma de sobreviver era aceitar a escuridão do mundo. Newcastle é a sombra permanente de John; é a prova definitiva de que suas boas intenções são letais.
O cemitério ambulante e os danos colaterais

A tragédia que cerca John Constantine não tem a grandiosidade de um apocalipse bíblico; ela é íntima, mundana e profundamente suja. A verdadeira maldição do mago é que ele sempre sobrevive, e o universo cobra o preço dessa sobrevivência arrancando a vida de quem comete o erro de amá-lo ou segui-lo. É um roteiro de fatalidade implacável, onde os personagens caminham para o abatedouro seduzidos pela lábia de um homem que não consegue salvar a si mesmo.
Se formos investigar a cena do crime que é a vida de Constantine, os cadáveres contam uma história de manipulação fria e desespero.
O panteão de vítimas de John não é formado por soldados mortos em batalha, mas por amigos que foram usados como escudos humanos.
● Gary Lester (O Cordeiro Sacrificial): Gary era um amigo de juventude, frágil e consumido pelo vício em heroína. Quando ele inadvertidamente liberta um demônio da fome (Mnemoth) em Nova York, John não o salva. Pelo contrário: Constantine engana Gary, usando o corpo do próprio amigo como uma armadilha viva para aprisionar o demônio, condenando-o a uma morte lenta e torturante. John chora, mas sacrifica o peão para ganhar o jogo.
● Emma (A Ilusão do Afeto): nos primeiros arcos da HQ, John ousa tentar ter uma vida normal com sua namorada, Emma. A resposta do universo é brutal. Ela é caçada e brutalmente assassinada pelo Invunche (um monstro deformado a serviço da Brujeria), apenas para enviar uma mensagem a Constantine. Amar John é assinar a própria sentença de morte.
● Ritchie Simpson (O Mago Consumido): outro sobrevivente do trauma de Newcastle. Ritchie era um mago quântico cujos acordos e relutância em ajudar John o levaram a ser queimado vivo. Mesmo depois de ter sua consciência transferida para servidores de computador e, posteriormente, transformada em um demônio tecnológico, a influência de Constantine sela sua aniquilação total.
● Irmã Anne-Marie (A Fuga Negada): após o desastre que levou a pequena Astra ao inferno, Anne-Marie tentou lavar a sujeira de sua alma buscando refúgio na Igreja Católica. Porém, o passado não perdoa. John a arrasta de volta para a escuridão quando a seita da Brujeria atinge seu convento, provando que não há água benta no mundo capaz de limpar o sangue que espirra das ações de Constantine.
Essa investigação sobre as vítimas revela o aspecto mais perturbador da psiquê do mago. Os fantasmas de Gary, Emma, Ritchie e tantos outros não desaparecem. Eles seguem Constantine como uma plateia silenciosa e mutilada. Eles surgem nos momentos em que ele está sozinho, não como monstros que querem rasgar sua garganta, mas como um lembrete melancólico da sua covardia e do seu egoísmo.
A rodovia da sincronicidade: o “poder” mais perigoso do mundo

Existe um conceito fundamental na mitologia do personagem que explica como um homem sem superpoderes sobrevive a entidades cósmicas: a Rodovia da Sincronicidade (Synchronicity Wave).
Magia, para Constantine, tem muito a ver com alinhar-se ao caos natural do universo. Ele “surfa” nessa onda de probabilidades, fazendo com que as coincidências trabalhem a seu favor. É por isso que, quando ele mais precisa, um isqueiro falha na mão do assassino, um táxi aparece no segundo exato para a fuga, ou o inimigo pisa no único assoalho podre da sala.
No entanto, o universo cobra um pedágio altíssimo por essa sorte emprestada. Para cada vez que a sincronicidade salva a vida de John, a tragédia é desviada e acaba caindo no colo de quem estiver mais próximo a ele. A sua sorte é, literalmente, o azar letal dos seus amigos.
Hábitos perigosos: o homem que enganou o Triumvirato

Nenhum arco define melhor a espinha dorsal narrativa de “Hellblazer” do que “Hábitos Perigosos” (escrito por Garth Ennis e ilustrado por Will Simpson). É a quintessência do cinismo e da audácia narrativa.
Constantine, o homem que escapou de deuses antigos, seitas apocalípticas e bestas infernais, é derrotado pelo câncer de pulmão terminal. A ironia é cortante e humilhante: o mago intocável está morrendo, engasgado pelo próprio vício, definhando numa cama de hospital londrina enquanto seus inimigos infernais esfregam as mãos, aguardando o momento de dilacerar sua alma por toda a eternidade.
A solução? Em vez de implorar por misericórdia divina, John arma o golpe do século. Ele vende sua alma simultaneamente para os três senhores do Inferno — o Triumvirato. Quando ele finalmente morre, os três reis se materializam para clamar a posse da alma, descobrindo o estelionato cósmico. Para evitar uma guerra civil no Inferno que inevitavelmente destruiria o próprio reino das trevas caso lutassem pelo prêmio, eles são obrigados a curar o câncer de Constantine, trazendo-o de volta à vida a contragosto.
“Eu sou o homem que mostrou o dedo do meio para o Primeiro dos Caídos. Eu sobrevivi.”
Ele venceu. Mas a vitória em “Hellblazer” sempre deixa um gosto de cinzas na boca. Ele acende outro cigarro assim que sai pelas portas do hospital, perpetuando seu ciclo patético de autodestruição.
O intruso de sobretudo e a ferida no panteão da DC

Quando inserido no universo regular da DC Comics, Constantine atua como um agente de contrapeso. Em um panteão povoado por deuses com capas, de moralidade inabalável e discursos grandiosos, ele é a mancha de graxa no tapete. Sua relação com figuras como Batman ou Superman é marcada pela desconfiança mútua. Os heróis o veem como um charlatão perigoso e sem princípios; Constantine os vê como idealistas alienados que não entendem como a sujeira do mundo realmente funciona.
Sua psiquê é um cenário noir estilhaçado, não muito diferente das sombras projetadas nos becos frios e nebulosos de uma metrópole dos anos 50, onde o sobrenatural rasteja sob a neblina e a corrupção mundana. Ele sofre de uma depressão altamente funcional, movido por um ódio visceral por si mesmo e por um senso de dever macabro. Ele sabe que está condenado, mas se recusa a deixar o tabuleiro antes de cuspir no olho dos deuses e demônios que apostam com as vidas alheias.
As faces de um mago operário: as inspirações e o ocultismo de Alan Moore

A concepção visual de John Constantine nasceu de uma brincadeira interna entre os desenhistas Stephen R. Bissette e John Totleben, que queriam desenhar um personagem com a exata fisionomia do cantor Sting, na época em sua fase no “The Police”. No entanto, quando Alan Moore assumiu o controle criativo para integrá-lo a “Monstro do Pântano”, a casca pop ganhou uma alma complexa, forjada no profundo interesse de Moore pelo ocultismo e pela magia do caos. Moore não queria um arquétipo de feiticeiro distante e intocável. Ele desenhou um ocultista da classe trabalhadora, um homem que trata o sobrenatural com o mesmo desdém mundano de um operário batendo ponto.

A relação de Moore com sua criação transcende a tinta e o papel. O próprio autor relatou, em mais de uma ocasião, ter “encontrado” John Constantine na vida real. O autor contou à revista “Wizard” que estava em Westminster, Londres, sentado tranquilamente no segundo andar de uma lanchonete. E de repente, um homem subiu as escadas. Ele usava o icônico sobretudo bege e tinha o cabelo loiro cortado curto. Moore enfatizou que não era o cantor Sting, mas sim o próprio Constantine em carne e osso.
O homem andou pelo local, fixou os olhos diretamente em Moore, deu um sorriso cúmplice, acenou com a cabeça e caminhou para o outro lado do estabelecimento. Chocado, Moore preferiu apenas terminar seu sanduíche e ir embora, temendo o que aconteceria se o seguisse. Já um segundo encontro, aconteceu anos mais tarde, Moore afirmou ter cruzado com ele novamente. Dessa vez, a aparição foi mais mística: Constantine simplesmente surgiu do nada, se aproximou do autor e sussurrou em seu ouvido o que chamou de “o segredo supremo da magia“:
“Eu vou lhe contar um segredo sobre a magia: qualquer idiota consegue fazer”.
Esse fenômeno, Moore atribui à capacidade da magia (e da literatura) de criar tulpas, formas-pensamento que ganham vida própria. Mas, ele não foi o único à testemunhar a possibilidade de John Constantine realmente estar andando por aí…
Durante o período em que escrevia as histórias do mago, Jamie Delano estava caminhando nos arredores do Museu Britânico, em Bloomsbury. Ele afirmou ter visto Constantine nitidamente parado do lado de fora do museu. O personagem parecia estar apenas observando o movimento, mantendo a postura cínica de sempre. Delano reconheceu sua própria criação imediatamente, mas decidiu manter distância. Além dele, por volta de 2009, Peter Milligan estava em uma festa.
No meio da multidão, ele avistou um homem idêntico a John Constantine. Diferente dos outros autores, Milligan decidiu ir atrás dele. Ele começou a abrir caminho entre as pessoas na pista para tentar alcançá-lo e confrontá-lo, mas o homem misteriosamente o encarou, sorriu e desapareceu antes que o escritor pudesse alcançá-lo.
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O rosto de Constantine: Keanu Reeves vs. Matt Ryan

A popularidade do personagem o levou inevitavelmente para as telas, criando um dos maiores debates do fandom de quadrinhos. De um lado, o filme “Constantine” (2005), com Keanu Reeves. O longa entregou um excelente suspense sobrenatural, com uma estética invejável e uma visão aterradora do Inferno, mas sacrificou o DNA do personagem. O Constantine de Keanu é um exorcista americano, trágico e deprimido, mas sem o sarcasmo punk, o sotaque de Liverpool ou o sobretudo icônico.
Do outro lado, a série de TV e as animações trouxeram Matt Ryan, que encarnou a versão definitiva do papel. Ryan capturou com perfeição o cinismo, o humor negro, a bissexualidade canônica e a malandragem do mago de colarinho sujo. Enquanto o cinema tentou transformá-lo num herói de ação sombrio, a televisão entendeu que o brilho de Constantine está em sua covardia ocasional e em sua inteligência traiçoeira.
A tragédia cotidiana e o peso das escolhas
E aqui chegamos ao cerne da tragédia humana de John Constantine: a Síndrome do Sobrevivente.
O mago sobrevive a tudo, mas nunca escapa do peso esmagador das suas escolhas. O preço de ser sempre o cara mais esperto da sala é que os cadáveres começam a se empilhar ao seu redor. O infame Incidente de Newcastle onde, em sua arrogância juvenil e prepotência, ele tentou exorcizar um demônio invocando um pior, e acabou condenando a alma de uma garotinha inocente (Astra) ao inferno, é o pecado original que corrói a parede do seu estômago dia após dia.
Quase todos os amigos, amantes, familiares e aliados que ousam se aproximar de John Constantine acabam mortos, enlouquecidos ou mutilados. Chas Chandler, seu taxista e amigo mais leal, é uma das raras exceções que sobrevive a duras penas. John usa as pessoas como escudos humanos e peões de xadrez em seu jogo eterno contra as trevas.
A verdadeira angústia da HQ não reside no horror cósmico ou nos monstros debaixo da cama, mas na solidão crônica de um homem que sabe que é perigoso demais para se amar, mas essencialmente egoísta demais para se afastar. É uma crônica dolorosa sobre a natureza falha, rasteira e patética do ser humano. Constantine mente, trai, foge, sangra e chora, mergulhado na culpa de um mundo que nunca será limpo por ele. Ele pode enganar o Diabo repetidas vezes com um sorriso torto no rosto, mas, no silêncio perturbador de seu apartamento, quando a fumaça finalmente dissipa, ele jamais consegue enganar a si mesmo
Imagem Destacada: Divulgação/Gerada por Inteligência Artificial


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