Jay Kay comandou uma banda afiada em um show que passou por “Space Cowboy”, “Canned Heat”, “Cosmic Girl” e “Virtual Insanity” sem depender apenas da nostalgia
Jamiroquai chegou ao Rock in Rio 2026 em uma noite bastante peculiar. Enquanto o Palco Mundo estava tomado pelo público que aguardava o Stray Kids, o Palco Sunset recebeu uma plateia diferente, formada por fãs antigos, curiosos, adultos que cresceram vendo “Virtual Insanity” na MTV e gente que simplesmente queria dançar. Quando Jay Kay apareceu, ficou claro que aquele público não estava ali para matar tempo. O grupo britânico encerrou a programação do Sunset na sexta-feira, 11 de setembro, com uma apresentação que fez o espaço funcionar como uma grande pista ao ar livre.
O Jamiroquai não precisou de grandes truques para chegar lá. A banda confiou justamente naquilo que construiu durante mais de três décadas: baixo na frente, bateria seca, teclados, guitarras, metais, backing vocals e uma coleção de músicas que parece ter sido escrita para fazer o corpo responder antes mesmo que a cabeça reconheça o título. Jay Kay, por sua vez, comandava tudo com aquela combinação já conhecida de chapéus, passos soltos, provocações e uma relação muito física com a música.
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Quando a banda começa a tocar, o corpo entende primeiro
A abertura com “(Don’t) Give Hate a Chance” já apresentou a proposta sem rodeios. Depois veio “Little L”, uma das faixas mais dançantes da fase dos anos 2000, e logo em seguida “Space Cowboy”, clássico que levou a apresentação de volta ao período em que o Jamiroquai se estabeleceu como um dos grandes nomes do acid jazz britânico.
Essa passagem entre épocas aconteceu de maneira muito natural. O repertório circulou por álbuns como “Emergency on Planet Earth”, “The Return of the Space Cowboy” e “Travelling Without Moving”, trabalhos que ajudaram a definir a identidade do grupo nos anos 1990 e consolidaram aquele encontro entre funk, soul, disco, jazz e música eletrônica.
Ouvir essas músicas ao vivo deixa uma coisa muito clara: chamar Jamiroquai apenas de banda nostálgica é pouco. O que segura o show não é o reconhecimento de uma melodia antiga e,sim, a maneira como os músicos trabalham juntos. Há pequenos detalhes rítmicos acontecendo o tempo inteiro, mudanças de dinâmica, espaços para o baixo respirar e momentos em que a banda parece esticar uma faixa sem perder o controle do andamento.
É um tipo de show que depende muito mais de execução do que de cenografia. E isso fez diferença em um festival tão acostumado a produções gigantescas.
Jay Kay continua sendo uma figura difícil de ignorar
Jay Kay sempre foi parte central da imagem do Jamiroquai, e no Rock in Rio não foi diferente. Ele entrou e saiu do palco, trocou figurino, dançou, conversou com o público e voltou a exibir aquele jeito muito particular de se movimentar, quase como se estivesse sempre escapando do próprio eixo. Durante “Alright”, chegou a descer para se aproximar da plateia. Mais tarde, repetiu a aproximação em “Canned Heat”.
Em outro momento, apareceu usando um casaco com as cores da bandeira brasileira, gesto simples que provocou resposta imediata do público.
A voz naturalmente carrega as marcas do tempo e não soa exatamente como nos discos gravados há três décadas. Isso, porém, teve menos peso do que poderia parecer. O próprio arranjo do show ajuda a sustentar a apresentação, com backing vocals fortes e uma banda que sabe como ocupar os espaços sem sufocar o vocalista. A Folha destacou justamente essa combinação entre o Jay Kay atual e a estrutura musical ao redor dele.
Mais interessante foi perceber que ele não entrou em cena tentando reproduzir uma versão congelada de si mesmo. O jeito de cantar mudou, a energia é outra e o corpo já não responde como em 1996, mas a personalidade continua muito reconhecível. E para uma banda cuja identidade sempre dependeu bastante do carisma de seu vocalista, isso conta muito.
Uma sequência de hits praticamente sem intervalo
Quando “Travelling Without Moving”, “Canned Heat”, “Cosmic Girl” e “Love Foolosophy” começaram a aparecer no repertório, a apresentação entrou naquele território em que praticamente não havia mais espaço para respiro. Cada música trazia um refrão conhecido ou uma linha de baixo imediatamente reconhecível.
“Canned Heat”, em especial, mostrou por que continua sendo uma das faixas mais fortes do catálogo. É uma música feita para movimento e ganhou uma resposta proporcional no Sunset. “Cosmic Girl” veio carregada daquele refinamento disco que sempre diferenciou o Jamiroquai de boa parte dos artistas que tentaram ocupar o mesmo terreno, enquanto “Love Foolosophy” trouxe a leveza pop que marcou o início dos anos 2000.
O curioso é que essa coleção de sucessos não produziu um show previsível. Em outras mãos, uma sequência dessas poderia soar como retrospectiva automática. Aqui, a instrumentação ao vivo mudava o peso das músicas e dava a cada uma delas uma textura diferente da gravação original.
É provavelmente por isso que o Jamiroquai continua funcionando tão bem em festival. Mesmo quem não conhece profundamente a discografia entende rapidamente o que está acontecendo. Não há um conceito complicado para acompanhar. Você entra, ouve o baixo, sente a bateria e percebe que já está dançando.
“Virtual Insanity” entrega o momento que todo mundo esperava
Era impossível imaginar aquele show terminando sem “Virtual Insanity”. A faixa lançada em 1996 continua sendo o cartão de visita mais reconhecível do Jamiroquai e ganhou uma segunda vida constante nas décadas seguintes, tanto pela música quanto pelo videoclipe dirigido por Jonathan Glazer, que se tornou um dos símbolos da era de ouro da MTV.
No Rock in Rio, ela cumpriu exatamente o papel esperado: reuniu fãs de diferentes idades no mesmo refrão e fechou uma apresentação que havia percorrido mais de 30 anos de repertório. A Folha apontou a música como o desfecho da sequência de sucessos que marcou a passagem da banda pelo Sunset.
E talvez seja justamente nessa faixa que fique mais fácil perceber por que o Jamiroquai ainda encontra público. “Virtual Insanity” pertence de forma muito clara aos anos 1990, mas não soa presa naquele período. O baixo continua funcionando, o arranjo continua sofisticado e o refrão ainda parece grande quando tocado diante de milhares de pessoas.
O Sunset encontrou um público que queria exatamente aquilo
Havia também uma dinâmica interessante acontecendo fora do palco. Nessa sexta-feira, boa parte da Cidade do Rock estava concentrada no Palco Mundo por causa do primeiro dia dedicado ao K-pop, especialmente pela expectativa em torno do Stray Kids. Mesmo assim, o Jamiroquai conseguiu reunir um público considerável no Sunset, inclusive fãs que foram ao festival especificamente para vê-los.
Tinham pessoas de todas de diversas idades ali. Esse recorte dizia bastante sobre aquele momento do festival. Enquanto uma nova geração vivia sua primeira experiência de Rock in Rio diante do K-pop, em outro palco havia gente revisitando músicas que fizeram parte da própria juventude.
Só que o show do Jamiroquai não ficou restrito a esse público. Jovens também apareceram no Sunset, e a mistura entre gerações deixou a apresentação com uma atmosfera muito diferente daquilo que acontecia no Palco Mundo. Era outra energia, outro ritmo e outro tipo de relação com a música.
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Jamiroquai ainda sabe exatamente como conduzir uma pista
O Jamiroquai não precisou reinventar a própria história no Rock in Rio 2026. Tampouco tentou fingir que o tempo não passou. O que a banda fez foi colocar seu repertório diante de uma plateia grande, confiar na força dos arranjos e lembrar que algumas músicas continuam funcionando porque foram muito bem construídas desde o começo.
Jay Kay segue sendo um frontman cheio de personalidade, mas o grande mérito da apresentação esteve no conjunto. A banda tocou com precisão, peso e leveza na medida certa, deixando cada instrumento encontrar seu espaço sem transformar o show em exercício técnico.
Foi um show bom de verdade porque havia música suficiente para sustentá-lo do início ao fim. Sem discurso exagerado, sem tentativa de provar relevância e sem depender apenas da memória afetiva. Quando “Virtual Insanity” terminou e o Palco Sunset já havia passado por “Space Cowboy”, “Canned Heat”, “Cosmic Girl”, “Alright” e tantos outros momentos conhecidos, ficou uma impressão simples: o Jamiroquai ainda sabe exatamente como fazer uma multidão dançar.
Imagem Destacada: Reprodução/Rock in Rio


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