Com sambas que atravessam memória, identidade e resistência, a Estação Primeira de Mangueira mostra como o carnaval também pode formar jovens, preservar histórias e fortalecer pertencimentos
Mangueira é mais do que uma escola de samba. É memória, território, resistência e herança cultural. Em uma sociedade em que referências negras frequentemente são marginalizadas, o samba-enredo oferece a jovens ouvintes uma narrativa de orgulho, pertencimento e ancestralidade.
Em 28 de abril de 1928, surgia o que viria a se tornar uma das escolas de samba mais respeitadas da história do carnaval carioca: a Estação Primeira de Mangueira, erguida aos pés do Morro da Mangueira, na Zona Norte do Rio de Janeiro, e idealizada por nomes como Cartola, Abelardo da Bolinha, Carlos Cachaça, Zé Espinguela, Euclides Roberto dos Santos, Saturnino Gonçalves, Marcelino José Claudino e Pedro Caim.
A escola tem esse nome porque, na época, ficava localizada na primeira parada de trem, saindo da antiga Estação Dom Pedro II, atual Central do Brasil, onde havia samba. Assim nasceu a Estação Primeira.
Além de ter sido uma das pioneiras na valorização de seus compositores, a Mangueira também se tornou uma das grandes vencedoras dos famosos Estandartes de Ouro, apelidados carinhosamente de “Oscar do carnaval carioca”, e segue, cada dia mais, cativando quem se aproxima de sua história.
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A força social dos sambas da Mangueira
Mas, por trás de todo o glamour, a Mangueira também é uma das escolas que mais marcaram debates raciais e sociais no carnaval. Seus sambas trazem críticas incisivas sobre como parte da sociedade consome e celebra um estilo de vida marginalizado quando lhe convém, enquanto, depois que o carnaval acaba, a juventude negra segue sendo violentada no resto do país.
Essa mesma juventude produz o samba, o ritmo, a dança e o estilo que tantas vezes são apropriados, celebrados e esvaziados quando deixam de ser vistos em seus territórios de origem.
Canções como “A verdade vos fará livre”, “À Flor da Terra – No Rio da Negritude entre dores e paixões” e “Angenor, José & Laurindo” continuam sendo cantadas de peito aberto mesmo depois de seus respectivos desfiles. Isso prova que a mensagem passada ultrapassa o carnaval.
No samba “A verdade vos fará livre”, por exemplo, é apresentada uma história alternativa sobre o descobrimento do Brasil. Nela, a representatividade afro-indígena está no centro da narrativa, dando voz a heróis injustiçados e apagados da história oficial.
Mais do que escrever canções que ecoam gerações para desfiles, os compositores e percussionistas assumem a importante função de cronistas da comunidade, transformando acontecimentos históricos e reivindicações sociais em versos que alcançam milhões de pessoas ao redor do mundo.
Todos os anos, as escolas de samba do Rio se comprometem a mostrar histórias que nem sempre foram contadas ou divulgadas. Há uma pesquisa constante, desde a escolha do enredo até o instrumento usado para dar voz ao imaginário da obra.
Mangueira do Amanhã e a formação de novas gerações
Mas a força dessas narrativas não se limita à avenida. Para que o samba ecoe por gerações, é preciso que novas vozes sejam desenvolvidas e que a cultura do sambista permaneça viva entre os mais jovens.
É exatamente nesse contexto que surge a escola mirim Mangueira do Amanhã, criada com o objetivo de aproximar crianças e adolescentes do universo do samba. Muito além de preparar futuros passistas, ritmistas, compositores e intérpretes, o projeto tem o papel crucial de repassar valores, memória e legado que mantêm viva a identidade da escola.
Através da música e da vivência, a Mangueira consegue transmitir a sensação de pertencimento e orgulho de suas origens e características. Isso é suficiente para manter vivo o legado da verde e rosa e continuar inspirando novas gerações.
Para a dançarina Manuela Pereira, de 20 anos, nascida e criada no Morro da Mangueira, a influência da escola vai muito além da avenida. Integrante da Mangueira do Amanhã durante a infância e participante de diversos projetos ligados à agremiação ao longo dos anos, ela acredita que um dos maiores legados deixados pela escola para os jovens está na preservação da memória e da ancestralidade.
“As pessoas hoje em dia têm que entender que não é só dança, música e balançar o quadril. Existe estudo, existe história. Não é só samba, é ancestral”, afirma.
Para ela, compreender o caminho percorrido pelas gerações anteriores é fundamental para que essa herança cultural continue viva e inspire novos sambistas.
“Você fala: nossa, eu tinha que experimentar isso pelo menos uma vez na vida (…) acho que esse foi um dos maiores impactos que teve, que, sinceramente, eu espero passar para a minha filha.”
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O samba como memória e pertencimento
Para além da quadra, os sambas da escola também impactam diretamente a vida de outros jovens da comunidade, desde ensinar sobre resiliência até manter vivas as memórias de entes queridos que já se foram, como é o caso da estudante e vestibulanda Germana Virodasi.
“O samba-enredo de 2019 me marcou completamente. Me arrepio da cabeça aos pés toda vez que ele toca, como se estivesse ouvindo pela primeira vez. É um samba que mexe muito comigo, porque, além da melodia emocionante, a mensagem me faz refletir profundamente sobre a nossa história e sobre as pessoas que muitas vezes foram esquecidas. Eu sinto orgulho, emoção e até um nó na garganta quando escuto. Para mim, ele representa a força da verdade, da resistência e da valorização de quem ajudou a construir o Brasil. Foi um samba que não só me emocionou, mas também mudou a forma como eu enxergo a história do nosso país. E também foi o último enredo no qual eu tive as minhas referências de samba presentes fisicamente na minha vida.”
Germana segue frisando, com orgulho, que a Mangueira é uma das principais pontes que ligam as transformações sociais às suas origens.
“A Mangueira não só hoje, mas desde que eu me entendo por gente, representa orgulho, resistência, cultura e identidade. É muito mais do que uma escola de samba, é um símbolo de luta, de valorização das raízes e de transformação social através da arte (…) além disso, eles me ajudaram a valorizar ainda mais minhas origens e a riqueza da cultura popular brasileira. Me fez ter interesse em cursar a faculdade de História, me inspira diariamente a ter sede de fortalecer a nossa cultura. Através dos sambas e dos desfiles, eu aprendi muita coisa e passei a me sentir mais conectada com minhas origens. Um sentimento de orgulho e pertencimento que cresce a cada ano e que me faz ter ainda mais carinho pela escola e por tudo o que ela representa pra mim.”
Mais do que uma escola de samba
Mais do que uma escola de samba, a Mangueira é parte de um movimento cultural que segue, ano após ano, enfrentando represálias, apagamentos e tentativas de esvaziamento da cultura popular.
Fazer com que os mais novos se interessem por sua música e sua arte é uma forma de manter parte da herança do samba carioca viva no coração de cada um.
Imagem Destacada: Divulgação/Gerada por inteligência artificial


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