Em entrevista à Woo! Magazine, Naruna Costa refletiu sobre personagens femininas complexas, cultura periférica e os desafios emocionais de “Coração Acelerado”
Naruna Costa segue emocionando o público através de personagens intensas e narrativas carregadas de humanidade. Com uma carreira construída entre o teatro, a música e o audiovisual, a atriz vive um novo momento de destaque em “Coração Acelerado”, interpretando Valéria, personagem que provoca debates sobre maternidade, abandono e vulnerabilidade feminina.
Em entrevista exclusiva à Woo! Magazine, Naruna também falou sobre ancestralidade, cultura periférica, representatividade negra e o papel transformador da arte em sua trajetória.
Confira a entrevista completa com Naruna Costa:
Jéssica Meireles (J.M.): Você vive um momento de grande visibilidade com “Coração Acelerado”. Como tem sido interpretar Valéria, uma personagem marcada por conflitos internos e escolhas difíceis?
Naruna Costa (N.C.): Sim. Eu vivo um momento muito interessante da minha carreira. Depois de ter estreado o filme “Salve Geral”, primeiro spin-off da Netflix Brasil, que se tornou um fenômeno global e atingiu o topo dos filmes mais vistos do mundo na plataforma, e agora interpretando Valéria em “Coração Acelerado”.
Uma personagem que chega com muita força na história por tratar de uma questão que é um grande tabu na sociedade: o abandono.
Esse tema é bastante naturalizado quando se refere ao abandono por “pais”. Há um número assustador de mulheres que são abandonadas por companheiros durante a gravidez, ou homens que não assumem seus papéis de pais, abandonando seus filhos e filhas ainda crianças.
Mas, quando se trata da mãe, é muito raro ouvir falar. A mãe, no imaginário da nossa sociedade, é uma heroína, que suporta qualquer adversidade, fica, cria e cuida. Mas, infelizmente, às vezes a realidade não é assim. Por inúmeros motivos. E, por se tratar de uma sociedade patriarcal, as mulheres são condenadas moralmente por essa atitude, sem que seus motivos sejam ouvidos ou debatidos.
Não que eu esteja defendendo a atitude da Valéria, mas é interessante observar o julgamento que ela tem recebido por ter abandonado a filha ainda pequena para tentar viver uma vida diferente ao lado de um novo companheiro. Uma atitude comum aos homens, mas que raramente é questionada. Um exemplo é o próprio pai da Duda. Quem foi? Onde está? Por que as abandonou? Nem a própria personagem questiona isso no enredo, muito menos o público.
Na história delas, existe um histórico de abandono. O pai da Valéria a coloca para fora de casa quando descobre que ela está grávida. Depois, ela é abandonada pelo companheiro antes mesmo de dar à luz Duda e cria a filha na rua, sem perspectivas, durante cerca de nove anos. Mais tarde, abandona a menina para tentar sobreviver e refazer sua vida.
É claro que o abandono de crianças é sempre inaceitável, mas tem sido interessante tentar buscar as justificativas para o ato dela, compreender e aceitar que nem todas as mulheres estão preparadas para serem mães e que uma mãe vivendo em situação de vulnerabilidade pode, sim, correr o risco de não aguentar a carga, de não ter forças, de não conseguir ajuda, de não saber pedir ajuda. Isso acontece muito no Brasil.
As mães perdem suas identidades quando são abandonadas pelos companheiros e pela família e se veem com a responsabilidade de criar filhos sem estrutura financeira, psicológica ou afetiva. Sem rede de apoio. É muito triste e é real.
Por isso, acho a Valéria um grande presente na minha trajetória, pois se trata de uma mulher real, sem a armadura da supermãe e da supermulher que muitas vezes somos obrigadas a vestir. A Valéria cometeu um erro enorme ao abandonar a filha. Mas será que ela é um monstro por isso? Ou ela veio para questionar uma sociedade que fecha os olhos para as vulnerabilidades femininas?
J.M.: Naruna, você transita em várias frentes artísticas além da atuação, como diretora, cantora e compositora. O que é mais desafiador hoje: equilibrar essas diferentes áreas ou se reinventar dentro de cada uma delas?
N.C.: Sim, eu sou uma artista que transita em muitas áreas. Isso me fortalece. Às vezes é difícil administrar, confesso, mas acredito muito que a arte da atuação requer conhecimentos constantes sobre o ser humano e sobre a técnica da linguagem, seja ela cinema, TV ou teatro. Eu sou uma atriz, acima de tudo, que tem fome de conhecimento.
Quando estou fazendo música, dirigindo teatro ou audiovisual, minha atriz não está descansando. Ela está estudando, junto comigo, todas essas outras camadas que vão engrossar o caldo da minha atuação.
O grande desafio é não congelar a estética. Sou uma artista negra, que traz a questão racial politicamente comigo em tudo o que faço, e o desafio é “não ter resposta”. A minha busca é a pergunta. Fazer as perguntas certas, mas elas mudam à medida que o tempo passa. Ainda bem. E eu as persigo para que minha arte esteja sempre em diálogo com o tempo e com o povo, ou seja: uma arte popular contemporânea.
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J.M.: Ao olhar para sua trajetória, existe algum papel que você considera um marco ou ponto de virada na carreira?
N.C.: Eu certamente sou muito feliz com minha trajetória artística. Amo as personagens que interpretei e as carrego com muito afeto.
Mas, sim, acredito que a Cristina, da série “Irmandade” (Netflix), foi um ponto de virada importante. Uma protagonista complexa, delicada e cheia de dilemas em um universo bastante violento e duro, que é o das facções criminosas.
Sou apaixonada por essa personagem, porque ela tenta soluções insolúveis e erra. Muito. Acredito nessa humanidade. Acredito muito nesse caminho de uma personagem que faz a gente refletir também através dos erros. A gente torce por ela, se irrita com ela, mas não a abandona. Porque a pergunta: “O que eu faria se estivesse no lugar dela?” reina soberana. Afinal, não são escolhas fáceis.
Isso é tudo o que eu desejo em uma personagem: subjetividade, complexidade e conexão com o público. E Cristina me apresentou isso. O resultado foram duas temporadas de sucesso e um spin-off chiquérrimo em uma das maiores plataformas de streaming do mundo.
J.M.: Sua trajetória é marcada pelo engajamento com a cultura periférica e negra. De que forma suas origens em Taboão da Serra influenciam as histórias que você escolhe contar?
N.C.: Minha origem é minha maior referência. Eu não a abandono, pelo contrário, ainda sigo em busca de mais informações sobre ela. Olho para a periferia em que nasci e me criei como a minha escola para a vida e para as artes. Ali existe uma cultura imensa, vinda de vários lugares do país, muita tecnologia de sobrevivência e muito conhecimento sobre a nossa matéria-prima mais importante: a vida.
Eu não romantizo a precariedade da vida na periferia, mas também não resumo a história dessas comunidades a isso. Sim, existe muita carência, mas, para forjar meu teatro, passei a observar as abundâncias, aquilo de conhecimento que só a gente tem.
O povo é a fonte de toda boa história contada nas artes do Brasil. Eu sou do povo, honro meu povo e acredito na força da minha ancestralidade, que é negra, nordestina e periférica. Gosto e confio na nossa cultura, potencializo-a e faço a crítica à falta de estrutura, ao abandono do poder público e ao racismo estrutural que engessa os olhares das dramaturgias e teledramaturgias sobre nós.
J.M.: Como cofundadora do Grupo Clariô de Teatro, você ajudou a construir um espaço importante para a produção cultural periférica. Qual você considera o maior impacto desse trabalho hoje?
N.C.: Acho que a maior conquista de espaços independentes como o Espaço Clariô, que existe há vinte anos na periferia, é justamente a possibilidade de novas perspectivas para a cena. É um espaço que fortalece nossas narrativas, cria base, assentamento e produção de pensamento acerca das presenças de pessoas negras, indígenas, periféricas e dissidentes, no geral, no centro do palco.
Nós reivindicamos que as nossas narrativas estejam inclusas nos grandes meios de comunicação e acredito que espaços como o Clariô, e tantos outros espaços culturais construídos bravamente em galpões, bares, escolas e quintais pela periferia afora, são fundamentais para anunciar, amparar e debater essas narrativas e essas construções estéticas e políticas dentro do movimento de cultura periférica.
Além disso, esses espaços ajudam a revelar novos ofícios, novas vocações e novas possibilidades para essas comunidades.

J.M.: Na televisão e no streaming, você esteve em produções como “Irmandade” e “Falas Negras”, onde interpretou Angela Davis. O que essas experiências acrescentaram à sua visão artística?
N.C.: Fazer Angela Davis em “Falas Negras”, dirigido por Lázaro Ramos, foi algo extraordinário na minha carreira. Acho que, definitivamente, me apresentou uma responsabilidade que eu nem sabia que seria capaz de assumir. Estamos falando de uma das ativistas mais importantes do mundo, uma grande referência para mim e para tantas outras mulheres negras da minha geração e de tantas outras.
Foi uma honra, um privilégio e um luxo que, assim como interpretar Elza Soares no teatro, me elevou como artista e é uma memória que vou carregar para sempre, com muito carinho no meu coração.
J.M.: Você também se destaca na música com o grupo Clarianas. Como a música dialoga com o seu trabalho como atriz e diretora?
N.C.: Clarianas é uma missão. É um compromisso que tenho com minha ancestralidade. O canto das Clarianas é um canto que tenta honrar as mulheres do Brasil, as cantadeiras, as mais velhas. Eu amo esse projeto porque nele meu pé fica no chão, mas eu voo longe. O canto tem esse poder, né? De se comunicar de forma sagrada mesmo.
Acho que o canto das Clarianas me fortalece como artista porque, além de me estruturar tecnicamente dentro de uma linguagem, é a arte que carrega mais profundamente minha identidade. Eu escrevo, eu canto, eu interpreto.
J.M.: Entre os próximos lançamentos, há diversos projetos no cinema e no streaming. O que o público pode esperar dessa nova fase no audiovisual?
N.C.: Nossa… muita coisa. Pena que eu não posso falar muito. Mas vêm aí duas séries, quatro longas-metragens, dos quais em dois eu sou protagonista. Além disso, tem mais uma peça de teatro e um novo disco. Tem outras coisas também, mas acho que ainda não posso contar sem detalhar.
J.M.: Você está preparando seu primeiro longa como diretora, um documentário sobre Sérgio Vaz. O que te motivou a contar essa história?
N.C.: Gente, infelizmente descobri que não posso falar sobre esse projeto. Mas vou falar de outro, que já foi lançado e agora está no mundo. E é muito legal também: eu dirigi o material audiovisual da nova turnê do Emicida.
O disco que ele acabou de lançar tem uma conexão muito grande com a peça que dirigi recentemente, e na qual ele fez a direção musical, “Tá Pra Vencer”, de Jhonny Salaberg. A peça fala sobre saúde mental da população negra. O Emicida gostou tanto do trabalho e viu tantas conexões que decidiu incluir cenas no show de lançamento do álbum, que homenageia os Racionais.
O show foi dividido em cinco atos e, em cada um deles, existe uma cena narrada por um ator ou atriz, cujo texto fala sobre questões vinculadas ao excesso de trabalho, à falta de tempo para descanso e conexões pessoais, à dificuldade de pedir ajuda e ao desespero para “vencer na vida”. O próprio Emicida faz um texto que começa no audiovisual e termina no palco.
Eu tive a alegria de dirigir todas as cenas com uma equipe maravilhosa, que agora está rodando o Brasil depois de um lançamento lindo para milhares de pessoas em São Paulo.
Eu flerto com a direção em audiovisual há bastante tempo. Primeiro, pela minha carreira como diretora de teatro, mas também pelo conhecimento que fui adquirindo nos próprios sets de filmagem. Já dirigi muitas coisas do Grupo Clariô de Teatro e clipes das Clarianas, mas foi a primeira vez que fiz algo nessa proporção, para uma plateia tão grande. E foi muito emocionante.
J.M.: Para encerrar essa entrevista tão especial, sua carreira aborda frequentemente personagens femininas complexas e temas sociais relevantes. Qual você acredita ser o papel da arte hoje na transformação dessas narrativas no Brasil?
N.C.: Acredito que a arte é a flecha sensível que movimenta o mundo, ou as coisas no mundo, para que ele mude por dentro. Eu sou fiel à arte. Acho que, através dela, a gente consegue ter a chance de rever, debater e acreditar em novas possibilidades de se relacionar.
Acho que a arte é capaz de preencher os buracos da nossa história para nos ajudar a compreendê-la e reescrevê-la. É um jeito de juntar passado, presente e futuro para mudar o rumo das coisas que não estão no caminho certo.
Ela é tão potente que é constantemente perseguida, sucateada e afrontada. É difícil demais ser artista neste país, pela falta de estrutura e também pelo nível de sensibilidade. Tem muita coisa errada por aqui. E eu acredito muito que a arte é um jeito possível de olhar para todas elas, colocar a mão na massa e mudar a ordem das coisas.
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Com uma fala sensível, humana e cheia de verdade, Naruna Costa transforma cada personagem em um convite à reflexão. Ao longo da entrevista, a atriz mostrou que sua arte nasce das próprias vivências, das raízes periféricas, da ancestralidade e da vontade de contar histórias que realmente dialoguem com as pessoas.
Em “Coração Acelerado”, Valéria surge como mais uma personagem capaz de provocar debates importantes, enquanto Naruna reafirma sua força artística ao usar a arte não apenas para emocionar, mas também para dar voz, acolher e questionar.
Imagem Destacada: Divulgação/Naruna Costa (Crédito Nikolle Krüger)


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