Parte 7

Terminadas as devidas refeições, outra vez, o senhor Figueira ajeitou-se na cadeira, pondo o corpanzil em uma posição mais adequada. Ele parecia feliz por estar ali, sorria o tempo todo e respirava devagar e profundamente, absorvendo o cheiro do ambiente que, conforme contou-me tio Joaquim, era ‘a mistura perfeita de carvalho, cinzas, café, estofado velho, chá e bolos, sem que isso parecesse algo ruim ou sufocante’.

“Pois bem, eu vou começar a falar, meu caro Joaquim, porque assim posso estabelecer os parâmetros desse debate”, anunciou o recém-chegado amistoso, “Assim as coisas poderão fluir da melhor maneira possível, pois bem, pois bem, vamos lá. A primeira coisa na qual temos que pensar é no valor de cada coisa em si em questão, esse já começa sendo um tema delicado, mas definir o valor da coisa em si, quase como a busca por um ideal kantiano da identidade do mundo, é o que dar-nos-á uma melhor noção sobre qual a importância de cada história, no caso, a ser avaliada. O problema com qualquer noção quanto às coisas em si mesmas é definir quais as características são exclusivamente delas e quais são de outras, ou seja, compartilhadas. É essa a noção de inerente que cria um problema na nossa concepção do mundo, parte de nossas percepções, ainda seguindo a concepção kantiana e idealista de mundo, são secundárias, ou seja, elas dependem de uma primeira camada de realidade à qual nossos sentidos, de maneira alguma, tem acesso”, Figueira fez uma pausa para recuperar o fôlego, “Entende o dilema?”.

Meu tio fez que não com a cabeça, eram muitos termos para ele absorver de uma vez só. Figueira apenas assentiu, como se percebesse a própria afobação apenas naquele momento, e respirou fundo algumas vezes antes de voltar a falar.

“Vamos então de maneira mais lúdica, rodearemos o tema antes de chegarmos a uma mesma conclusão”, ele propôs e meu tio concordou. Pandora, de seu lugar, tricotava e observava com interesse. “Podemos concordar que amor é um tema amplo, certo? As pessoas vivem tentando achar uma definição, encontrar um amor, cercear esse tema e então enquadrar como e quanto devemos sentir, não é verdade? A todo momento tentamos, de maneira empírica, descobrir o que é amor, o que é paixão, mas fazemos isso de maneira teórica. Uma contrapartida a isso são as histórias, são os mitos, as peças de teatro e os livros que nos descrevem o que era o amor naquele caso, mas não tentar limitar ninguém a isso. Veja bem, a melhor maneira de entender algo é descrever minuciosamente o que se passa, especialmente no caso do amor. Não se trata apenas de um sentimento que você tem agora e não tem depois, ele engloba mais do que isso; não é como você se relaciona apenas com aquela pessoa específica, mas como você se relaciona com o mundo de uma maneira geral por causa daquela pessoa e tendo ela em vista; o amor é talvez uma das mais complexas coisas que temos para definir porque ele não diz respeito apenas a como vemos a outra pessoa, mas como vemos a nós mesmos e também o mundo, não podemos excluir desse sentimento todos os processos históricos e culturais que permeiam nossas vidas. Amar é essencialmente ser alguém que pensa e entende outras pessoas dentro de um determinado contexto”, uma pausa para Figueira respirar, ele pegou a xícara de chá e encheu até a metade, depois bebeu um gole devagar, assoprando a bebida quente. “Falar de amor assim, entendendo que essa concepção passa por mudanças históricas e geográficas, quase como uma dialética hegeliana, nos permite olhar para essas duas histórias e notar distinções e semelhanças. Ora essa, a primeira semelhança é obviamente que se trata de uma tragédia de casais apaixonados, e nisso podemos dizer que Shakespeare sofreu uma grande influência, ele é essencialmente um escritor trágico à maneira dos gregos e salvo suas comédias, que pouco se destacam no imaginário popular por não terem esses fatos marcantes a serem repassados, sua forma é a de uma peça helênica, basicamente. Isso fala muito sobre as estruturas e arquétipos em que estão construídos seus personagens, é metade brilhante e metade preguiçoso se quer saber minha opinião pessoal. A diferença entre as histórias, contudo, é o nível de tragédia que desce sobre o casal”, Figueira fez outra pausa e comeu um doce e bebeu mais chá. Não saía mais fumaça, notara meu tio, mas o homem não pareceu notar a bebida fria. “No mito de Píramo e Tisbe, o casal tem seu fim trágico determinado exclusivamente por um erro, acaso, uma série de eventos trágicos que impediu que aquele amor se concretizasse. É quando a leoa desce da montanha e a menina foge que Píramo se engana e enlouquece, os dois estavam apenas fugindo, nada demais…”

“Mais ou menos, não é mesmo? Da mesma forma que Romeu e Julieta eles eram de famílias que não se gostavam, e procuravam fugir para poderem concretizar seu amor. Acho que foi ainda pior para Píramo e Tisbe por conta dessa gratuidade da desgraça, eles não mereciam terminar assim. Ninguém merece”, respondeu meu tio, falando muito pela primeira vez em muito tempo.

“Hmm, é um bom argumento, mas eu nem sequer terminei o meu, Joaquim, meu rapaz. Píramo e Tisbe foram meros azarados, mas Romeu e Julieta estão em um nível de desgraça que é outro. Veja bem, através deles seria possível reunificar as cidades e criar paz entre as famílias, mas Romeu matou Teobaldo que matou Mercúcio primeiro. O jovem foi obrigado a fugir exilado, restando à Julieta casar com Páris. O resto você sabe, a menina envia uma carta, finge se matar, Romeu não recebe a carta mas recebe a notícia de que sua amada está morta, volta correndo para Verona. Em Verona nosso rapaz chega e vê na igreja sua amada ‘morta’, o que não é verdade. Enlouquecido ele se mata logo no segundo que a menina desperta e vê o amado cair sobre si. Julieta não aguenta e põe fim à própria vida, de verdade dessa vez”, Figueira estava animado enquanto falava, o que tornava o relato um tanto cruel da parte dele. “A morte de Romeu e Julieta representa essencialmente a morte do amor puro daqueles dois. Representa também, inicialmente, tempos negros para Verona, que não poderia ver paz não fosse o decreto do Príncipe Escala e o acordo que as famílias fazem para evitar mais tragédias como essa. Ainda assim, aqueles que seriam para sempre o símbolo da união entre os Montecchio e os Capuleto encerram a história mortos diante de todos. Para Romeu e Julieta foi muito pior o fim que tiveram, tanto pelas subtramas que os cercam quanto pelo que eles poderiam fazer e, no final, só através da morte deles, foram capazes de realizar”, concluiu Figueira com um ar satisfeito.

“E o que isso representa quanto às histórias serem parecidas?”, meu tio indagou no final, ainda sem entender onde tudo aquilo deveria chegar.

“Ora essa, como pudemos discutir um pouco aqui, essas histórias são completamente distintas entre si tanto pelo período que retratam quanto pelo modo como retratam o amor, é possível afirmar que não se tratam, de modo algum, da mesma coisa, apesar de terem em si semelhanças e arquétipos. Como todo bom mito, Píramo e Tisbe pecam pela simplicidade, enquanto Romeu e Julieta adornaram-se com tantas peculiaridades e jeitos próprios que seria um sacrilégio tremendo dizer que são a mesma coisa, que são o mesmo tipo de amor”. Figueira estava confiante, e falava com as mãos repousando na barriga larga e estufada de comida.

“Só porque as semelhanças estão disfarçadas não quer dizer que não sejam a mesma coisa. Pior ainda, um é derivado do outro e por isso mesmo considerado melhor”, rebateu tio Joaquim, instigado e tragado para dentro da discussão.

“Ora essa, Joaquim, se uma coisa é derivada de outra, certamente terá elementos em comum, mas sendo uma coisa nova, apesar das semelhanças, há elementos na coisa em si que a tornam única, e esses elementos nada tem a ver com o objeto de origem. Romeu pode ser um descendente de Píramo, mas eles são rapazes diferentes e por isso mesmo, e até pelas semelhanças que possuem, podemos atribuir a eles valorações com base no mesmo sistema, chegando, através disso, em um resultado que ponha uma história ou outra em um patamar mais alto”, Figueira ergueu o corpanzil alguns centímetros do sofá, corrigindo a postura.

“Toda sua argumentação é baseada na ideia de quem além do corpo há algo, de que há o mundo númeno e fenômeno, mas isso, partindo da ideia materialista atual, é uma completa besteira. As coisas dependem exclusivamente daquilo que as origina, mesmo o mito de Píramo e Tisbe tem sua base em alguma coisa, e isso faz com que os derivados mantenham algum contato. Se há semelhanças, então, por isso mesmo, julgar as duas pelos mesmos parâmetros leva a uma conclusão errada, não concorda? Só é possível determinar as vantagens de um sobre o outro quando eles não compartilham características, do contrário, negar um é automaticamente negar o seu derivado, e vice-versa”, e aqui meu tio Joaquim disse que usou toda a sua pouca experiência com filosofia para tentar fazer um contraponto, o que se mostrou completamente ineficaz, ele me contou, porque Figueira já estava prestes a falar outra vez, a boca aberta em um perfeito O animado e repleto de respostas e referências quando Pandora interrompeu os dois.

“Acho que essa é uma discussão que durará mais do que o tempo que temos aqui, não é verdade?”, disse a senhora com tranquilidade, mas, ainda assim, dando o assunto por encerrado. “O que podemos tirar disso afinal é que amores trágicos sempre ficam mais na memória. Agora, porque não tomamos um café e nos despedimos? Figueira já cumpriu seu papel como convidado hoje e percebo que a chuva diminuiu um pouco, então talvez você possa acertar o caminho para casa”.

Figueira, por incrível que pareça, assentiu devagar, e pediu um pouco mais de chá antes de ir embora. Ele fechou a boca e ficou em silêncio. Meu tio não entendeu o receio do homem em continuar a conversa, mas como era Pandora a dona da casa, ele preferiu acatar às ordens da mulher.

“De fato, amores trágicos são os melhores”, disse Figueira simplesmente, antes de sair da casa, enquanto recolhia suas coisas e se dirigia à porta.

Mais uma vez, quando a porta de madeira se abriu, o som da chuva pôde ser ouvido e, como bem observara a dona do chalé, o som reduzira consideravelmente. O senhor Figueira acenou de onde estava e dirigiu-se à escuridão, com a porta fechando atrás de si pelas mãos do Girassol, que durante toda a discussão mantivera-se inerte, parado e silencioso como um boneco, o que de fato ele parecia.

“Peço perdão por interromper a conversa, mas temos um último convidado para chegar e eu acho que é uma boa ideia você descansar um pouco antes dele. Está com uma cara um tanto encovada e cansada. Tire um cochilo de quinze minutos enquanto arrumamos tudo…” E ao ouvir aquilo meu tio percebeu-se tão cansado que de fato não conseguiu recusar o conselho e dormiu em poucos segundos.

Por João Scaldini