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Literatura

Resenha: “Calibre 22” e a deliciosa volta de Rubem Fonseca

A literatura é um dom

“Calibre 22” é o último livro de Rubem Fonseca, lançado pela editora Nova Fronteira. Reunindo 29 contos do autor, o livro é uma volta para casa para quem é leitor do famoso contista brasileiro.

Com uma escrita tipicamente bruta, concisa e afiada, Rubem Fonseca se mantém fiel ao estilo que o tornou um dos escritores mais emblemáticos de literatura policial do país. De cara, o leitor mais fiel de Rubem pode identificar que está em ambiente familiar. Figuras como “o despachante” são revisitadas. No livro há espaço até mesmo para Mandrake, o detetive famoso que ganhou série homônima na HBO (personagem interpretado pelo ator Marcos Palmeira). A escrita de Rubem Fonseca parece conferir dignidade aos marginais. Sem moralismos, ela humaniza figuras que raramente aparecem na ficção com algum cuidado. Matadores de aluguel, prostitutas e charlatões na obra de Rubem têm um lugar cativo e atencioso.

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Ao intercalar contos de temáticas diversas, “Calibre 22” por vezes quase tem cara de livro de Luís Fernando Veríssimo. O tom cômico está lá, rascante entre as hipocrisias sociais dos homens. As brincadeiras que Rubem planta, como o código de ética dos matadores (“não mato mulher, criança e anão”) são uma maneira de pontuar que no mundo dos marginais as coisas parecem ter mais ordem que no mundo dos distintos.

Há vários contos ao logo do livro que têm como narrador algum homem unapologetically babaca (aquele tipo que não pede desculpas). No conto “O Chapéu Panamá”, por exemplo, aparece o trecho:

“É por isso que fodo uma chata inteligente por no máximo uma semana.”

Os homens de Rubem Fonseca gostam de sexo, objetificam mulheres, matam e com alguma frequência odeiam editores. O gostoso do livro é, para quem está habituado a essa escrita, ir identificando os tipos e gracinhas cortantes tão emblemáticas da obra do Rubem. (Repetimos aqui que essa é a grande graça de ler “Calibre 22” de um Rubem Fonseca de 92 anos.)

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Essa característica aparece logo de cara na piada do homem que vai ser apagado, mas tenta comprar o matador para dar fim na esposa primeiro.

E não pensem que encontram um Rubem Fonseca enferrujado pela idade e suposta reclusão. O conto do psicanalista charlatão mostra que Rubem muito provavelmente não assiste à novela das 21h, mas não está alheio ao mundo contemporâneo.

Há também contos como “O Idiota”, que generalizadamente misturam o crime ao amor. Pobre Angela, só queria transar com o namorado, que, bom, era um idiota.

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Ex-comissário de polícia e formado em direito, Rubem não abandona a escrita seca típica dos romances policiais. E tampouco demonstra sinais de fadiga (ele é nascido em 1925). Com menos de 200 páginas de recheio literário de fato, Calibre 22 é uma sobremesa a ser devorada em uma tarde. Mas tem cara de prato principal para quem gosta de boa literatura.

Em uma entrevista de 2015, o escritor de literatura fantástica Raphael Draccon disse que não havia mais espaço na contemporaneidade para escritores reclusos como Rubem Fonseca. Ah, quem dera todos os reclusos fossem brilhantes e que a literatura fantástica fosse de fato fantástica.

“Calibre 22” é um alívio para os amantes de contos e de Rubem. É como aquela longa viagem de ônibus para visitar a cidade de origem. Logo de cara colocar os pés na terra e sentir que estamos em algum lugar cheio de lembranças e por que não, incômodos. Essa tradição literária vai indo com quem a fez. Ainda bem que ainda temos Rubem.

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A literatura é um dom.

“Calibre 22” é facilmente encontrado nas maiores livrarias do país.

*Recomendamos ler de uma vez só em uma tarde de domingo. 

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Por Érika Nunes

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2 Comments

2 Comments

  1. Lucas

    2 de julho de 2017 at 04:20

    Bom texto, até agora li apenas o romance O Seminarista e Feliz Ano Novo, mas já tenho mais dois romances do Rubem guardados para serem lidos assim que possível. Achei interessante seu comentário sobre a literatura fantástica não ser fantástica, poderia elaborar mais sobre ele (ou apontar-me a um texto no qual elaborou)?

    • Érika Nunes

      5 de julho de 2017 at 18:16

      Oi, Lucas! Obrigada, que bom que gostou do texto =). O comentário foi apenas uma ironia sobre a literatura fantástica contemporânea (como gênero literário), que muitas vezes é rasa e genérica. Não tenho nenhum texto ainda especificamente sobre ela, mas posso elaborar um. Quanto ao Rubem, é um dos melhores escritores brasileiros, sem dúvidas :). Confira outros textos sobre literatura na Woo!, temos vários colunistas interessantes. Abraços!

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