Nove anos se passaram desde o lançamento e Jogo de Cena continua sendo um dos melhores docs do Eduardo Coutinho. O que é real, o que é interpretação? O que há na realidade que é tão crua e dolorida que atinge um nível de dignidade que nenhuma atriz consegue interpretar?

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Jogo de Cena é um documentário composto de relatos, intercalando uma pessoa real a uma atriz, famosa ou não, interpretando à sua maneira aquela inserção. Depois, Coutinho interroga cada uma das atrizes sobre os desafios de falar um texto que é real, cruel de tão vivo, particular, verídico. Como diz a Marília Pêra no filme, a atriz se prepara para chorar, já a pessoa real tenta se segurar diante das suas emoções.

A segunda dinâmica, interpretada pela Andréa Beltrão ilustra isso muito bem. A Andréa não aguenta e as lágrimas escorrem, diante do texto de uma mãe que perdeu o filho bebê. A Gisele, mãe real? Conta com uma calma que dói na gente. Dói porque esperamos que ela berre e esperneie e nos mostre como deveríamos reagir no campo imaginário. Na real, quando uma mãe se depara com esse tipo de perda, ela atinge essa calma ou morre. Se espiritualiza ou murcha. Nos filmes a dor é superlativa, teatral, cênica. Na vida às vezes ela é só uma postura firme.

O que a obra do Coutinho nos dá é uma chance. De ver o que a gente acha que sabe e perceber que não, nós não sabemos nada do outro. De ver que Procurando Nemo para uma mãe que está distante da filha é um filme bem triste. Que um nome exótico pode ter vindo de um quadrinho do Hal Foster e significar muito para uma menina que se vê diante de uma filha que ama, mas representa a sua não ida, a não realização. E a chance de enxergar que, independentemente da sua classe social e a sua vivência, ninguém nasce com sonhos pequenos. E aqui eu lembro da senhora em Santo Forte*: “Na outra vida eu fui uma rainha.”

A desigualdade social não é bonita, não cabe romantizá-la. Mas as pessoas, essas sim, são lindas. E merecem ter alegria, objetivos, perspectiva, merecem ACREDITAR. E você merece ver esse filme, rever esse filme e pensar. Pensar a si mesmo, pensar o outro, pensar o Brasil, pensar a gente. Se revirar. Dói um pouco, mas sem dor nada nasce.

Não tem na Netflix, mas tem no Youtube:

*Santo Forte – Direção: Eduardo Coutinho. Gênero: Documentário. 1999. 82 minutos. Brasil.


Por Érika Nunes