Sétima edição brasileira reuniu 700 mil pessoas, movimentou R$ 1,4 bilhão e ficou marcada por The Who, Guns N’ Roses e o cancelamento de Lady Gaga
O Rock in Rio 2017 marcou uma mudança de escala na história do festival. Realizada nos dias 15, 16, 17, 21, 22, 23 e 24 de setembro, a sétima edição brasileira deixou o Parque dos Atletas e inaugurou uma nova Cidade do Rock na área privada do Parque Olímpico, na Barra da Tijuca.
O terreno, parte do legado deixado pelos Jogos Olímpicos de 2016, permitiu que o evento ocupasse aproximadamente 300 mil metros quadrados e recebesse até 100 mil pessoas por dia. Os 700 mil ingressos colocados à venda foram comercializados, confirmando a força da marca mesmo em um período marcado por recessão, desemprego, crise fiscal e aumento da sensação de insegurança no Rio de Janeiro.
Com orçamento declarado de R$ 200 milhões, o festival também ampliou sua proposta. A programação não ficou restrita aos grandes shows e passou a reunir games, gastronomia, humor, influenciadores digitais, dança, atrações de rua e experiências patrocinadas. Espaços como Game XP, Digital Stage, Rock District e Gourmet Square ajudaram a consolidar um modelo no qual permanecer durante horas na Cidade do Rock fazia parte da experiência tanto quanto assistir ao artista principal.
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Uma nova Cidade do Rock dentro do Parque Olímpico
A mudança para o Parque Olímpico foi um dos grandes marcos daquela edição. Os eventos brasileiros de 2011, 2013 e 2015 haviam acontecido no Parque dos Atletas, mas o novo espaço apresentava praticamente o dobro da área, além de estruturas permanentes de água, esgoto, transporte e arenas construídas para os Jogos Olímpicos.
Roberto Medina afirmou ter alugado o terreno por seis anos, período que permitiria a realização de três edições. Embora o espaço pudesse receber um público ainda maior, a organização preferiu limitar a capacidade inicial a 100 mil visitantes por dia para testar a operação.

O Palco Mundo tinha aproximadamente 86 metros de largura e 25 metros de altura, com projeções incorporadas à fachada. Ao redor dele, diferentes áreas temáticas distribuíam o público durante as cerca de 12 horas de funcionamento diário.
Ao todo, o festival contabilizou mais de 98 horas de música e mais de 500 atrações, apresentações e experiências. Esse número incluía shows, performances de dança, competições de games, intervenções artísticas, apresentações de criadores digitais e ações comerciais espalhadas pela Cidade do Rock.
Ingressos esgotados mesmo em um período de crise
O desempenho comercial chamou atenção pelo momento econômico vivido pelo país. A venda geral começou em 6 de abril, e todos os dias estavam esgotados até o final daquele mesmo mês.
Antes disso, 120 mil unidades do Rock in Rio Card haviam sido vendidas em uma hora e 58 minutos. O cartão custava R$ 435 na modalidade inteira e permitia ao comprador escolher posteriormente uma das datas do festival. Na venda regular, o ingresso diário custava R$ 455, enquanto a meia-entrada saía por R$ 227,50.
Medina declarou que o orçamento total da edição era de R$ 200 milhões, aproximadamente R$ 20 milhões acima do registrado em 2015. A ampliação da estrutura, o novo terreno e os cachês dos artistas estavam entre os principais responsáveis pelo aumento dos custos.

Desse valor, R$ 106 milhões teriam vindo de patrocínios. O empresário também afirmou que a bilheteria representava entre 45% e 50% da composição econômica e que o projeto já estava pago antes da abertura dos portões.
Os números, porém, foram divulgados como declarações da organização. Não foram apresentados demonstrativos detalhados sobre faturamento, lucro, cachês individuais, impostos ou receita líquida de bilheteria.
Festival movimentou R$ 1,4 bilhão na economia carioca
Segundo o Rock in Rio, a edição provocou um impacto estimado de R$ 1,4 bilhão na economia do Rio de Janeiro. O cálculo, atribuído a um estudo da Fundação Getulio Vargas, considerava movimentações em hotelaria, alimentação, comércio, transportes e outros serviços.
A organização também estimou a presença de mais de 400 mil turistas e a criação de aproximadamente 20 mil postos de trabalho ligados à realização do evento.
De acordo com Medina, apenas 39% do público era formado por moradores do Rio de Janeiro, contra 55% na edição anterior. A venda de ingressos havia sido direcionada especialmente para estados como São Paulo e Minas Gerais, numa tentativa de fortalecer o Rock in Rio como produto turístico.

O impacto econômico não representava a receita da empresa organizadora. O valor media a movimentação estimada em diferentes setores da cidade, sem corresponder necessariamente a dinheiro novo ou retorno financeiro líquido para os cofres públicos.
Lady Gaga cancela na véspera e cria o maior meme da edição
O principal imprevisto aconteceu poucas horas antes da inauguração da Cidade do Rock. Lady Gaga, atração principal do dia 15 de setembro, cancelou a apresentação por causa de um quadro severo de dor física que exigiu atendimento hospitalar.
A cantora publicou uma mensagem lamentando a ausência e escreveu a frase “Brazil, I’m devastated”. Pouco depois, a expressão deixou o contexto original e passou a ser utilizada pelos brasileiros para todo tipo de frustração cotidiana, tornando-se um dos memes mais conhecidos ligados à história do festival.
O episódio ainda ganhou outro meme que atravessou os anos. Em meio à expectativa dos fãs pela cantora, o Paparazzo Rubro-Negro protagonizou um registro que se tornou célebre ao anunciar, de maneira direta e quase melancólica: “Ela não vem mais.” A frase rapidamente ganhou vida própria na internet e passou a ser usada sempre que alguma expectativa é frustrada ou quando alguém esperado simplesmente não aparece. Até hoje, o meme permanece diretamente associado ao cancelamento de Lady Gaga no Rock in Rio 2017.
O Maroon 5, que já encerraria o Palco Mundo no sábado, aceitou assumir também a noite de sexta-feira. A banda liderada por Adam Levine se apresentou em dois dias consecutivos, numa solução emergencial pouco comum para um festival daquele tamanho.
Quem havia comprado ingresso para assistir a Lady Gaga recebeu a possibilidade de solicitar reembolso. Mesmo com o cancelamento, o primeiro dia manteve a lotação comercial esgotada.
A ausência da cantora também dominou as discussões digitais. Entre 1º e 24 de setembro, o Rock in Rio acumulou aproximadamente 1,1 milhão de menções on-line. Lady Gaga concentrou 21,9% das referências aos artistas do Palco Mundo, com mais de 70% dos comentários classificados como negativos.
Gisele Bündchen e Ivete Sangalo abrem o festival
A abertura oficial foi conduzida por Gisele Bündchen, que fez um discurso sobre união, mobilização social e preservação ambiental.
Emocionada, a modelo cantou “Imagine”, de John Lennon, ao lado de Ivete Sangalo. Grávida de gêmeas, a cantora abriu a programação musical do Palco Mundo antes das apresentações de Pet Shop Boys, 5 Seconds of Summer e Maroon 5.
A cerimônia também reforçou o projeto Amazônia Live, iniciativa associada à recuperação de 30 mil hectares de floresta até 2023.
Na cenografia da Cidade do Rock, palavras como “dignidade”, “ética”, “sonhar” e “acreditar” apareciam espalhadas pelo espaço, conectando o evento ao ambiente político e econômico enfrentado pelo país naquele período.
Fergie, Pabllo Vittar e Alicia Keys marcam o primeiro fim de semana
O primeiro fim de semana teve forte presença do pop internacional. Shawn Mendes, Fergie, Alicia Keys e Justin Timberlake dividiram a programação com artistas brasileiros como Skank, Frejat, Elza Soares, Rael e Maria Rita.
Durante sua apresentação, Fergie recebeu Pabllo Vittar para cantar “Glamorous” e “Sua Cara”. A cantora norte-americana também dividiu o palco com Sérgio Mendes e Gracinha Leporace em “Mas que nada”.
A participação de Pabllo foi uma das imagens mais compartilhadas do festival e reforçou o crescimento da artista, que naquele ano alcançava projeção nacional.
Alicia Keys protagonizou um dos momentos politicamente mais importantes da edição ao receber a liderança indígena Sônia Guajajara. A ativista discursou sobre a Amazônia e os direitos dos povos indígenas, enquanto parte da plateia respondeu com gritos contra o governo de Michel Temer.
Pretinho da Serrinha também participou da apresentação. O encontro havia sido articulado pouco antes do festival, e o ensaio aconteceu poucas horas antes do show.
Justin Timberlake encerrou o primeiro fim de semana com uma apresentação marcada por coreografias, precisão técnica e grandes sucessos. “Mirrors” e “Can’t Stop the Feeling!” estiveram entre as músicas de maior resposta da plateia.
Segundo fim de semana muda o foco para o rock
A programação assumiu outro perfil a partir de 21 de setembro. Aerosmith, Bon Jovi, Guns N’ Roses, The Who e Red Hot Chili Peppers ficaram responsáveis pelos principais horários do Palco Mundo.
O Aerosmith encerrou a primeira noite do segundo fim de semana com a turnê “Aero-Vederci Baby!”. Antes da banda, o público acompanhou as apresentações de Scalene, Fall Out Boy e Def Leppard.
O Fall Out Boy havia entrado na programação depois do cancelamento antecipado de Billy Idol, anunciado em março por motivos pessoais.
No Palco Sunset, Tyler Bryant & The Shakedown substituiu o The Pretty Reckless. A banda assumiu o espaço depois que o grupo liderado por Taylor Momsen informou que precisava de um período para se fortalecer.
The Who estreia no Brasil e Guns N’ Roses passa três horas e meia no palco
O dia 23 de setembro concentrou dois dos acontecimentos mais aguardados da edição. O The Who realizou sua primeira apresentação no Brasil, décadas depois de se consolidar como uma das bandas mais importantes do rock britânico.
Roger Daltrey e Pete Townshend apresentaram clássicos como “Who Are You”, “My Generation”, “Behind Blue Eyes”, “Baba O’Riley” e “Won’t Get Fooled Again”.
Na sequência, o Guns N’ Roses permaneceu no palco por aproximadamente três horas e meia. A apresentação fazia parte da turnê “Not in This Lifetime”, que reuniu novamente Axl Rose, Slash e Duff McKagan.
O repertório passou por “Welcome to the Jungle”, “November Rain”, “Sweet Child o’ Mine”, “Nightrain” e “Paradise City”, além de covers e músicas do álbum “Chinese Democracy”.
Apesar das críticas ao desgaste vocal de Axl Rose, o Guns venceu uma votação promovida pelo UOL para escolher o melhor show internacional da edição, com 29% dos votos.
Jared Leto atravessa o festival em uma tirolesa
No último dia, o Thirty Seconds to Mars decidiu incorporar uma das atrações da Cidade do Rock ao próprio espetáculo.
Durante um trecho instrumental, Jared Leto deixou o palco para utilizar a tirolesa e atravessou parte do espaço sobre o público. A apresentação ainda teve improvisos, falsos inícios de músicas e fãs convidados para participar.
O Capital Inicial abriu a programação principal com um discurso político. Antes de “Que País É Este”, Dinho Ouro Preto criticou representantes da esquerda, do centro e da direita, relacionando a música à crise democrática brasileira.
The Offspring e Thirty Seconds to Mars se apresentaram antes do Red Hot Chili Peppers, responsável por encerrar o festival. A banda californiana misturou músicas de diferentes fases da carreira, como “Can’t Stop”, “Snow”, “Californication”, “Under the Bridge” e “Dark Necessities”.
Game XP e Digital Stage apontam novos caminhos
Algumas das maiores novidades estavam fora dos palcos musicais tradicionais. A Game XP ocupou as arenas do Parque Olímpico com competições de esportes eletrônicos, conteúdos relacionados a games e uma tela de aproximadamente 1.400 metros quadrados.
Segundo os números divulgados, a área recebeu cerca de 360 mil visitantes ao longo do festival. A experiência funcionou como teste para a criação de um evento independente, realizado posteriormente no mesmo complexo.
O Digital Stage também representou uma mudança importante na programação. O espaço reuniu nomes como Whindersson Nunes, Felipe Castanhari, Christian Figueiredo, Pyong Lee, Barbixas, Maurício Meirelles, Pipocando e FitDance.

Pela primeira vez, o Rock in Rio reservava uma programação sistemática para influenciadores, humor, mágica e danças que haviam ganhado força nas plataformas digitais. A presença desses criadores mostrava como o evento começava a observar com mais atenção um público que já não consumia entretenimento apenas pela televisão ou pela música.
Uma edição que consolidou o festival como plataforma de entretenimento
O Rock in Rio 2017 terminou como uma das maiores operações culturais realizadas no país naquele ano. Além dos shows, o evento reuniu games, gastronomia, brinquedos, campanhas ambientais, discursos políticos, criadores digitais e experiências patrocinadas.
A edição também confirmou o Parque Olímpico como nova sede do festival e abriu caminho para a realização de outros grandes eventos no local.
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A imagem daquele Rock in Rio não ficou presa a um único momento. Ela passou pelo cancelamento de Lady Gaga, pela abertura de Gisele Bündchen e Ivete Sangalo, pela participação de Pabllo Vittar com Fergie, pelo discurso de Sônia Guajajara, pela estreia do The Who, pela longa apresentação do Guns N’ Roses e pelo voo de Jared Leto sobre o público.
Mais do que reunir 700 mil pessoas durante sete dias, o festival mostrou que havia alcançado uma nova dimensão. A estrutura herdada dos Jogos Olímpicos foi transformada em uma Cidade do Rock maior, mais diversificada e preparada para receber atrações que iam muito além da música.
O Rock in Rio continuava sendo um festival de grandes shows, mas a edição de 2017 deixou claro que a marca também queria disputar espaço nos games, na gastronomia, no humor, no universo digital e em diferentes formas de entretenimento. Foi a partir dali que a Cidade do Rock passou a funcionar de maneira ainda mais evidente como um evento completo, no qual cada espaço precisava oferecer algum motivo para o público permanecer ali durante todo o dia.
Imagem Destacada: Divulgação/Gerado por Inteligência


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