Em uma feliz parceria entre os autores Humberto Maturana e Gerda Verden-Zöller, o livro “Amar e brincar: fundamentos esquecidos do humano”, traz um convite a uma reflexão sobre a espécie de mundo em que vivemos por meio do exame dos fundamentos emocionais do nosso viver. Traduzido e publicado no Brasil pela Palas Athena Editora, a obra apresenta logo na Introdução, a ideia de que a linguagem surgiu, na história da espécie humana, juntinho com o emocionar. O cenário básico do fluxo emocional da vida que se constitui, a cada instante, vem a partir das nossas ações e das nossas emoções. São elas – e não a razão – que determinam o que fazemos ou deixamos de fazer. É uma conversação, uma convivência consensual em coordenações de ações e emoções. Assim, Maturana e Verden-Zöller tomam a ação como algo que precede a dimensão do necessário e afirmam através disso que, o desejo desempenha em nós um papel fundamental.

Em essência, o livro aborda três grandes temas: a origem da cultura patriarcal européia, as relações entre mãe e filho e os fundamentos da democracia a partir da noção de biologia do amor. Divididos em três capítulos, os temas abordam conversações matrísticas e patriarcais, por Humerto Maturana; O brincar na relação materno-infantil (fundamentos biológicos da consciência de si mesmo e da consciência social), por Gerda Verden-Zoller e O brincar: caminho desenhado, por Gerda e Maturana. Fechando de forma tradicional, contém ainda o epílogo e um glossário.

O termo “matrístico”, usado no título e no texto dos primeiros capítulos, indica uma situação cultural na qual a mulher tem uma presença mística e acolhedora. Ao mesmo tempo ela expressa a libertação do maternal fora do autoritário e do hierárquico. Portanto, matrístico é o contrário de “matriarcal”, que significa o mesmo que o termo “patriarcal”, numa cultura na qual as mulheres têm o papel dominante. Em outras palavras, a expressão “matrística” é usada intencionalmente, para designar uma cultura na qual homens e mulheres podem participar de um modo onde todos cooperam. Isso acontece porque a figura feminina representa a consciência não-hierárquica do mundo natural a que nós pertencemos, numa relação de participação e confiança, e não de controle e autoridade. A vida cotidiana é vivida numa coerência com todos os seres vivos, até mesmo numa relação predador-presa.

Com o decorrer da Leitura , vamos percebendo que Maturana e Verden-Zöller entendem a democracia como uma forma de convivência que só pode existir entre adultos que tenham vivido, na infância, relações de total aceitação materna. Eles examinam com detalhes os fundamentos da condição humana que permeiam o afetivo e o lúdico. Além disso, eles mostram como a cultura do patriarcado europeu nos levou à atual situação de autoritarismo, dominação, competição predatória, desrespeito à diversidade biológica e cultural e profunda ignorância do que são os direitos humanos.

A obra é um alento diante da predominância, na eduação infantil, na qual o lúdico tem desempenhado o papel de mero suporte para a aquisição de competências como ler, escrever e contar. O texto nos mostra como são as relações entre o amar e o brincar, trabalhando linhas das culturas patriarcais e matriarcais, sempre com a dominação histórica das primeiras sobre as outras. A perspectiva do brincar e do emocionar, assume sua importância na educação infantil. A influência intelectual trouxe para a primeira infância uma grande carga que não deixa de ser, também, um saber dominante. Existe uma grande tendência de sobrecarregar a criança pequena de estudos, deixando quase nenhum espaço para que ela brinque. E dentro desse contexto, somos levados a pensar e ponderar sobre a necessidade de deixar as crianças pequenas brincarem mais, adiando a formalização para mais adiante. Na perspectiva de Maturana e Verden-Zöller, são poucos os espaços para os momentos em que pode se dar o entrelaçamento da linguagem com o emocionar. Por decorrência, o brincar é sempre instrumento para outra coisa. Alguns desses projetos para a primeira infância querem é formar pequenos intelectuais críticos e esquecem que, antes de qualquer coisa, nós somos corpo.

Portanto, a recuperação do corpo que brinca nos projetos educacionais pode ser reivindicada, principalmente, quando temos em vista a primeira infância. Essa perspectiva é potencializada no livro de Maturana e Verden-Zöller, onde toda a vivência corporal é reconhecida como modo de conhecimento válido. E assim, entendemos também sobre a convivência do diferente, a aceitação da diversidade no mundo atual e a retomada da corporeidade.

Concluindo, se levarmos em consideração os fundamentos emocionais de nossa cultura, poderemos entender melhor o que fazemos ou não como seus membros. Percebendo os fundamentos emocionais, provavelmente vamos conseguir deixar que o entendimento e a percepção influenciem nossas ações, ao mudar nosso emocionar em relação ao nosso ser cultural.

Humberto Maturana é biólogo, chileno e juntamente com Francisco Varella, contribuiu para modificar conceitos sobre a conexão corpo, mundo e conhecimento. Gerda Verden-Zöller é psicóloga, alemã, membro do Centro Bávaro de Pesquisa Educacional do Instituto Estatal para a Educação na Primeira Infância e fundadora do Instituto de Pesquisa de Ecopsicologia da Primeira Infância de Passau, na Bavária.


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Erika Kohler

Jornalista (com diploma), escritora metida a cronista e decoradora. Não necessariamente nessa ordem. É uma artista múltipla! Tem a arte no DNA e por isso é amante do mundo das artes. De todas as formas: Cênicas, Visuais e Plásticas.
Carioca, já foi rata de praia, mas hoje prefere o inverno. É gateira de carteirinha e apaixonada por pinguins. Os livros fazem parte da sua vida e estão sempre por perto. Talvez tenha nascido no século errado porque ama o Vintage e o retrô. Adora assistir filmes e séries, sempre acompanhada por um baldão de pipoca. Torce para encontrar com o gato da Alice, pra ele indicar a estrada dos tijolinhos amarelos, que vai direto para a Fantástica Fábrica de Chocolate!!

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