Edmond Dantès era um hábil marujo, um navegador capaz e um imediado respeitado pelos companheiros e pelo capitão do Faraó, um navio mercador da Morrel & Filho. Quando o capitão morre devido a uma doença durante uma viagem, lhe é oferecido o posto de Capitão. Essa notícia o leva a noivar com sua amada, Mercedes, e todos comemoram a felicidade do casal. Tudo ia bem, até que no almoço de noivado soldados levam Dantès preso. Após 14 anos trancafiado nos calabouços do Castelo de If, ele consegue fugir para vingar-se daqueles que conspiraram para aprisioná-lo.

Assim começa “O Conde de Monte Cristo“, um dos maiores clássicos da literatura e que já ganhou inúmeras adaptações. Alexandre Dumas nos apresenta a queda de Dantès e sua ascensão como o Conde de Monte Cristo com tamanha maestria que este livro se tornou referência em vingança para inúmeras outras obras, como o seriado “Revenge”. Mas não só de vingança se faz o livro, trazendo inúmeras emoções como ganância, cobiça e, principalmente, amor. Os trechos que tratam com os sentimentos bons são descritos com palavras sensíveis capaz de emocionar o leitor.

“Basta, chega desse veneno. Agora que o meu coração está impregnado por ele, vamos procurar o antídoto. Subo aos aposentos da senhora. ”

É interessante ressaltar o quanto a religião é importante na obra, pois o Conde se vê como um instrumento da Providência e do Deus vingador. Ou seja, após recompensar os que foram bons com Dantès, ele busca punir aqueles que armaram contra o inocente Dantès. Sua própria fuga do Castelo de If é vista por si como uma obra divina que o autoriza a executar a justiça de Deus. Mesmo assim, a obra não realiza nenhuma pregação e trata a religião com a simplicidade de uma motivação para a personagem.

“Adeus bondade, humanidade, gratidão… Adeus a todos os sentimentos que regozijam o coração…! Tomei o lugar da Providência para recompensar os bons… que o Deus vingador me ceda o seu para punir os maus! ”

No entanto, apesar dessa importância, não poderia existir uma obra mais humana. Dumas constrói personagens cheias de emoções tão complexas que nos faz acreditar e nos importar com elas, do mesmo modo que nos importamos com aqueles amigos íntimos que nos confessam seus sentimentos. O sentir, inclusive, é muito importante por toda a obra que enfatiza as sensações das personagens tanto para com os acontecimentos, quanto para com as relações entre si.

Já o Conde é o único que mantém uma distância do leitor, sendo revelado a partir de doses homeopáticas no decorrer da obra. No início, como as demais personagens, nós também somos envolvidos pela aura mística do Conde que parece tudo poder e saber. Mas, conforme o livro avança, descobrimos o homem por trás da máscara e a mente calculista que arquiteta os acontecimentos. Tudo isto nos leva a uma lição clássica de que a vontade e a determinação tudo conseguem, entretanto é impossível se desvencilhar da sensação de que, na verdade, seus atos e conquistas têm grande responsável sua fortuna adquirida.

Apesar deste detalhe ou, talvez, exatamente por causa dele, “O Conde de Monte Cristo” se torna um livro mágico nos qual vemos uma mente afiada se aliar aos recursos infinitos que todos desejamos ter. E ao atravessarmos essa fascinação pelo conde no decorrer das páginas, encontramos uma delicada balança que nos mostra o que é ser humano em seu melhor e seu pior aspecto.

“Portanto, vivam e sejam felizes, filhos diletos do meu coração, e nunca se esqueçam de que, até o dia em que Deus dignar-se a desvelar o futuro para o homem, toda a sabedoria humana estará nestas palavras: Esperar e ter esperança.”


Por Pedro Soler