Em entrevista à Woo! Magazine, André L. Nascimento fala sobre O Bicho, distopia que inverte a lógica da crueldade e coloca humanos no lugar dos animais.
O livro “O Bicho” parte de uma pergunta simples, incômoda e quase impossível de ignorar: e se os humanos nunca tivessem ocupado o topo da cadeia? Na distopia escrita por André L. Nascimento, publicada pela Editora Flyve, a resposta vem como choque e inversão. Aqui, os humanos são os explorados, os confinados, os tratados como matéria-prima de um sistema que naturalizou a violência porque, afinal, sempre foi mais fácil chamar crueldade de tradição quando ela não acontece com a gente.
Em “O Bicho”, Dakota, uma cachorra movida por revolta, luto e senso de justiça, vive em um mundo onde pessoas são reduzidas à condição de seres sem valor. A provocação é direta: André pega a lógica que sustenta parte da nossa relação com os animais e devolve ao leitor um espelho distorcido, ou talvez real demais. O resultado é uma distopia brasileira que conversa com Orwell, mas não se limita a ele. Se “A Revolução dos Bichos” olhava para o poder como uma máquina de corrupção, “O Bicho” empurra a pergunta adiante: quem paga a conta quando uma sociedade decide que algumas vidas valem menos?
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A obra atravessa temas como autoritarismo, exploração animal, destruição ambiental, manipulação política, identidade, violência e colapso moral sem pedir licença para ser confortável. E é justamente aí que ela encontra sua força. André, que também é vegano, professor, tradutor e autor de “O Coelho”, não parece interessado em escrever uma fábula simpática para aliviar consciências. Sua literatura quer cutucar a ferida, colocar o leitor em posição de desconforto e perguntar, sem floreio: até onde vai a nossa humanidade quando ela depende da dor de outro ser?
Na entrevista a seguir, André L. Nascimento fala sobre o nascimento de “O Bicho”, a influência de George Orwell, a criação de Dakota, o peso da política em sua escrita e a urgência de repensar a forma como humanos, animais e poder se relacionam. Uma conversa sobre literatura, sim, mas também sobre responsabilidade, empatia e esse hábito bastante humano de só perceber a violência quando ela finalmente muda de lado.

A distopia que nasceu do luto e da revolta
Daniel Gravelli | O que te inspirou a escrever “O Bicho”? Pode nos contar um pouco sobre como surgiu a ideia dessa distopia e como foi o processo de escrita?
André L. Nascimento | A história toda começa como um pedido da minha agente literária. Ela solicitou que eu escrevesse um conto para publicarmos gratuitamente na Amazon e movimentar meu nome.
A questão é que, em 15 dias, eu já tinha material para um livro novo. Gosto de histórias complexas, plots, mistério, crítica, personagens profundas… Não dá para colocar tudo isso em um conto. Ao mesmo tempo, eu estava vivendo o luto da perda de uma cachorrinha resgatada na pandemia, a qual veio para nossa casa com cinomose. Lutamos muito por ela, mas Dakota – daí o nome da personagem – acabou morrendo.
Para piorar, havia a questão de como a política lidou com a Covid-19 no Brasil, algo que me incomodava muito. Tudo isso acabou se unindo e sendo palco para a distopia que nasceu dentro de mim. Quando chegou o momento de decidir o nome, eu estava muito envolvido com ONGs, o veganismo e lembrei-me de um poema de Manuel Bandeira, “O Bicho”, do qual acabei “furtando” o nome.
D.G | George Orwell explorou temas de controle e opressão em suas obras, especialmente em “1984” e “A Revolução dos Bichos”. Como você acredita que “O Bicho” se compara com essas obras em termos de mensagem e impacto?
A.L.N | Não gosto muito da questão do comparar, mas entendo como um elogio, no caso. Acredito que cada uma dessas obras, a minha inclusa, vem a calhar para a realidade de seu tempo, denunciar como o ser humano deixou de “SER” humano e tornou-se um produto, um peão, uma pedra, a maior vítima de sua própria ganância; aí está o ponto comum entre os três livros.
Mas “O Bicho” volta-se, além do olhar político e social, para como estamos lidando com nosso planeta, os animais, o futuro de todas as espécies e como tudo isso está manipulado por uma mão política que conduz a massa ignorante. Acredito que George Orwell tinha o objetivo de dar uma chacoalhada nas pessoas, gritar “Ei, veja o que estão fazendo conosco, leia, entenda, critique, não seja estúpido!”, e é isso que busco também.
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Crueldade animal, poder e o espelho social
D.G | Em “O Bicho”, você aborda temas como crueldade animal, política ditatorial, identidade de gênero e muito mais. Qual dessas questões você considera mais urgente para ser debatida na sociedade atual?
A.L.N | Política, acima de tudo. Brasileiro não sabe votar, não estuda política, acha bonito torcer o bico e gritar a plenos pulmões que odeia horário político ou ler “santinhos”. Deve ser um dos poucos povos que tem orgulho de não ler, buscar informação e questionar o que ouve.
Política está em tudo, na roupa que você veste, na determinação do que é masculino ou feminino, no que está no teu prato, na escola que você frequenta, na música que ouve, no que passa na TV, no tipo de hospital que você vai, no seu combustível, gás, até mesmo no ar que respira – se está limpo ou não.
Brasileiro vota pensando apenas no próprio umbigo. Se é fazendeiro, vota naquele que vai relaxar o desmatamento, o uso de agrotóxicos, o porte de arma… Não se preocupa com a educação, a inserção das minorias na escola e no mercado de trabalho, na moradia para os marginalizados, na diminuição de criminalidade, criação de reservas naturais – a título de exemplo.
É por isso que estamos muito longe de uma mudança efetiva em tudo no nosso país, pois isso só vai acontecer quando entendermos que temos que votar como um povo único, olhando os interesses de todos. Mas a síndrome de classe média brasileira ainda tem um longo caminho para ser derrubada.
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D.G | Dakota, a cachorra protagonista, me parece uma personagem fascinante e complexa. O que te motivou a escolher um animal como a figura central da sua história, e como você desenvolveu a personalidade dela?
A.L.N | Como estava abalado pela perda de uma cachorrinha resgatada durante a pandemia, com o mesmo nome, e todo o cenário político daquela época nefasta, eu queria muito escrever algo que deixasse uma mensagem, tentasse mudar o egoísmo das pessoas. Até então, eu era conhecido por escrever fantasia, mas eu queria deixar uma marca maior, sentir que usei o meu dom para promover alguma mudança, não importa o tamanho.
Como vegano e muito crítico, desde criança, eu queria muito levar as pessoas à inversão de papéis. E se “você” fosse produzido dentro de uma granja? Com os mesmos requintes de crueldade? Sem um pingo de higiene e compaixão? Em um laboratório? Uma fazenda? Um zoológico?
Eu acredito que o ser humano apenas muda quando dói nele. Espiritualmente, e até intelectualmente, todos nós ainda temos um longo caminho até a verdadeira empatia.
Eu queria uma figura feminina, preta, revolucionária, rebelde, questionadora e insatisfeita com a máquina de coisas de sua sociedade. Acho que a Dakota do livro traz muito de mim, das mulheres fortes ao meu redor, das lutas nas quais acredito, na minha visão de amor, de empatia, política e de um mundo ideal. Uma grande utopia? Talvez, mas queria uma personagem que fosse capaz de abalar todo um sistema político e levar os jovens a questionarem toda a baboseira que as gerações antigas e os políticos tentam nos enfiar goela abaixo dia após dia, em pequenas cápsulas.
O que seria de nós, não fossem os rebeldes dos anos antigos? Então, sejamos os rebeldes de agora, para um futuro melhor.
Uma distopia que inverte papéis para questionar até onde vai a nossa humanidade
O livro “O Bicho” chega como uma provocação direta sobre humanidade, poder e crueldade. Ao inverter os papéis entre humanos e animais, André L. Nascimento cria uma distopia que incomoda, questiona e convida o leitor a olhar com mais atenção para as estruturas que sustentam a sociedade atual.
Imagem Destacada: Divulgação/André L. Nascimento


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