“ ‘Os idiotas correm para onde os anjos têm medo de pisar.’”[p.52]

Quando escolhemos um livro na prateleira, é claro que vamos sempre parar primeiro onde nosso gosto particular faz morada. É mais simples ler o que se gosta. A leitura torna-se fácil e aprazível. É o famoso juntar a fome com a vontade de comer. No entanto essa não deve ser uma via de regra. Mudar a rota faz parte do caminho.

Pensemos, então, em uma situação hipotética: ao entrar em uma livraria, na ilha dos “sucesso de 2018” vamos supor que encontremos a seguinte situação: um livro capa dura e preta. A cor perpetua-se nas lombadas e nas páginas. Um único desenho de um bonequinho de palito pendurado n’uma forca. Game Over! Lá estávamos nós diante do thriller de sucesso desse ano. Julgamos o livro pela capa. E não é que foi bom. “O Homem de Giz”, de C.J.Tudor entrou 2018 na lista dos mais procurados nas livrarias. Causando tanto furor, tínhamos (é óbvio!) que dar nosso pitaco nesse enredo também.

A obra de categoria “suspense psicológico” entra no hall das tramas policiais. Aquelas onde parar de ler o livro significar não saber quem matou e o porquê de ter matado. E atrasar essa revelação não se torna uma opção. Afinal, com o passar das páginas, o leitor é compelido a entrar em uma viagem muito estranha.

Passado em dois momentos históricos – 1986 e 2016 – , “O Homem de Giz” tem uma narrativa em primeira pessoa. E quem nos conta essa história é Eddie. Que poderia ser facialmente um personagem com transtorno dissociativo de personalidade se fôssemos compará-lo ele adulto – aos seus 42 anos – e ele criança – aos doze.

Em 1986, Eddie faz parte – como quase todo jovem americano – de uma gangue. Mas calma, não é uma gangue de verdade. São apenas crianças brincando e se aventurando até onde a curiosidade lhes permite. Assim, junto a Eddie, encontramos seus amigos Gav Gordo, Mickey Metal, Hoppo e Nicky (a única menina do grupo). De personalidades completamente diferentes, os jovens vivem na pele as dissimilitudes. E talvez nem eles mesmos saibam como surgiu essa amizade de verdade.

Em 2016, Eddie já está com 42 anos. Não tem mais contato com Nicky e Mickey, e Gav e Hoppo são realidades distantes, ainda que estejam por ali. Ele tornou-se um homem encerrado em si mesmo. Amargurado, alcoólatra, professor que trabalha até quando não precisa só para ter a desculpa perfeita de não ter que socializar. Seu único e mais afável contato é Chloe. Sua inquilina de 22 anos .

Aos 42, Eddie é reflexo do que deu errado na sua infância. Mas ele mesmo não sabe quando as coisas saíram de controle. A única certeza que tem, é que parte da culpa é dele. E é com esses fantasmas que convive todos os dias.

C.J.Tudor consegue reunir em uma única obra casos macabros, estupro, aborto, amizade, sexismo… tudo com a máxima que faz com que o leitor também seja cúmplice de assassinato, cúmplice dos abusos e se veja envolto nesse mistério.

Não é uma obra que é fácil digerida. Talvez seja preciso ruminar e ruminar a história até que possamos, enfim, dar vida a uma nova leitura. “O Homem de Giz”, apesar de ficcional, esfrega na cara de quem o lê, uma realidade muito cruel. E que (por que não?) pode ser vivida por pessoas próximas a  nós.

Há, no entanto, pequenos erros que devem ser levados em consideração, mesmo que não prejudiquem seu caráter. O final, por exemplo, ainda que seja daqueles de surpreender, parece ter sido ter escrito às pressas. Nos deu a sensação que a autora esgotou todas as possibilidades que tinha para escrever essa história e que, infelizmente, estava sem opções mais convincentes para colocar um ponto final.

Mas se podemos exaltar seus pontos fortes, a edição está impecável. Lançado aqui no Brasil pela Editora Intrínseca, temos nas mãos uma verdadeira edição de colecionador. Então para quem está montando sua biblioteca, esse e um livro que não pode faltar na sua estante.

E por último, mas não menos importante; se também nos cabe o elogio, “O Homem de Giz” passaria fácil por uma obra escrita pelo mestre de terror Stephen King. O que a torna ainda mais eletrizante.

“A maioria das pessoas tem muitos amigos. E uso o termo “amigos” informalmente. “Amigos” virtuais não são amigos de verdade. Amigos de verdade são outra coisa. Amigos de verdade ficam do seu lado a qualquer custo. Amigos de verdade são pessoas que você ama e odeia na mesma medida, mas que são parte de você tanto quanto você mesmo. ” [p.207]


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Kinha Fonteneles

Érica nasceu no subúrbio do Rio de Janeiro, mas deveria ter nascido nesses lugares onde se conversa com plantas, energiza-se cristais e incenso não é só pra dar cheirinho na casa.
Letrista na alma, e essa bem... é grande demais por corpinho de 1,55 que a abriga.
Pisciana com ascendente E lua em câncer. Chora quando está feliz, triste, com raiva e até mesmo com dúvida.
Ah! É uma nefelibata sem cura.

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