Eu sei o que vocês podem pensar, “nossa, lá vem mais uma indicação de quadrinhos sobre animais de estimação…”, e é isso mesmo! Mesmo já existindo inúmeras tirinhas com esse tema, não tem como ser indiferente ao estilo de Patrick McDonnell e a capacidade que ele tem de cativar o leitor com Mutts, sua tirinha diária.
A palavra “Mutts” significa uma raça não definida, ou mistura de raças, ou seja, o que chamamos carinhosamente de “Vira-Latas”! Apesar de ser esse o título, Earl, um dos protagonistas, é um cachorro com uma raça definida e dependendo da sua idade você já deve tê-lo visto em algum disco de vinil! Ele é um Jack Russell Terrier, raça do cachorrinho-símbolo da RCA Victor. Earl é o típico cachorro, com um amor imensurável por seu dono e que acha graça nas coisas simples da vida, como brincar, passear, descansar e, claro, comer! Mooch é um gato preto e branco, preguiçoso e que fala de um jeito engraçado. Passa mais tempo com o cãozinho do que com seus donos, o casal de idosos da casa ao lado da que pertence a Ozzy, dono de Earl.

Mafalda tem em suas histórias muito sobre política, Calvin nos traz reflexões filosóficas, Garfield é um humor mais despretensioso, mas com muita irônia (e, às vezes, maldades também)… Todas essas tirinhas são sensacionais e ótimas dentro de seu estilo, mas McDonnell traz para o leitor uma proposta diferente. Ele prefere passar com suas histórias o lado tranquilo da vida. Não há violência, conflitos, política… Só a vida calma dos animais e como se relacionam entre eles e com os seus donos. Tudo isso é transmitido ao leitor de forma muito poética. O fato de Mutts ter um tom bem inocente, sem maldade, e conseguir nos divertir ou emocionar, faz com que essa série seja uma ótima opção para a família inteira, desde o vovô até o netinho.
Os desenhos são bem simples, o desenhista resolve a situação em poucos traços, o que faz com que a tirinha se torne ainda mais poética. Não são só os traços que o autor procura simplificar. O texto também não dá voltas, e se não for necessário, nem está presente na história, o que nos faz lembrar um pouco a boa fase do cinema mudo, em que a narrativa visual era responsável pelo entendimento, deixando para o texto somente o que era impossível transmitir sem palavras. Podemos ver no estilo de McDonnell influências de diversos outros trabalhos, entre eles os Peanuts de Schulz (que era fã da série Mutts, é importante lembrar) e Krazy Kat, tirinha de George Herriman publicada nos jornais norte-americanos entre 1913 e 1944.

Um pouco sobre o autor: Patrick McDonnell nasceu em 17 de março de 1956. Ele é o co-autor do livro “Krazy Kat: The Comic Art of George Herriman” (1986) e em 2012 ganhou a medalha Caldecott, importante reconhecimento para ilustradores de livros infantis nos Estados Unidos com sua obra “Me… Jane”. O artista é vegetariano há mais de 20 anos e apoia diversas causas animais e ambientais, inclusive incentiva a adoção através de várias tirinhas da série Mutts, sua principal obra, criada em setembro de 1994.

O livro “Mutts: Cães, Gatos e outros Bichos” está disponível na plataforma Social Comics. A obra tem tradução de Otacílio d’Assunção, mais conhecido como OTA, que também assina a introdução. A compilação reúne várias das melhores tirinhas da série, extraídas de seus livros originais. Para finalizar, deixamos com vocês as palavras de ninguém menos que Charles M. Schulz sobre Patrick McDonnell: “Qual é o maior elogio que posso fazer a Patrick McDonnell? Ele continua tendo ideias que eu gostaria de ter tido. Um exemplo perfeito é a tira na qual Earl e Mooch estão olhando para um bando de aves e Mooch diz: ‘Ei, eu conhexo aquele cara’.”


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Tom Dutra

Tom Dutra é ator e formado em Artes Visuais. Além disso, faz desenhos e tem dificuldades em dizer se é cartunista, quadrinista, desenhista ou ilustrador! É apaixonado por animações e quadrinhos. Coleciona trilhas sonoras de desenhos animados e é comum encontrá-lo na rua cantando essas músicas.

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