Temporada final abandona a tensão psicológica, exagera no grotesco e desperdiça anos de construção narrativa
Desde sua estreia, “The Boys” funcionava como uma sátira brutal sobre poder, celebridade, manipulação política e idolatria corporativa. A série criada por Eric Kripke conseguia transformar super-heróis em produtos industriais deformados por ego, violência e propaganda. A questão é que, na quinta temporada, a produção parece finalmente ter se tornado exatamente aquilo que criticava.
O último ano da atração troca tensão psicológica por choque barato, desenvolvimento dramático por cenas grotescas e construção narrativa por uma sucessão de momentos feitos para viralizar nas redes sociais. O resultado é uma despedida inconsistente, cansada e estranhamente vazia para uma obra que, durante anos, parecia tão perigosa.
ATENÇÃO: SPOILERS À SEGUIR:
Antony Starr continua gigantesco, mas o Capitão Pátria perde a própria ameaça

O maior problema da temporada está justamente no Capitão Pátria. E isso é quase um paradoxo, porque Antony Starr continua sendo facilmente a melhor coisa da série.
Nas primeiras temporadas, o antagonista era aterrorizante porque parecia contido. A figura carregava uma mistura de narcisismo, insegurança e psicopatia silenciosa que fazia qualquer cena parecer imprevisível. Existia um sentimento constante de que algo terrível poderia acontecer a qualquer momento.
Na quinta temporada, isso desaparece.
A produção transforma o vilão numa caricatura emocionalmente infantilizada. Em vez de um homem perigosamente instável, ele passa a agir como um bebê chorão com poderes divinos. Seus surtos constantes diluem completamente a ameaça que ele representava.
A falha não é ele perder. O revés é perceber que o roteiro já não sabia mais como escrever alguém tão perigoso sem transformá-lo numa versão barulhenta de si mesmo. E isso destrói o impacto do confronto final com Billy Butcher.
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Butcher perde força ao longo da temporada e chega ao fim aquém do que prometia

O final da quarta temporada sugeria algo muito mais interessante: Butcher (Karl Urban) finalmente abraçando a monstruosidade que sempre existiu dentro dele, exatamente como acontece nos quadrinhos. A morte de Victoria Neuman (Claudia Doumit) parecia preparar o terreno para uma versão absolutamente sem freios morais do ex-agente. Um homem consumido pela obsessão de exterminar supers a qualquer custo.
Mas a quinta temporada recua completamente dessa ideia.
Durante boa parte dos episódios, Butcher parece perdido dentro da própria narrativa. O anti-herói deixa de transmitir ameaça, urgência ou radicalismo. Em muitos momentos, ele aparenta apenas reagir aos acontecimentos enquanto o roteiro empurra conflitos importantes até os minutos finais.
E esse talvez seja o maior tropeço estrutural da leva inteira de episódios: a procrastinação do inevitável. Depois de dois capítulos iniciais tensos e promissores, a história entra num estado constante de enrolação. Conflitos são adiados, diálogos soam circulares e a impressão é de que quase nada realmente avança até o desfecho definitivo.
O embate entre Butcher e o Capitão Pátria até começa bem, mas rapidamente perde força ao interromper constantemente a tensão principal com subtramas paralelas e sentimentalismo excessivo.
Kimiko, Ryan e o desperdício de personagens importantes

Kimiko Miyashiro (Karen Fukuhara) poderia facilmente ter sido peça-chave no desfecho contra o Capitão Pátria. A própria lógica da temporada sugere isso. Mas o programa prefere transformar momentos decisivos em distrações emocionais superficiais.
A trama envolvendo o Francês (Tomer Capone) acaba enfraquecendo o peso dramático do confronto principal justamente quando a narrativa precisava ser mais direta e brutal. Já Ryan Butcher (Cameron Crovetti) talvez seja o maior desperdício do quinto ano.
Durante muito tempo, Ryan foi tratado como o pilar central do futuro de The Boys: o conflito moral definitivo entre Butcher e o Capitão Pátria. No entanto, no episódio final, ele surge quase como um espectador passivo da própria importância narrativa. Ele observa os acontecimentos muito mais do que interfere neles.
O grotesco perdeu completamente a função narrativa

Sempre existiram cenas nojentas em The Boys. O ponto é que antes elas serviam à sátira.
Agora, o grotesco parece existir apenas porque a série acredita que precisa constantemente superar o próprio exagero.
A quinta temporada exagera em:
• piadas sexuais intermináveis;
• humor escatológico;
• cenas bizarras sem propósito;
• violência gráfica excessiva;
• gore usado como substituto de impacto dramático.
O resultado é uma produção que frequentemente confunde provocação com maturidade narrativa. Existe uma enorme diferença entre desconforto e exaustão. E a temporada constantemente ultrapassa essa linha.
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Os elencos de Supernatural e Gen V viraram puro marketing

A aguardada reunião de Jared Padalecki, Jensen Ackles e Misha Collins tinha potencial para ser um dos grandes momentos da temporada. Mas a participação acaba funcionando mais como fan service promocional do que como elemento realmente importante para a narrativa.
O mesmo vale para Gen V.
Depois de anos vendendo figuras e conexões como cruciais para o desfecho da franquia, a integração final parece mínima, apressada e praticamente irrelevante. Boa parte da expansão desse universo transmite um ar de manutenção de marca, não de necessidade criativa.
O mesmo ocorre com a promoção insistente do spin-off “Vought Rising”, enquanto Soldier Boy acaba tendo muito menos peso dramático do que deveria.
Soldier Boy vira vitrine para spin-off e desperdiça Jensen Ackles

Soldier Boy retornou cercado de expectativa, principalmente pelo impacto que Jensen Ackles teve nos anos anteriores. A figura carregava carga dramática suficiente para funcionar como uma das peças centrais do encerramento, especialmente pela relação com o Capitão Pátria e pelo potencial destrutivo que ainda representava.
Mas o quinto ano demonstra muito mais interesse em transformá-lo numa ponte para Vought Rising do que utilizá-lo de forma orgânica dentro do enredo principal. Até mesmo a sugestão de um antigo envolvimento com a Tempesta (Aya Cash) soa mais como expansão artificial do que desenvolvimento de personagem.
No fim, Jensen Ackles continua extremamente carismático no papel, mas termina reduzido a uma ferramenta promocional dentro de uma temporada já lotada de subtramas dispersas.
Susan Heyward entrega presença, mas Mana Sábia acaba limitada pelo próprio roteiro

Mana Sábia surge como uma das ideias mais interessantes da reta final. Interpretada por Susan Heyward, ela tinha potencial para renovar completamente a dinâmica política e psicológica da série.
A proposta da pessoa mais inteligente do mundo manipulando os bastidores do caos parecia perfeita para uma história que precisava recuperar tensão estratégica em vez de depender apenas de violência gráfica e humor chulo.
Só que o roteiro nunca consegue explorar isso de verdade.
Depois de uma introdução forte, Mana Sábia passa boa parte do tempo orbitando acontecimentos sem realmente assumir o protagonismo intelectual prometido. Muitas vezes, sua genialidade parece limitada pelas conveniências do enredo. Susan Heyward entrega presença e controle em cena, mas termina com a sombra de que poderia ter sido muito mais importante.
Colby Minifie continua ótima, mas Ashley vira refém da repetição

Ashley Barrett talvez seja o retrato mais claro do desgaste criativo da obra. No início, ela funcionava como uma representação grotesca da submissão corporativa dentro da Vought. O colapso emocional constante ajudava a construir o clima tóxico dos bastidores da empresa.
E muito disso dava certo graças à atuação caótica e desesperada de Colby Minifie, que sempre conseguiu transformar Ashley numa presença desconfortável e tragicômica ao mesmo tempo. O entrave é que a quinta temporada recicla praticamente tudo que já havia sido feito com ela.
Os surtos continuam iguais, as humilhações se repetem e a executiva parece presa num looping narrativo sem evolução real. Ela continua divertida em momentos isolados, mas já não possui o mesmo impacto porque a série nunca permite que saia desse ciclo.
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Chace Crawford sustenta o Profundo até onde consegue, mas a série destrói qualquer relevância do personagem

Profundo talvez seja o caso mais frustrante de todos.
Nas primeiras fases, o herói interpretado por Chace Crawford funcionava como uma sátira desconfortável sobre ego, abuso de poder e decadência pública. O humor existia, mas ainda havia algo patético, irritante e até perturbador nele.
Nesta reta final, isso desaparece por completo.
Ele vira apenas uma piada ambulante. Boa parte de suas cenas depende exclusivamente de constrangimento, bizarrice sexual e humilhação, sem qualquer crescimento ou relevância verdadeira. Frequentemente, o sentimento gerado deixa de ser raiva e passa a ser puro cansaço.
E isso acaba afetando até a percepção sobre o próprio trabalho de Crawford. Porque, apesar de o ator claramente se entregar ao papel há anos, os roteiristas reduzem o Profundo a algo quase descartável, preso em esquetes que raramente acrescentam à narrativa.
Sua morte deveria carregar peso simbólico dentro da queda dos Sete. Em vez disso, parece apenas mais um choque rápido numa temporada desesperada por reação imediata. Existe uma sensação amarga de desperdício em relação ao ator, pois ele demonstrou ter timing cômico e presença suficientes para sustentar algo muito mais complexo.
O episódio final ainda encontra humanidade nos minutos finais

Apesar de todos os problemas, os minutos finais conseguem entregar algo que a temporada inteira parecia incapaz de sustentar: emoção legítima.
A morte de Butcher funciona justamente porque reconhece que o ex-agente foi destruído pelos próprios demônios. Ryan e o cão Terror eram suas últimas âncoras morais, e a perda desses elementos acelera sua queda definitiva rumo ao extremismo. Ainda assim, a motivação soa mal trabalhada. O roteiro sugere um homem disposto a destruir supers independentemente de traumas imediatos, então reduzir essa explosão à perda de um cachorro e à rejeição do garoto soa simplista demais.
Mesmo assim, o desfecho entre Butcher e Hughie Campbell (Jack Quaid) funciona melhor do que nos quadrinhos justamente porque ainda existe humanidade ali. Hughie oferece uma redenção que as HQs nunca permitiram.
Também funcionam:
• o arco final de Trem-Bala;
• Kimiko finalmente encontrando paz;
• Leitinho reconstruindo sua família;
• Hughie e Annie encerrando a história juntos.
São bons finais.
A frustração é que o quinto ano quase nunca parece merecê-los.
Imagem Destacada: Reprodução/Prime Video



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