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CríticaFilmes

Crítica (2): Aliados

Daniel Gravelli
17 de fevereiro de 2017 5 Mins Read

Amor, uma fábula de guerra

1 1

Nos dias atuais quando falamos de espionagem, o público já pensa em alguns filmes cheios de explosões e/ou repletos de agentes charmosos dotados de muita expertise e bugigangas capazes de nos fazer ficar ainda mais vidrado no ritmo da produção. Entre casos como esses temos os acelerados e franqueados “Missão Impossível”, “007”, “Jason Bourne”, “Jack Reacher”, entre outros que ficam semanas nos cinemas rendendo uma bilheteria inacreditável. Todavia não falaremos desses espiões por aqui, mas sim de personagens inspirados em grandes criações que marcaram época na sétima arte. Alguns desses são responsáveis por nos entregar a clássica e verossímil circunstância que envolve a boa e velha espionagem, repleta da nostalgia proposta pelo cinema noir e outras escolas cinematográficas capazes de nos encher os olhos ao registrarem em nossa memória cenas inesquecíveis.

“Aliados”, novo filme de Robert Zemeckis (“A Travessia” e o “Voo”), que chegou ontem aos cinemas brasileiros, é um das poucas produções da última década a trazer de volta a originalidade e atmosfera da verdadeira espionagem. Aportando com dois astros da mais alta estirpe hollywoodiana, Brad Pitt e Marion Cotillard, o filme bebe sem medo da mesma água de grandes clássicos, buscando inspirações em filmes como “Intriga internacional” e “Notorius” de Alfred Hitchcock e, principalmente, no famosíssimo “Casablanca” de Michael Curtiz. Inclusive, esse último é homenageado a todo instante através da construção de determinadas cenas que refletem quase por igual o cenário, bem como os memoráveis diálogos que imortalizaram o filme como uma obra de arte.

O enredo conta a história de Max Vatan, um agente canadense infiltrado na cidade de Casablanca (na época ainda sitiada pelos franceses), no Marrocos, para realizar um atentado contra a vida de um embaixador nazista. Para a missão ele conta com a ajuda da inteligente agente francesa Marianne Beausejour, que assume a identidade de sua apaixonada e leal esposa. No meio da confusão causada pelo trabalho qual foram designados, o lado pessoal ultrapassa o profissional e faz com que os dois cruzem a perigosa linha do relacionamento. E esse é o estopim para uma interessante intriga que se desloca sem muitos problemas  até os minutos finais quando, após alguns anos, o passado ameaça vir a tona e coloca em risco a vida dos dois.

A elegante produção, que envolve nomes como o próprio Zemeckis, Denis O’Sullivan, entre outros gigantes do mercado cinematográfico, dá o tom perfeito a uma impecável reconstrução de época. A obra não poupa nos efeitos visuais, muito bem realizados por sinal, e, com isso, acaba transformando o produto em um Blockbuster comum, com um ar mais requintado. O que também não é ruim de se ver, porém ares mais simplistas fariam bem a trama.

Com um roteiro extremamente comercial, Steven Knight acaba chamando uma atenção desnecessária para as cenas de ação colocadas no filme. Tais inserções podem causar no espectador uma certa impressão de grandiloquência ou heroismo demasiado; o mesmo acontece ao descomedido uso do melodrama na narrativa. Não é difícil associarmos alguns momentos ao estilo novelesco existente na televisão brasileira. E é nesse ponto que talvez o roteirista mais peque, ao não definir uma estrutura para determinado seguimento, como se pulasse de galho em galho testando a resistência de cada um. Todavia, é importante salientar que a temática central que aborda a espionagem não deixa a desejar nem por um segundo. Somos facilmente levados pela história e os mistérios que a circulam.

USK 01076R3

Como diretor, Robert Zemeckis nos apresenta um olhar apurado, detalhista em muitos aspectos, trabalhando enquadramentos grandiosos que sustentam com propriedade o tamanho do projeto em que está envolvido. Determinados movimentos de câmera, e angulações escolhidas para posicionar a mesma, sugerem perfeitamente a atmosfera enigmática e atraente necessitada pela obra. Algo que caminha sublimemente com a fotografia de Don Burgess, seu parceiro de longa data em filmes como “Forest Gump” e “Náufrago”.

O fotógrafo dramatiza com cautela a ambientação do filme, caminhando na direção de duas vertentes principais e uma terceira que serve de ponte para ligar todos os acontecimentos emocionais e psicológicos. Na primeira temos o foco em uma paleta de cores com tons pastéis, abusando de um filtro que revela um amarelo mais fechado e envelhecido, objetivando o clima árido e quente do local ao mesmo tempo que oferece um aspecto mais abafado, sufocante, ao filme. No meio, temos a troca de locação que nos entrega uma uma Londres Viva, poderosa, destacando cores quentes, muita felicidade e confiança. Algo que não dura muito tempo, uma vez que somos surpreendidos por uma belíssima reviravolta atmosférica. A soturna fotografia revela uma outra Londres, modorrenta, chuvosa, mergulhada em um aspecto mais acinzentado, afetado pela guerra e o medo do inimigo.

A direção de Arte, formada pelo quarteto: Anthony Caron-Delion, Jason Knox-Johnston, Richard Selway e Tom Still, todos acostumados com grandes projetos, e o fabuloso figurino de Joanna Johnston (“O Resgate do Soldado Ryan”), engrandecem esteticamente a produção. Aqui, os tons pastéis imperam em quase toda projeção, recebendo um toque refinado de cores frias e quentes, aproximando o espectador ainda mais da história e o ano em que essa se passa, sem deixar perder a contemporaneidade oferecida pelos acabamentos do cenário e as roupas usadas principalmente por Beausejour.

Todo elenco está muito bem em cena, mas precisamos deixar claro que o filme pertence mesmo a Marion Cotillard. A atriz desenvolve com segurança uma personagem misteriosa (Marianne Beausejour), bem definida em suas características psicológicas, sabendo também dosar as diversas emoções que lhe aflige durante quase todo o seu tempo em tela. Brad Pitt também está bem em seu papel como Max Vatan, conseguindo deixar de lado a “casaca” de galã que veste em quase todos os seus filmes. Embora seu personagem seja o grande “herói”, sua interpretação convence e é através dela conseguimos enxergar com clareza as mazelas de sua persona, as dores que invadem seu peito e o transforma em algo diferente do que sempre foi. Demais atores como August Diehl, Michael McKell e Camille Cottin, também fazem parte da produção e agradam em seus respectivos papéis. 

“Aliados” é um meio termo! Não chega a ser um clássico, mas não se deixa seduzir pelo cinema de ação contínua. É um bom filme, bem idealizado e com dramatizações competentes. Sem falar que é esteticamente maravilhoso e possui atores que exalam charme e eficiência. No geral, é um ótimo filme para assistir na telona.

A produção concorre ao Oscar 2017 de Melhor figurino.

Produção
8
Roteiro
7.3
Direção
8.5
Fotografia
8.5
Direção de Arte
8.3
Figurino
8.6
Reader Rating1 Vote
9
8

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Me siga Escrito por

Daniel Gravelli

Daniel Gravelli é diretor e cofundador da Woo! Magazine, especialista em comunicação, storytelling e cultura. Com mais de 30 anos de experiência no mercado cultural como diretor, produtor, ator e roteirista, traz para a Woo! um olhar único sobre a arte e seu potencial de conexão humana. Escreve sobre entretenimento, comportamento e tudo que movimenta o cenário cultural brasileiro.

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