Na maioria das vezes quando se fala ou pensa no gênero Teatro Musical, paira no inconsciente ou consciente coletivo a seguinte estrutura: cenários monumentais, elencos enormes, com verdadeiros atletas da arte, coreografias exóticas e por aí vai. Apesar de muitas vezes o espetáculo em si não transbordar nada além do encantamento pela exuberância, e as vezes nem isso, acabam por não nos acrescentar enquanto seres humanos em evolução aqui nesse planeta.

[Nome do Espetáculo] foge à essa “regra” estrutural e, através do simples, onde o menos é mais, nos impacta, emociona, faz rir, chorar e suscita inúmeras reflexões a respeito de nós mesmos, nossos medos, sonhos, expectativas, frustrações e vontades que muitas vezes negligenciamos por uma série de fatores sociais, financeiros ou emocionais. Elenco enxuto e multitalentoso, executando coreografias divertidas que também fazem certas críticas à esses padrões estabelecidos para o gênero e músicas embaladas apenas por um piano em cena. Esse espetáculo musical é diferente, potente e extremamente cativante do início ao fim.

O espetáculo é a história real (ou quase real) de Jeff (Junio Duarte – “The Book of Mormom” da Unirio) e Hunter (Caio Scot – “The Book of Mormom” da Unirio e “Festa Selvagem” da CAL), um dramaturgo e um músico que resolvem participar de um festival de teatro e tem apenas três semanas para criar um musical. Para a empreitada convidam duas amigas atrizes, Susan (Ingrid Klug de “Meninos e Meninas” e “O Mambembe – Um Musical Brasileiro”), Heidi (Carol Berres de “Matilda – O Musical” do Ceftem e “Festa Selvagem” da CAL) e um amigo músico (papel alternado entre Gustavo Tibi da Banda JAMS e Catherine Henriques). O musical propõe um olhar sobre o próprio fazer artístico, bem como todas as etapas e percalços que compõem o processo de produzir arte de maneira independente.

A cenografia proposta por Cris de Lamare é essencial e extremamente funcional. Ali tudo está a serviço da história que está sendo contada, assim como a iluminação assinada por Paulo Cesar Medeiros que contribui para as passagens de tempo e espaço acentuando, em determinados momentos, os movimentos cômicos gerados pelo meta-teatro.

O projeto idealizado pelos também atores do espetáculo, Caio Scot e Junio Duarte, estreou dia 04 deste mês no Teatro Solar de Botafogo. Persistência, resistência, cumplicidade, acreditar em si mesmo e em uma ideia e torná-la possível. É disso que se trata o musical e foi isso que esses dois fizeram, juntamente com o restante do elenco e equipe que abraçou o projeto e, mesmo sem patrocínio ou leis de incentivo, fazem temporada até dia 04 de Dezembro em Botafogo.

Repleto de metalinguagem, o espetáculo é uma versão brasileira do musical da Broadway [Title of Show] escrito originalmente por Hunter Bell com letras e músicas de Jeff Bowen. A adaptação foi muito bem realizada pelos idealizadores juntamente com Carol Berres, Luisa Vianna e Tauã Delmiro e nos dá a sensação de que trata-se de um espetáculo genuinamente brasileiro.

A química entre o elenco é inegável e faz com que o público acompanhe atentamente a trajetória desses personagens no desafio da construção desse espetáculo em um espaço de tempo tão curto. Desconstroem a todo instante a ideia comum do que é “fazer ou ser sucesso” gerando empatia e aproximando cada vez mais esses personagens de quem os assiste. Com domínio dos movimentos cômicos e também dramáticos, o elenco consegue conduzir o espectador a sentir junto os altos e baixos do grupo.

Notáveis talentos despontando no cenário cultural carioca e nos deleitando com um espetáculo sensível, divertido e imperdível. Se você ainda não conhece essa galera, pode conferir a matéria que fizemos há algumas semanas que conta um pouquinho mais sobre eles e sobre a trajetória da própria montagem.

Entram na terceira semana neste sábado e deixamos aqui o convite para que você vá também se divertir com essa história. Mais detalhes sobre o espetáculo você confere na nossa agenda.

Critica: [nome do espetáculo]
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