Em A Hora do Boi, Vandré Silveira constrói uma relação entre homem e animal para questionar trabalho, afeto e a lógica que transforma vidas em funções
Assistir a “A Hora do Boi”, monólogo protagonizado por Vandré Silveira, é, num primeiro momento, acompanhar uma história sobre a relação entre um homem e um animal. Seu Francisco trabalha em um matadouro e cria um vínculo com Chico, um boi que conhece desde o nascimento e que, em determinado momento, deveria conduzir ao mesmo destino de tantos outros animais que passaram por suas mãos.
É desse conflito que nasce a dimensão mais evidente do espetáculo: o afeto colocado diante da obrigação, o sentimento confrontado por uma função que Francisco aprendeu a desempenhar como parte de sua própria rotina.
Mas “A Hora do Boi” parece interessada em algo que ultrapassa a relação entre seres humanos e animais. Aos poucos, a peça questiona também a maneira como aprendemos a enxergar praticamente tudo aquilo que nos rodeia e, principalmente, o valor que atribuímos às coisas a partir daquilo que elas podem nos oferecer.
Dentro de uma lógica marcada pela produção, pelo consumo e pela necessidade constante de transformar alguma coisa em outra coisa, existir parece já não ser suficiente. Tudo precisa servir. Tudo precisa ter uma finalidade, uma utilidade, um destino. E é justamente quando Francisco se vê diante de Chico que essa lógica começa a perder a sua aparente simplicidade.
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A utilidade como medida da existência

O boi serve como alimento. A terra serve para produzir. O trabalhador serve para executar sua função. Até o tempo parece precisar produzir algum resultado. É justamente aí que Chico deixa de ser apenas o animal pelo qual Francisco desenvolve carinho.
A relação entre os dois começa a romper uma estrutura que, até então, parecia natural para aquele homem. Francisco trabalha abatendo animais. Conhece aquela realidade, conhece o procedimento e conhece o papel que deve cumprir. Existe uma engrenagem funcionando e, dentro dela, tanto ele quanto Chico já possuem funções determinadas.
Chico será abatido. Francisco irá abater. O problema surge quando Francisco passa a enxergar alguma coisa além dessas funções. O afeto introduz complexidade onde antes existia apenas utilidade. Ao conhecer Chico de outra maneira, Francisco já não consegue olhar para ele somente como carne, produto ou destino previamente estabelecido. O animal ganha individualidade. Tem presença, comportamento, história.
Aos poucos, aquilo que deveria ser apenas parte do trabalho invade um território que a lógica produtiva parece não saber administrar: o da sensibilidade.
Francisco também precisa ser salvo

Esse é um dos pontos mais interessantes de “A Hora do Boi”. Francisco não encontra em Chico apenas carinho, companhia ou uma forma de preencher a ausência afetiva. Há naquele encontro a possibilidade de recuperar algo que também havia sido retirado dele. Ao reconhecer Chico como um ser vivo para além de sua função, Francisco parece recordar que ele próprio é mais do que a função que exerce, mais do que aquilo que produz ou aquilo que esperam que ele faça.
Nesse sentido, talvez Francisco não esteja apenas humanizando o boi. Talvez seja o boi quem esteja devolvendo humanidade a Francisco. A relação provoca uma ruptura em um homem acostumado a obedecer, executar e seguir adiante. Francisco começa a sentir onde antes precisava apenas funcionar. E, a partir desse momento, a relação entre os dois deixa de ser apenas uma história sobre afeto e passa a revelar algo muito mais incômodo sobre a maneira como determinadas existências são avaliadas.
Chico é reduzido à carne. Francisco é reduzido ao trabalho. São existências diferentes, mas submetidas à mesma lógica e, de maneiras distintas, à mesma pergunta: para que você serve?
Quando o boi ganha voz

Essa discussão ganha ainda mais força quando Chico assume a palavra. Em um dos momentos mais provocativos de “A Hora do Boi”, o animal questiona a forma como os seres humanos acreditam conhecê-lo simplesmente porque conseguiram nomeá-lo. Para nós, ele é um boi. Uma palavra que carrega uma série de definições, características e, principalmente, utilidades. Mas aquilo que recebeu um nome não necessariamente foi compreendido.
Quando Chico fala sobre ter sido criado por Deus com características que os homens sequer imaginam, a peça toca em uma espécie de arrogância humana: acreditamos compreender aquilo que conseguimos classificar. Damos nome. Estabelecemos função. Seguimos adiante.
A partir daí, surge uma das perguntas mais vicerais do espetáculo: quanto sabemos, de fato, sobre aquilo que decidimos utilizar?
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A construção visual e sonora também tem papel importante no espetáculo. A cenografia evita o excesso e sugere o universo do matadouro por meio de estruturas e elementos pontuais, enquanto a iluminação acompanha o movimento de Vandré Silveira e usa as cores para reforçar a atmosfera emocional de cada momento.
Os efeitos sonoros funcionam da mesma forma, ampliando tensões e transições. A voz do chefe se destaca nesse conjunto: marcada por superioridade e sarcasmo, ela deixa claro que o antagonismo vai além de um personagem. Mais do que um antagonista individual, ele representa um sistema que condiciona o direito de existência dos indivíduos à capacidade de ser útil.
A Hora do Boi vai além da relação entre homem e animal?
Essa pergunta não precisa terminar no animal. Ela alcança a natureza, os recursos que exploramos, os espaços que ocupamos e até as pessoas que reduzimos às funções que desempenham. O progresso humano permitiu transformar praticamente tudo ao nosso redor. A capacidade de transformação, porém, nem sempre veio acompanhada do esforço de compreender aquilo que estava sendo transformado.
Há algo profundamente contemporâneo nisso. Vivemos em uma realidade em que o valor das coisas frequentemente se mistura àquilo que elas conseguem produzir. Somos incentivados a transformar tempo em produtividade, conhecimento em vantagem, relações em conexões e até a própria identidade em desempenho. A perversidade dessa lógica aparece em “A Hora do Boi” justamente porque ela não alcança somente Chico. Francisco também está dentro da engrenagem. Um existe para ser consumido. O outro, para produzir.
Em posições completamente diferentes, os dois acabam submetidos a uma lógica que enxerga primeiro a função e só depois, talvez, a existência.
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O afeto e o amor como ruptura

É nesse ponto que o vínculo entre Francisco e Chico ganha uma dimensão que ultrapassa uma relação de amizade ou compaixão. O afeto interrompe a engrenagem. Francisco poderia simplesmente obedecer. Poderia repetir que aquele era seu trabalho, que Chico era apenas mais um animal e que as coisas sempre funcionaram daquela maneira. Essa justificativa seria suficiente para que tudo continuasse funcionando. Mas algo já havia mudado. Francisco tinha visto.
Depois de reconhecer vida onde antes existia apenas função, voltar à indiferença se torna muito mais difícil. Talvez seja daí que venha também a esperança presente em “A Hora do Boi”. Não necessariamente da crença ingênua de que todas as estruturas podem ser facilmente transformadas, mas da possibilidade de que alguém consiga enxergar além daquilo que aprendeu a considerar normal.
A pergunta que permanece depois de A Hora do Boi
É possível sair de “A Hora do Boi” pensando sobre nossa relação com os animais, sobre empatia e sobre a violência envolvida na transformação de uma vida em produto. Mas o espetáculo permite uma pergunta ainda mais desconfortável.
Em uma sociedade que transforma tantas coisas em instrumento, mercadoria ou produtividade, quanto tempo demora até que façamos o mesmo conosco? Ou pior, há quanto tempo estamos fazendo e qual será o limite dessa lógica de utilização e condicionamento a funcionalidade?
Francisco encontra no boi uma possibilidade de voltar a ser um ser vivo, e não apenas um ser útil. E talvez Chico, antes de ser aquele que precisa ser salvo, seja justamente aquele que lembra Francisco de que viver deveria significar alguma coisa além de servir.
Há também um mérito importante na forma como Vandré Silveira conduz a narrativa. Em muitos momentos, ele assume o lugar de contador de histórias e cria uma proximidade que conecta o público não apenas aos personagens, mas também a quem conduz o relato. Essa cumplicidade apareceu na resposta final da plateia: em uma sala formada por crianças, jovens, adultos e idosos, Vandré foi aplaudido de pé. O gesto, por si só, não define a qualidade de uma obra, mas ajuda a revelar a força de comunicação de um ator que consegue atravessar públicos tão diferentes sem transformar a cena em mera exibição de virtuosismo.
A Hora do Boi é uma peça sobre afeto, mas também sobre consciência. Sobre o momento em que aquilo que parecia natural deixa de fazer sentido. Sem discursos grandiosos ou respostas fáceis, o espetáculo encontra justamente nesse deslocamento uma forma de provocar o público. Quando a peça termina, o desconforto permanece e ele diz respeito a muito mais do que aquilo que acontece dentro daquele matadouro.
Outras informações sobre o espetáculo podem ser acompanhadas pelos perfis @ahoradoboiteatro e @vandresilveira.
Imagem: Divulgação/buckerproducoesartisticas (Crédito: Bob Sousa)












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