Cantora prepara encontro com Roberto Menescal enquanto revisita uma carreira marcada por hits, exposição, riscos e reinvenções
Luísa Sonza chega ao Rock in Rio 2026 ocupando uma posição que parecia distante quando começou a publicar versões de sucessos na internet: a de uma artista capaz de abrir o Palco Mundo, apresentar uma nova fase e dividir o espetáculo com Roberto Menescal, um dos nomes fundamentais da bossa nova.
O show acontece em 7 de setembro, data que também reúne Elton John, Gilberto Gil e Jon Batiste no palco principal. Sonza promete combinar a energia da turnê “Brutal Paraíso” com o repertório de “Bossa Sempre Nova”, projeto gravado ao lado de Menescal e Toquinho. A própria cantora classificou a apresentação como a mais importante de sua vida.
A frase carrega um peso maior do que a costumeira empolgação promocional. O show representa o encontro entre várias versões de Luísa: a menina que cantava em festas do interior, a “rainha dos covers”, a popstar de coreografias virais, a compositora que transformou separações em repertório e a intérprete que decidiu encarar clássicos da música brasileira – escolha corajosa, justamente porque clássicos não costumam perdoar interpretações preguiçosas.
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Dos Bailes de Tuparendi ao Título de “Rainha dos Covers”

Antes dos milhões de reproduções, existiu uma rotina pouco glamourosa. Luísa entrou aos sete anos para o grupo vocal Sol Maior, no interior do Rio Grande do Sul, e permaneceu durante aproximadamente uma década. A agenda chegava a mais de vinte apresentações mensais, passando por casamentos, bailes, feiras, supermercados, praças e até velórios. Foi ali que aprendeu a cantar para públicos que nem sempre estavam esperando por ela.
Essa formação explica uma característica que segue visível nos grandes festivais: Sonza trata o palco como trabalho físico. Há coreografia, deslocamento, troca de figurinos e controle de plateia. A performance não apareceu depois da fama; foi construída quando ela ainda precisava disputar atenção com conversas de casamento e barulho de praça.
Em 2014, começou a publicar vídeos no Instagram e criou seu canal no YouTube. O repertório era formado por covers, versões em voz e violão e algumas “músicas-resposta”, nas quais adaptava letras conhecidas para apresentar outro ponto de vista. O crescimento digital rendeu o apelido de “rainha dos covers” e abriu o caminho para o contrato com a Universal Music, assinado em 2017.
A fase dos covers costuma ser tratada como um prólogo menor, mas ela ensinou uma habilidade central do pop: compreender rapidamente o motivo pelo qual uma canção funciona. Sonza aprendeu refrões, estruturas, tendências e formas de interpretação antes de consolidar uma identidade própria. O perigo era permanecer como alguém que cantava bem músicas alheias. Sua carreira solo passou a ser uma tentativa constante de escapar dessa sombra.
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De “Pandora” a “Doce 22”: a Fabricação de uma Popstar

O primeiro EP, lançado em 2017, ainda mostrava uma artista dividida entre baladas românticas e faixas dançantes. Singles como “Boa Menina” e “Devagarinho” começaram a estabelecer uma persona mais confiante, sensual e visualmente calculada.
O álbum “Pandora”, de 2019, direcionou melhor essa transformação. O projeto colocou a cantora entre o pop, o funk, o soul e as colaborações estratégicas. “Garupa”, com Pabllo Vittar, “Bomba Relógio”, com Vitão, e “Fazendo Assim”, com Gaab, ampliaram seu alcance e mostraram que Luísa entendia o feat como troca artística e instrumento de circulação entre públicos.
O salto veio com “Doce 22”, lançado em 2021. O disco foi construído a partir de duas identidades: uma explosiva, formada por pop e funk; outra íntima, concentrada em frustração, insegurança e términos. Todas as faixas chegaram ao Top 70 do Spotify brasileiro, e o álbum ultrapassou um bilhão de streams, tornando-se o disco pop nacional mais ouvido na plataforma naquele ano.
Em “Modo Turbo”, parceria com Anitta e Pabllo Vittar, Sonza reforçou sua capacidade de ocupar o centro de uma produção maximalista. Em “Penhasco”, retirou parte da armadura e encontrou uma composição capaz de sobreviver sem coreografia. Essa oposição entre a artista de espetáculo e a cantora confessional virou uma das bases de sua discografia.
Também apareceu ali uma fragilidade que ainda acompanha seus álbuns: o desejo de mostrar muitas possibilidades ao mesmo tempo. A versatilidade pode gerar surpresas, mas também produz projetos que parecem disputar várias direções. Quando tudo precisa ser balada, funk, blues, rock, trap e manifesto pessoal, a coesão entra no palco já ofegante.
Quando os Relacionamentos Viraram Parte do Repertório – e do Espetáculo Público
A vida amorosa de Luísa Sonza ganhou uma exposição desproporcional em relação à de muitos artistas homens. O casamento com Whindersson Nunes, encerrado em 2020, foi seguido por acusações e ataques dirigidos à cantora. O relacionamento posterior com Vitão também passou a ser discutido como extensão de uma narrativa construída por fãs e páginas de celebridades. Anos depois, o namoro com Chico Moedas atravessou o lançamento de “Escândalo Íntimo”, impulsionado justamente por uma música chamada “Chico”.
Esses relacionamentos importam para a trajetória musical porque foram transformados em matéria de composição. “Penhasco” nasceu da dor após o fim do casamento. “Chico” surgiu durante outra relação e virou um dos maiores sucessos do álbum de 2023 antes que o namoro terminasse publicamente.
O problema surge quando a pessoa real engole a obra. Durante muito tempo, cada canção de Sonza foi tratada como pista de uma investigação amorosa. O público buscava nomes, traições e indiretas enquanto a estrutura musical recebia menos atenção. A série documental “Se Eu Fosse Luísa Sonza”, lançada pela Netflix, colocou essa tensão no centro ao abordar carreira, vida pessoal, controvérsias e a produção de um novo álbum.
A cantora colaborou para essa fusão ao transformar a intimidade em conceito, divulgação e dramaturgia pop. Isso não diminui suas composições. Mostra que Sonza conhece a força comercial de uma história pessoal, mesmo quando perde o controle sobre a maneira como essa história será consumida.
“Escândalo Íntimo” e a Conquista de uma Identidade Autoral
“Escândalo Íntimo”, lançado em 2023, ampliou a ambição conceitual. O álbum misturou pop, funk, rock, samba, bossa nova, referências gaúchas e hyperpop dentro de uma narrativa sobre desejo, culpa, exposição e reconstrução. Doze faixas apareceram simultaneamente na Billboard Brasil Hot 100, enquanto o projeto ultrapassou a marca de um bilhão de streams nas plataformas digitais.
A parceria com Demi Lovato em “Penhasco2” deu dimensão internacional ao trabalho. Já “Campo de Morango” e “A Dona Aranha” reforçaram o gosto de Sonza por imagens exageradas e pela apropriação de referências conhecidas. Em “A Dona Aranha”, uma cantiga infantil vira matéria-prima para uma faixa adulta, teatral e provocadora, exatamente o tipo de transformação que conecta a cantora dos covers à autora interessada em deformar referências.
O álbum também consolidou seu método: transformar a era em experiência audiovisual. Cores, símbolos, videoclipes e performances são pensados como partes da mesma história. Nem todas as ideias chegam com a mesma precisão, mas existe intenção artística. Luísa tenta criar um mundo no qual elas possam circular.
Essa capacidade diferencia uma cantora de hits de uma popstar. O hit resolve uma estação. A era precisa sustentar meses de imagens, discursos, shows e releituras.
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Bossa Nova, Funk e o Risco Calculado de “Brutal Paraíso”
Em janeiro de 2026, Luísa lançou “Bossa Sempre Nova” com Roberto Menescal e Toquinho. O disco revisita composições como “Consolação”, “Águas de Março”, “O Barquinho” e “Tarde em Itapoã”, além de apresentar “Um Pouco de Mim”, escrita pela cantora com Menescal.
O trabalho recebeu reações divididas. Parte da crítica valorizou a textura orgânica e a disposição de apresentar o repertório a uma nova geração. Outra parte questionou os vibratos e a interpretação de Sonza, considerada expansiva demais para a economia vocal associada à bossa nova. A discordância é produtiva: ela mostra uma artista disposta a entrar em um território no qual sua fama não garante aprovação automática.
Poucos meses depois, veio “Brutal Paraíso”, quinto álbum de estúdio e quarto projeto solo. Com 23 faixas, o disco circula por bossa nova, pop, funk, reggaeton, rock, blues, eletrônica e orquestrações. Sonza afirmou ter escrito cerca de 95% das músicas sozinha, buscando uma versão mais espontânea e menos presa às exigências do mercado.
O lançamento alcançou um milhão de streams no Spotify em sua primeira hora, e treze músicas entraram no Top 200 brasileiro. O desempenho confirma sua capacidade de transformar um álbum longo em acontecimento, embora a quantidade de estilos também tenha despertado críticas à falta de unidade.
Sua participação no Coachella 2026 apresentou essa nova fase ao público internacional. Depois, Luísa tornou-se a primeira brasileira a participar do programa de Zane Lowe, na Apple Music, cantando “Sempre Você” e “O Som da Despedida”. Vídeos de sua estreia no festival ficaram entre as performances mais vistas no Instagram oficial do evento durante o primeiro fim de semana.
Em agosto de 2026, o perfil da artista no Spotify aparece com cerca de 9,1 milhões de ouvintes mensais. Um levantamento do Kworb, atualizado em 26 de julho, contabilizava aproximadamente 5,7 bilhões de reproduções em faixas creditadas a ela, considerando músicas próprias e participações. Seu canal principal no YouTube também reúne cerca de 8,4 milhões de inscritos e mais de 3,2 bilhões de visualizações. Os números mudam diariamente, mas ajudam a dimensionar uma carreira que já ultrapassou a lógica do sucesso momentâneo.
Por Que Luísa Sonza se Tornou uma das Grandes Artistas Pop Brasileiras?

1. A experiência de palco veio antes da celebridade
Luísa passou anos cantando em ambientes nos quais precisava conquistar pessoas que não compraram ingresso para vê-la. Essa formação aparece na maneira como sustenta grandes festivais, reage ao público e controla a energia de um espetáculo.
2. Ela entende que pop também é construção visual
Figurino, coreografia, cenografia, clipes e divulgação participam da mensagem. Mesmo quando uma escolha divide opiniões, dificilmente uma era de Sonza passa sem imagens reconhecíveis. Ela compreende que o pop vive tanto nos fones quanto na memória visual.
3. Sua discografia registra transformações reais
“Pandora” apresenta a artista procurando uma identidade. “Doce 22” divide força e fragilidade. “Escândalo Íntimo” transforma exposição em conceito. “Brutal Paraíso” busca liberdade depois do controle extremo. Há uma linha de desenvolvimento, inclusive nos excessos.
4. As parcerias possuem funções diferentes
Anitta, Pabllo Vittar, Ludmilla, Demi Lovato, Katy Perry, Baco Exu do Blues, KayBlack, Emilia, Young Miko, Roberto Menescal e Toquinho não aparecem no catálogo pela mesma razão. Algumas parcerias ampliam mercado; outras aproximam gêneros, gerações e públicos. Essa leitura estratégica ajudou Luísa a circular entre funk, pop, rap, sertanejo, MPB e música latina.
5. Ela aceita o risco de parecer exagerada
A busca por grandiosidade produz erros. Alguns projetos acumulam conceitos demais, algumas performances priorizam impacto e certas letras confundem confissão com exposição excessiva. Ainda assim, existe movimento. Sonza prefere testar os próprios limites a permanecer repetindo o último acerto, uma postura especialmente valiosa em um pop cada vez mais guiado por fórmulas rápidas.
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Rock in Rio 2026 Pode Unir Todas as Versões de Luísa Sonza

A estreia de Luísa no festival aconteceu em 2022, no Palco Sunset, com o espetáculo “O Conto dos Dois Mundos”. Em 2024, ela chegou ao Palco Mundo. A apresentação de 2026 marca seu retorno ao palco principal, agora com um show criado para a data e a participação de Roberto Menescal.
O encontro possui um valor simbólico claro. Menescal representa uma música associada à contenção, à harmonia e ao canto intimista. Luísa construiu parte da fama com batidas intensas, coreografias e uma imagem maximalista. Colocar os dois no mesmo palco permite discutir o pop brasileiro como continuidade, e não como uma guerra entre gerações.
O set deve preservar hits como “Penhasco” e “Modo Turbo”, incorporar faixas de “Brutal Paraíso” e reservar um bloco acústico para o encontro com Menescal. A cantora já indicou que músicas como “Chico”, “Sempre Você” e “Iguaria” podem fazer parte desse momento.
O risco está nas transições. Um espetáculo que mistura bossa nova, funk, trap, reggaeton, rock e baladas precisa criar uma progressão, em vez de parecer uma playlist no modo aleatório. A melhor versão desse show mostrará que a diversidade sonora vem da mesma artista. A pior colocará cada gênero em uma gaveta e passará correndo por todos eles.
O potencial é enorme. Luísa pode apresentar sua trajetória como uma sequência coerente: a intérprete que começou cantando músicas dos outros, aprendeu a fabricar sucessos, expôs as próprias dores e retornou às canções brasileiras que ajudaram a formar seu ouvido.
Top 10: As Músicas Fundamentais de Luísa Sonza
O ranking abaixo considera impacto, importância dentro da carreira, composição, produção e capacidade de representar diferentes fases. Não é uma simples ordenação pelos streams, até porque números contam popularidade, enquanto uma trajetória também depende de escolhas artísticas.
1. “Penhasco”
A música que mudou a percepção sobre Luísa como compositora. A produção abre espaço para a voz, enquanto a letra transforma uma separação em imagem física de queda. Sua força está na exposição sem o excesso visual que costuma acompanhar a cantora.
2. “Sagrado Profano”, com KayBlack
Uma das melhores sínteses de sua dualidade. A faixa aproxima pop e trap, desejo e culpa, espiritualidade e sensualidade. Com mais de 209 milhões de streams contabilizados no Spotify até julho de 2026, também se tornou um de seus maiores sucessos como artista principal.
3. “Braba”
A faixa consolidou a persona dominante, dançante e provocadora que marcou o início da década. O refrão direto e a produção funcional fazem dela um exemplo preciso de música construída para pista, vídeo curto e grande palco.
4. “Modo Turbo”, com Anitta e Pabllo Vittar
Três das maiores figuras do pop brasileiro em uma produção que abraça o excesso. A música vale menos pela profundidade lírica e mais pela capacidade de transformar colaboração em evento. O resultado supera 207 milhões de streams no Spotify.
5. “Chico”
A bossa-pop de “Escândalo Íntimo” mostrou que Luísa podia liderar as plataformas com uma canção delicada, sem depender de batidas pesadas. O contexto amoroso mudou rapidamente, mas a música permaneceu como registro de um sentimento verdadeiro no momento em que foi escrita.
6. “A Dona Aranha”
Uma cantiga infantil é retorcida até virar pop teatral, sensual e ligeiramente perturbador. A faixa traduz bem o gosto da cantora pela apropriação de símbolos conhecidos e pela criação de imagens que circulam além da música.
7. “Telefone”
Um dos destaques de “Brutal Paraíso”, a música trabalha urgência, comunicação e desgaste emocional em uma estrutura curta. Sua estreia foi a mais forte do álbum no Spotify Brasil, alcançando inicialmente a 11ª posição.
8. “Garupa”, com Pabllo Vittar
A parceria ajudou a definir “Pandora” e marcou a passagem entre a cantora revelada pelos covers e a artista inserida no centro do pop nacional. É uma faixa de transição, mas também um registro importante da expansão de sua identidade.
9. “Boa Menina”
A música estabeleceu uma das primeiras personagens recorrentes da discografia: a mulher que rejeita a expectativa de comportamento dócil. Hoje, a produção soa ligada àquele momento do pop brasileiro, mas a canção ainda funciona como documento da formação de sua persona.
10. “Um Pouco de Mim”, com Roberto Menescal
A única composição inédita do núcleo original de “Bossa Sempre Nova” merece espaço por apontar outra possibilidade para Luísa. Em vez de apenas interpretar standards, ela escreve dentro da linguagem do projeto e testa uma delicadeza diferente daquela de suas baladas pop.
Faixas como “Cachorrinhas”, “Hotel Caro”, “Dona de Mim”, “Melhor Sozinha”, “Campo de Morango” e “Combatchy” poderiam facilmente aparecer em outra versão da lista. Essa abundância já diz bastante sobre o catálogo.
Os Próximos Shows Antes e Depois do Rock in Rio
A agenda divulgada até o início de agosto inclui apresentações no Festival da Juventude, no Amapá, em 15 de agosto; e no Na Praia, em Brasília, no dia 29. Depois do Rock in Rio, a turnê tem compromissos anunciados em Curitiba, Goiânia, Londrina e Porto Alegre. Datas e locais ainda podem sofrer alterações.
Luísa Sonza chega ao Rock in Rio em um momento particularmente interessante. Já não precisa provar que consegue produzir hits, dominar plataformas ou montar um espetáculo de grande porte. Seu novo desafio é mostrar que a variedade não depende apenas de trocar de gênero, figurino ou colaborador.
A artista mais completa aparece quando essas escolhas revelam um ponto de vista. O show de 7 de setembro pode funcionar como um resumo dessa construção: do baile do interior ao Palco Mundo, dos covers à autoria, do funk à bossa nova. Uma trajetória cheia de contradições e muito pop nasce exatamente daí.
Imagem Destacada: Reprodução/Instagram (@LuisaSonza)


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