A origem de um império quase perfeito

Se o propósito de “Fome de Poder” era levar para as telas a história sobre o início da rede de fast-food mais popular do mundo, conseguiu. No entanto, falhou pelo seu conteúdo e relevância aos acontecimentos. Sabemos muito bem da dificuldade que existe em transformar momentos históricos em um produto audiovisual, ainda mais quando é preciso encaixar tudo em uma reprodução de 120 minutos de duração.

Dirigido por John Lee Hancock, o mesmo de “Malévola” (2014), agarrando o slogan “Amo muito tudo isso” e tentando convencer o espectador de que ele está assistindo a origem de uma marca. Deixando de lado a importância sobre as pessoas que fizeram parte do processo.

Michael Keaton (“Spotlight” e “Birdman”) é Ray Kroc, um vendedor pequeno de bugigangas para estabelecimentos comerciais. Tão rápido quanto o atendimento em um drive-in qualquer, a história se desenvolve sem maiores explicações. Com 30 minutos de filme Ray conheceu os irmãos Dick (Nick Offerman) e Mac McDonalds (John Carroll Lynch), começaram a trabalhar em parceria e já estão com divergências de atitudes quanto ao prosseguimento do negócio

É difícil negar que a narrativa é interessante apenas pela forma como a atuação de Keaton envolve, mas isso já era esperado devido a qualidade que ele normalmente acrescenta em suas atuações. O roteiro, assinado por Robert Siegel (Turbo), não o ajuda e abusa do conceito onipresente do Deus Ex-Machina, presente mais de uma vez durante o filme. O maior problema da escolha por juntar tantos pequenos acontecimentos na trama, é que no final eles acabam passando despercebido, devido a rapidez e irrelevância para o prosseguimento da narrativa. Ignorar uma estrutura narrativa consistente pode ser crucial para que o espectador não interprete da maneira correta os fatos relevantes da história, deixando a experiência menos satisfatória ao final do filme.

É necessário pensar um pouco para perceber exatamente qual foi a história desejada a ser contada por Hancock, sem focar em nenhuma delas tudo parece confuso e superficial. Desde o casamento com sua esposa Ethel (Laura Dern), no qual ela sofre pela constante ausência e desinteresse do marido, a maneira como tantos outros personagens importantes para a construção do império de Kroc são usados sem a menor coerência, chegando ao ponto de esquecermos quem eles são. Fica claro a necessidade por um aprofundamento maior nestes relacionamentos, que parecem ter sido arrancados gratuitamente.

Talvez alguns destes problemas na estrutura narrativa do filme façam sentido quando percebemos quem realmente foi Ray Kroc. Um homem com ganância e objetivos definidos. A partir do primeiro plano do filme, nos deparamos com um personagem singular, que tem um discurso forte e certo do que deseja, mas para por aí. Não são os bons enquadramentos quando Keaton está em ação que salvam o resto da obra, pois a distância na interpretação dele para os personagens coadjuvantes é enorme. O uso da fotografia como elemento que pode ser o diferencial em casos como este, aqui não funciona, apenas em cenas muito específicas ela é aproveitada, mas durante pouco tempo.

Frente a tantas questões que tornam “Fome de Poder” uma produção fraca no geral, pontos positivos são encontrados na ambientação da época em que tudo acontece. Década de 1950, e o life style  norte americano é bem representado no figurino, locação e principalmente na trilha sonora que acompanha a história. Diegética ou não, ela é contemporânea à época e deixa o clima com mais credibilidade. Certamente, boa parte orçamento, cerca de 25 milhões de dólares, foram usados nas produções de arte e figurino.

A imagem final é de um momento histórico que até hoje está presente no nosso dia a dia, deixa como reflexão final a forma como Ray tratou, com o seu olhar visionário, sobre o que gostaria que a rede se tornasse. A sua visão capitalista em relação ao mercado e a forma como os negócios deveriam ser controlados. Ele é o vilão da história? O capitalismo é? Se existe uma crítica sobre todas estas questões, elas não são maiores do que a própria história de como tudo aconteceu.

“Fome de Poder” não será um filme a ser lembrado por sua qualidade cinematográfica, talvez seja apenas por sua relação com a origem do McDonalds, e embora com tantos problemas mencionados, é possível se divertir assistindo o filme, mas se deixarmos o olhar crítico um pouco de lado. Ele ainda pode levar algum prazer ao espectador, mesmo que momentâneo.


Por Guilherme Santos


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