O amargor que faltava

Depois do sucesso de “Deadpool”, lançado em janeiro de 2016 com uma classificação de 18 anos, que trazia o mercenário tagarela detonando bandidos sem piedade nenhuma e com uma acidez digna do anti-herói, a “Fox” percebeu que era necessário dar uma chance para histórias mais inteligentes envolvendo os paladinos produzidos por ela para o cinema. O grandioso desastre que foi “X-men – Apocalipse”, pisoteado pela crítica especializada e por grande parte do público, que considerou a história fraca e longe do que era esperado, acabou ajudando ainda mais para que mudanças radicais acontecessem, dando força para empresa que decidiu de vez aprofundar no teor dramático existente por trás das personagens. Uma atitude aguardada há anos pelos fãs de histórias em quadrinhos, uma vez que muitas dessas traziam mais realidade em seu contexto diferenciando bastante do suposto “conto de fadas” colorido que vinha sendo retratado nas telonas.

O novo resultado dessa audaciosa empreitada chegou hoje aos cinemas brasileiros com o título de “Logan”. O filme traz a “última” (ainda acho que ele pode voltar colocar as garras) participação de Hugh Jackman como Wolverine, em uma história densa que nos revela um futuro pós-apocalíptico em 2029, logo após os acontecimentos de “X-Men: Dias de Um Futuro Esquecido”. Inspirado na espetacular “Velho Logan”, série de quadrinhos criada por Mark Millar e ilustrada por Steve McNiven, o enredo traz Logan Charles Xavier como os últimos e sobrepujados membros da força descomunal que um dia fora os “X-men”. Totalmente debilitados, ambos se protegem no meio do deserto em uma casa velha abandonada e um tanque de ferro reforçado que ajuda evitar com que Xavier se comunique telepaticamente com o mundo. Escondido com eles se encontra Caliban, que na situação é o responsável por ajudar a cuidar do professor. Em meio a uma vida “quase normal”, em que Logan trabalha como motorista de limousine para sustentar a todos, eles se deparam com Laura (que futuramente será conhecida por “X-23”), uma mutante com um poder bastante similar ao de Wolverine. A partir desse encontro, uma confusão é generalizada com diversos caçadores que estão em busca da criança. É então que Logan percebe que eles precisam sair do abrigo para poderem proteger tanto a garota quanto eles mesmos.

Com uma produção grandiosa, riquíssima em sua parte técnica, somos surpreendidos com um trabalho bem constituído, no qual os profissionais souberam dosar de forma minimalista os efeitos utilizados, fornecendo um ar mais realista à todas as cenas. Diferente de muitos filmes blockbuster, a obra se mantém firme em todos os aspectos, não se perdendo nem mesmo em seus erros de continuidade, o que faz com essa caia ainda mais no gosto popular. Apoiada em um simplicidade ímpar, abusando mais da seriedade, o que encontramos é um produto que não precisa fazer uso desnecessário da tecnologia e outros recursos para conseguir valorizar, aos olhos do público comum, sua história.

Embora contenha certos detalhes e indicações que referencia bastante a obra escrita por Mark Millar, principalmente em relação ao estilo nostálgico desenvolvido por esse, o filme não chega a ser exclusivamente baseado em nenhuma história específica contata anteriormente nas “HQs”. Como tiveram que se limitar quanto ao uso de outros personagens da Marvel, devido aos direitos de adaptação, os roteiristas Scott Frank (“Minority Reporter”), James Mangold (“Cop Land” e “Johnny e June”) e Michael Green (“Lanterna Verde” e “Blade Runner 2049”), conduziram uma história mais fechada, com uma estrutura impecável, construída através de uma narrativa repleta de signos. Os diálogos, capazes de fazer qualquer fã se emocionar, são o ponto alto do filme que opta por embarcar em uma atmosfera mais sombria, sem ao menos precisar apelar para uma fotografia carregada. A cada circunstância exposta, pela primeira vez, no que diz respeito a adaptações de heróis para o cinema, existe uma maior aproximação do espectador com o lado humano da personagem. Com uma dramaticidade muito bem incorporada, sem tempo para o exagero proposto pelo melodrama, somos apresentados ao que existe além do “alter ego” do “mocinho”, um trabalho feito com inteligência e bastante coerência.

James Mangold também assina a direção do filme, nos mostrando bastante competência em sua decupagem de direção para um filme violento e impactante. Embora tenha poucos bons trabalhos em seu currículo, o diretor sabe muito bem lidar com o teor psicológico necessário no cinema. Foi ele que dirigiu e ajudou arrancar de Angelina Jolie a atuação brilhante que lhe rendeu o Oscar por “Garota Interrompida” e repetiu o feito quando transformou Reese Whiterspoon em June Carter, cantora que teve uma relação conturbada com Johnny Cash. O equilíbrio perfeito entre os enquadramentos em grande plano, responsáveis por ambientar as diferentes locações em que a história se passa e situar determinados acontecimentos, e os planos mais fechados que denunciam a exaustão das personagens principais, dialoga claramente com o público. Não é difícil imaginar diferentes finais no decorrer da trama, algo possibilitado pela direção ritmada a partir de planos e ângulos sensacionais trabalhados juntamente com a fotografia.

Nesse ponto, John Mathieson acaba empolgando por não deixar a produção cair no mais do mesmo. Os artifícios umbrosos, copiosamente usado para criar um clima mais pesado, depressivo, aqui é descartado de primeira. O profissional, que foi responsável pelo belíssimo trabalho de “Gladiador” e o estilo “retrô” de “X-men – Primeira Classe”, prioriza um ambiente mais visceral para a despedida de Wolverine. A escolha por paletas que mesclam o amarelo e o laranja, viabilizam ares quentes e a temperatura elevada de algumas locações propícia sensações de sufoco e pressão. O contraponto e alívio surgem das inserções em tom azul e sobretons em cinza que fornece uma atmosfera um pouco mais futurista.

O elenco reduzido de atores principais, nos faz prestar mais atenção na natureza de cada persona ali presente e a entrega de cada ator em cena. Boyd Holbrook, o policial que caça Pablo Escobar em “Narcos”, aqui interpreta um outro caçador, Pierce, ou Donald Pierce para quem conhece os quadrinhos. O vilão está atrás de Laura e cai como uma luva para história. Holdbrook desenvolve o papel de forma bem elaborada e com total segurança de seu jogo. É possível enxergarmos a maldade em seu olhar, mas o mais impressionante é que o ator ampliou a força da personagem, propondo um charme que valoriza e muito seus momentos em tela. A novata Dafne Keen, dá vida a Laura (Laura Kinney ou X-23), uma foragida de um laboratório de experiências com mutantes. Mesmo jovem no mundo dos cinemas, a atriz oferece um trabalho infinitamente superior a muitos outros que viveram heróis nas telonas. Seu trabalho é ponderado, sustentado por uma atuação expressiva e totalmente corporal. Patrick Stewart, mais uma vez encara o papel do professor Charles Xavier. Dessa vez o ator abraça o seu melhor contexto para personagem e apresenta uma performance consistente, verossímel e avassaladora. Seu desempenho como um senil, entregue as perturbações do Alzheimer, é tão convincente que nos envolve a cada instante. Acima de seu espetáculo temos somente Hugh Jackman, que nos entrega o que talvez seja um dos melhores (quiça o melhor) desempenho de sua carreira. Com uma expressão sofrível no rosto e outras características espalhadas por uma composição corporal contundente, o ator nos proporciona com sabedoria um homem cansado e arrebatado pelo alcoolismo. Se os festivais abrirem as portas (e os olhos) para produções do tipo, temos aqui uma representação digna de prêmios. 

O designer de produção, criado por François Audouy (“Drácula- Untold”), e o trabalho aperfeiçoado por toda equipe de arte e o figurino de Daniel Orlandi (“Um sonho Possível” e “Jurassic World”), acaba também sendo um diferencial para produção. Arquitetado através de detalhes minuciosos, que dão uma perspectiva de acabado em quase todo o cenário, criando um contraponto entre o abandonado e a riqueza do futuro, somos lançados em uma sociedade ainda mais dividida por seus interesses. Os tons pastéis e branco, com toques em cinza e preto, escolhidos pelo figurinista, completam o serviço ao oferecer com destreza uma impressão semelhante.

A trilha sonora modorrenta de Marco Beltrami, responsável por “Pânico” e “Exterminador do futuro 3”, criada a partir de um piano melancólico, carrega durante toda produção o tom saudosista que adquirimos desde a primeira sequência do filme. Sem falar no fechamento espetacular com a canção “Hurt” de Johnny Cash.

No geral, além dos projetos produzidos pela “Fox”, que detém dos direitos de alguns produtos “Marvel”, outras empresas sofrem com esse receio de mergulhar em certas características psicológicas de seus personagens. A própria “Marvel”, depois que percebeu a rentabilidade que o cinema pode trazer, hoje possui o seu estúdio particular e se envolve em boas produções, mas peca bastante em não aproveitar detalhes de seu universo que mereciam ser adaptados para o cinema. Já a “DC Comics”, também proprietária de um arsenal de personagens, a partir de uma antiga parceria com a Warner, vive tentando descobrir o seu próprio caminho no cinema. Entre todas produções realizadas com a marca, podemos destacar somente a fabulosa e sombria trilogia criada por Christopher Nolan (foi a que chegou mais perto de mostrar o lado “dark” do super-herói) e o recente “Batman – Lego”, que nos divertiu com uma sátira muito bem realizada sobre o morcegão. Além desses, fomos praticamente bombardeados pelo o bizarro (e recente ganhador do Oscar de melhor maquiagem) “Esquadrão Suicida” e o bom, porém repetitivo, “Batman vs Superman” que, infelizmente, abocanhou a alcunha de pior filme do ano no “Framboesa de Ouro”.

“Logan” vai além de um filme de super-heróis. Trata-se de um road-movie moderno, com um aspecto western, que nos proporciona uma emocionante e amarga jornada pelas estradas americanas, bem como uma das melhores histórias produzidas sobre o universo “Marvel”, até o momento pelo menos. É um filme para ver, rever e chorar infinitas vezes.


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Daniel Gravelli

Daniel Gravelli é um brazuca que parle français e roda uns filmes por aí. Apaixonado pelos universos da escrita e da atuação, tem um caso com o teatro e morre de amores pelo cinema. Fotógrafo e crítico nas horas vagas, gosta de cozinhar, apreciar um bom vinho e trocar ideias interessantes.

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