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CríticaFilmes

Crítica: Cartas Para Um Ladrão de Livros

Avatar de Rita Constantino
Rita Constantino
24 de fevereiro de 2018 3 Mins Read

Cartas Para Um Ladrão de Livros posterNa sala de segurança do Museu Nacional a foto de um homem na parede avisa: “Atenção vigilantes de plantão – Laéssio Rodrigues de Oliveira, procurado por roubo de livros na biblioteca de São Paulo e no Rio de Janeiro”.  O bibliotecário, indignado, reforça: “não vale nem a pena citar esse cidadão” .

Para ele, o rosto no retrato não passa de um criminoso, um vigarista que lucra às custas do passado. O que ele não sabe, porém, é que seu bandido nasceu no Piauí, é obcecado por Carmen Miranda e se diverte em abandonar malas carregadas com garrafas de urina na rodoviária do Tietê. Ou melhor, talvez agora saiba, já que a origem de seus pesadelos é o objeto de estudo de “Cartas Para um Ladrão de Livros”, documentário curioso concebido pelos jornalistas Carlos Juliano Barros e Caio Cavechini, que ao mesmo tempo em que tenta desvendar essa figura singular traça uma reflexão sobre a mercantilização de patrimônios que deveriam pertencer ao coletivo.

Para quem acompanha os noticiários, o nome de Laéssio Rodrigues dispensa apresentações: desde 2003 envolvido em roubo de itens raros, o homem, que tem um número considerável de passagens pela polícia, já pilhou milhões de reais dos acervos das principais instituições culturais do Brasil. Museu Nacional, Biblioteca Mario de Andrade, Museu Histórico Nacional, Fundação Oswaldo Cruz e até o Palácio do Itamaraty já foram desfalcados por ele.

Sua infâmia chamou a atenção dos realizadores, em especial a de Barros que, através de cartas à penitenciária, propôs ao comerciante que sua trajetória fosse contada através de um filme. Recebendo uma resposta positiva, a equipe, por cinco anos, seguiu seus passos entre idas e vindas com a Justiça, tentando entender quais os motivos o levaram ele a esse tipo de prática e seus efeitos colaterais.Cartas Para Um Ladrão de Livros

 “Não tenho qualquer juízo de valor formado a seu respeito. Não o considero um criminoso frio e calculista, nem um pobre coitado injustiçado, mas garanto que muita gente gostaria de conhecer sua caminhada”, o cineasta explica em uma de suas primeiras correspondências a seu personagem.  É uma afirmação feita no início do contato entre eles, mas que desde cedo delimita a honestidade do projeto.

Cuidadosos para não cair no romantismo – mesmo que Laéssio ache que possa ser glamourizado como foi Al Capone -, Carlos Juliano Barros e Caio Cavechini são bem-sucedidos em apresentar o indivíduo que existe por trás do crime. Seja por benefício do tempo de produção, seja pela abordagem, vemos a humanidade no “ladrão de livros”, seu carisma, fragilidade e contradições. Se em um momento o vemos falar do carinho que desenvolveu por alguns amigos de prisão, em outro testemunhamos sua irritação em estar rodeado de uma “cáfila de cretinos e analfabetos”. No roubo sua moral também aparece torcida, enquanto acha que está fazendo um favor ao tirar obras raras de depósitos mofados das bibliotecas, cria sua própria forma de enganar ladrões, por prazer, ao deixar malas cheias de garrafa com urina em locais públicos.

A franqueza também está na forma como a dupla mostra os desafios de  lidar com material em mãos. Transparente, Barros não só deixa clara a proximidade que desenvolveu com o criminoso, como também é consciente ao falar sobre as polêmicas que o próprio filme se envolveu já que a verba captada para sua produção veio através de renúncia fiscal prevista na Lei do Audiovisual, logo sua responsabilidade ao tratar do assunto.

Assim, por mais que em uma primeira camada do projeto, como o diretor em um instante aponta, seja sobre mais sobre Laéssio do que sobre “livros e crimes”, é prestigioso como ele faz um panorama do mercado ilegal de obras de arte, estrutura que se sustenta desde a carência do estado para a preservação e segurança do arquivo histórico a um fetiche de uma porcentagem endinheirada da população que quer ter para si itens que pertencem a toda uma sociedade.

Às vezes mais didático e cauteloso do que o necessário – vide a situação em que ele troca a palavra “crimes”, por ”peripécias” –, “Cartas Para um Ladrão de Livros” é afinado na sua discussão. Pode-se condenar as atividades de Laéssio, mas falar sobre elas importante para entender a forma como lidamos com nossa própria cultura, quem sabe assim todo o “povão”, como ele mesmo diz, venha a saber quem é Debret e Barleus.

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Rita Constantino

1995. Cobra criada em Volta Redonda. Um dia acordou e queria ser jornalista, não sabia onde estava se metendo. Hoje em dia quer falar sobre os filmes que vê e, se ficar sabendo, ajudar o Truffaut a descobrir com que sonham os críticos.

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