Crítica: Eu matei minha mãe

Édipo às avessas

“Talvez sua mãe não tenha sido feita para ter um filho.”

Esta frase, dita ao adolescente Hubert (Xavier Dolan) por sua professora Julie (Suzanne Clément), pode ou não corresponder à realidade da personagem citada, mas levanta uma ótima discussão.

Hubert vive em eterno conflito com sua mãe, Chantal (Anne Dorval). Ambos tinham um bom relacionamento quando ele era criança, mas depois tudo mudou. Para o adolescente, sua mãe casou e teve filho apenas porque era isso que se esperava dela. A raiva que se sente por Chantal é tanta que ele chega ao ponto de mentir na escola dizendo que ela havia morrido (daí o título do filme).

A obra tem vários aspectos positivos do ponto de vista estético. Não fosse por isso, seria uma sequência de brigas homéricas entre mãe e filho. A histeria de Hubert chega a ser irritante e cansativa. “Eu matei minha mãe” é o longa de estreia de Xavier Dolan como diretor – ele também assina a produção e o roteiro, escrito aos 16 anos e em parte autobiográfico, como ele mesmo admitiu.

As atuações que merecem destaque são de Anne Dorval (Chantal) e Patricia Tulasne (Helène). Esta última interpreta a mãe do namorado do protagonista e é o extremo oposto de Chantal: liberal, moderna e bem resolvida, tanto em relação à própria sexualidade quanto à sexualidade do filho. Já Chantal irrita Hubert por suas atitudes manipuladoras, seu mau gosto ao vestir-se, seu comportamento de “mater dolorosa” (inclusive retratado literalmente quando ela aparece como uma santa que verte lágrimas de sangue). Anne Dorval brilha na interpretação por dosar bem momentos de contenção e de histeria, chegando a ser cômica ao adentrar ambientes apontando o dedo de forma dramática. A cena em que conversa ao telefone com o diretor do colégio interno de onde Hubert foge é capaz de lavar a alma de qualquer mãe que se desdobra para criar um filho sozinha e, ainda assim, é criticada por quem mal a conhece.O figurino desta personagem também merece atenção especial por retratar perfeitamente o gosto kitsch de Chantal que tanto irrita Hubert. O close na boca da mãe, enquanto ela mastiga e se suja ao comer, é filmado em câmera lenta e alternado com o close dos olhos do filho, mostrando bem a irritação que ele sente. Aliás, o enquadramento da cena em que ambos jantam – com cada personagem em um canto do quadro – é ótimo para representar a separação que existe entre os dois, mesmo estando juntos à mesma mesa.

Xavier Dolan faz bom uso de recursos como câmera lenta e o contraponto com a mais nervosa; eles ilustram os sentimentos do protagonista, assim como o que se passa em sua mente. Também interessante é a inserção – em preto e branco – de depoimentos que o adolescente grava sobre sua mãe. Essas imagens contrastam com as de uma infância feliz e colorida que ficou no passado. A trilha sonora também tem presença importante, destacando-se a música “Noir désir”, com o duo de eletropop belga Vive La Fête, na cena em que Hubert e seu namorado fazem arte – e sexo – à la Jackson Pollock.

Apesar do tom histérico em boa parte das falas do filme, isso não parece ter prejudicado sua recepção pela crítica e pelo público: foi aclamado em Cannes, recebeu vários prêmios e foi o candidato canadense ao Oscar de melhor filme estrangeiro em 2010. Certamente é um filme para ser visto e apreciado – mas recomenda-se manter o volume baixo.


Neuza Rodrigues

Crítica: Eu matei minha mãe
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