O verdadeiro amigo da vizinhança

Depois de seis aparições de Peter Parker como Homem-Aranha nos cinemas – sendo dessas, cinco que levam o nome do aracnídeo no título – o herói criado na década de 40, por Stan Lee e Steve Ditko para Marvel Comics, enfim ganha uma versão live action que realmente faz jus ao personagem e tem tudo para agradar tanto os verdadeiros fãs quanto o restante do público, interessado em ir aos cinemas curtir um bom filme.

O herói surgiu mesmo foi em 1960 nos quadrinhos, época qual era raro encontrar um adolescente como protagonista em séries de HQ. Feito que abriu uma janela importante para o mercado, introduzindo assuntos como solidão, bullying e primeiro amor – emoções que acometem quase todos os jovens do mundo. Depois disso, o cabeça de teia tornou-se um estrondoso sucesso, ganhando diferentes histórias, animações, jogos e produções cinematográficas grandiosas, sendo que uma delas (“Homem-Aranha” de 2002, dirigido por Sam Raimi) funcionou como uma confirmação para que os estúdios de cinema abrissem os olhos (leia-se: cofres) e se interessassem ainda em investimentos que envolvessem possíveis adaptações desse universo fantástico dos quadrinhos, que fizeram da Marvel Comics e DC Comics duas gigantes do seguimento.

De lá para cá, muitas foram as produções tiradas do papel e transformadas em filmes. Entretanto, foram poucas que realmente funcionaram em todos os seus aspectos. Enquanto tivemos uma boa continuação para o “Homem Aranha” (Também dirigida por Sam Raimi em 2004); a espectacular trilogia “Cavaleiro da Trevas” de Christopher Nolan; alguns filmes que marcaram o início do universo extendido Marvel, como: “Homem de Ferro”, “Capitão América – Soldado Invernal” e “Vingadores”; e os surpreendentes “Deadpool”, “Logan” e “Mulher Maravilha”; também fomos soterrados de promessas preguiçosas que mereciam mais atenção. Contudo, parece que os estúdios entenderam melhor as reações do público e passaram a dar essa atenção quanto ao conteúdo apresentado. Grandes exemplos disso são os três últimos filmes citados acima, em especial o da “Mulher Maravilha” que marcou o retorno da DC aos grandes filmes do gênero (É importante deixar claro que, embora muitos o tenham massacrado, “Batman Vs Superman – A Origem da Justiça” também tem seus méritos, mas falha em vários quesitos), e o novo “Homem Aranha – De volta ao lar” que estreia amanhã nos cinemas de todo Brasil.

O “amigo da vizinhança” está de volta, sem apelar para o mais do mesmo das últimas produções. Trata-se realmente de um recomeço, no qual somos apresentados a um Peter Parker mais jovem e uma história mais moderna, que coloca o herói com os dois pés fincados no chão para um pontapé sensacional e extremamente revigorante. A trama começa após a destruição que devastou Manhattan no primeiro “Vingadores”, mostrando a vida, o trabalho e as desilusões de Adrian Toomes – o qual mais tarde viria a ser reconhecido como o “Abutre”. Somente depois temos a entrada de Parker, completamente antenado com a realidade virtual, registrando no celular os detalhes de sua aventura com Tony Stark (o Homem de Ferro) na agitada Berlim durante os eventos de “Capitão América – Guerra Civil”. É interessante acompanhar essa reconstrução e o desenrolar a partir daí, o qual nos revela o dia a dia do adolescente, seu convívio com uma nova versão da famosa “Tia May” e suas peripécias tentando combater as vilanias que aparecem na cidade. Todavia, durante suas aventuras, ele se depara com uma verdadeira ameaça e, com isso, precisará aprender a lidar com suas inseguranças, ansiedades e a responsabilidade que bate cada vez mais na porta.

Com um estilo bastante convencional e realista, o filme nos entrega um trabalho sincero ao mesmo tempo que arrebatador. Durante a projeção, encontramos tudo o que estávamos esperando em uma adaptação do Aranha. Envolvendo nomes de peso, como Avi Arad (Trilogias “Homem Aranha” e “X-Men”), Kevin Feige (“Homem de Ferro” e “Guardiões da Galáxia”), a produção acerta em cheio no visual das locações, desenvolvimento de cenários e nos efeitos críveis. São poucos os momentos que encontramos um ou outro problema. Já os erros de continuidade, esses já são convidados especiais em blockbusters.

Escrito a seis mãos, o roteiro traz tudo na medida certa. Desde os personagens muito bem construídos, aos diálogos interessantes, o nível correto de dramaticidade para contar uma história do tipo e os alívios cômicos necessários para engrandecer ainda mais o enredo. Até os clichês utilizados foram inseridos perfeitamente. É importante citar os nomes de Jonathan Goldstein (“Quero matar meu chefe”), John Francis Daley (“Férias Frustadas”), Jon Watts (“A Viatura”), Christopher Ford (“Frank e o Robô”), Chris McKenna (“Lego Batman”) e Erik Sommers (“Community”) que, como roteiristas, souberam tratar com segurança a humanidade por trás de um universo fantástico, sem precisar exagerar nas tensões e/ou histórias de vida, deixando tudo o mais verossímil possível. Sem falar das inúmeras referências incluídas sobre o próprio universo Marvel (aguardem alguns easter-eggs interessantes), a franquia “Star Wars” e o clássico “Curtindo a vida adoidado” que, sem nenhuma dúvida, foi usado como inspiração em alguns momentos.

A direção do pouco experiente Jon Watts, é segura e convincente. Ele consegue passar para o público a corriqueira vida de um adolescente comum, suas frustrações e receios, balanceando com inteligência as descobertas, desejos e determinações de alguém que – do dia para noite – torna-se extraordinário. E o mais bacana é que o diretor, diferente de muitos outros que já estão no mercado, consegue dialogar tudo isso ao utilizar enquadramentos e angulações certas, que definem muito bem o contraponto do emocional e psicológico vivido pelo protagonista. E o melhor de tudo é que ele faz com maestria, não perdendo o timing em nenhum momento, mantendo a ação e diversão em alta até o final.

O ótimo Salvatore Totino (“Um domingo qualquer” e “Um homem entre gigantes”) é o responsável por uma direção de fotografia que deixa tudo para cima, que nos faz reviver alguns momentos de nossa adolescência com sorriso no rosto. Com uma paleta de cores vívida, Totino conecta o Aranha não só ao universo Marvel, mas retrata com fidelidade a atmosfera que criada para para os quadrinhos. O trabalho do departamento de arte, bem como o figurino de Louise Frogley (“O Voo” e “Um estado de liberdade”), seguem o mesmo caminho e apresentam algo mais jovial, contemporâneo.

Tom Holland encabeça o elenco do filme, que traz alguns outros atores conhecidos do público como Robert Downey Jr., Marisa Tomei e Jon Favreau, e acaba nos surpreendendo com uma construção da personagem bem estruturada e uma atuação “simpática” que acaba nos conquistando no decorrer do filme. Downey Jr. Volta a pele do Iron Man para viver uma espécie de mentor de Peter Parker, uma presença paterna que ajuda a fazer a ponte para conexão com o universo extendido da Marvel. Embora o Homem-Aranha nunca teve um verdadeiro mentor, a ideia até que funciona bem. Marisa Tomei está ótima ao dar vida a uma tia May diferente, que foge do estereótipo já usado nos cinemas e na maior parte dos quadrinhos. Contudo, essa jovialidade não é incomum nas hqs do herói e torna-se uma boa sacada aqui, uma vez que ela pode ir envelhecendo com as continuações. Já Favreau volta a encarar o ranzinza Happy Hogan com perfeição. Não menos importante, os coadjuvantes Jacob Batalon (Ned), Zendaya (Michelle) e Laura Harrier (Liz), também desempenham um bom trabalho aqui. Entretanto, a grande diferença no elenco é a participação de Michael Keaton como Adrian Toomes, vulgo Abutre. O ator entrega uma interpretação dosada, com um psicológico bem desenvolvido e tem tudo para ser reutilizado pela Marvel nos próximos filmes.

Para finalizar, não podemos nos esquecer da excelente trilha sonora de Michael Giacchino – o mesmo por traz das inesquecíveis trilhas da série “Lost” e o filme “Rogue One – Uma história Star Wars”. Além da repaginada dada a clássica música das séries de tv, o compositor criou um clima que engrandece com as descobertas e aflorar de emoções da personagem, deixando tudo ainda mais instigante.

Muitos ficaram com medo da presença de Tony Stark estragar o filme, mas os responsáveis pela produção souberam tratar isso de forma adequada e fizeram de “Homem Aranha – De Volta ao lar” um dos grandes lançamentos desse ano. Se a sua intenção é se divertir e aproveitar um conteúdo de primeira, que não abusa da sua inteligência, essa é uma ótima pedida.


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Daniel Gravelli

Daniel Gravelli é um brazuca que parle français e roda uns filmes por aí. Apaixonado pelos universos da escrita e da atuação, tem um caso com o teatro e morre de amores pelo cinema. Fotógrafo e crítico nas horas vagas, gosta de cozinhar, apreciar um bom vinho e trocar ideias interessantes.

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2 thoughts on “Crítica: Homem Aranha – De Volta ao Lar

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