Crítica: I Am Mother

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A nova produção original da Netflix, “I Am Mother”, se inicia situada em um futuro distópico onde a humanidade se destruiu, restando apenas um robô com o propósito de repopular a Terra e mais de 60 mil embriões humanos. A ficção científica apresenta a personagem título da trama, que ganha forma de um android (voz de Rose Byrne) e gera em um útero artificial uma criança. Ela cuida e educa a menina (interpretada por Clara Rugaard-Larsen) até a sua adolescência, quando a mesma começa a questionar certos valores de ética ensinados por sua mãe-robô, e tudo se agrava com a chegada de uma mulher (Hilary Swank), colocando em dúvida tudo o que a menina conhecia até então e a veracidade das palavras da “mãe”.

A direção de Grant Sputore é cirúrgica em colocar o espectador no lugar da adolescente. Obviamente, devido ao comportamento típico da idade da personagem, o expectador se percebe curioso sobre o mundo externo ao bunker  (onde a garota é confinada) sendo inserido em um cenário frio e claustrofóbico. Mérito atribuído também à direção de fotografia de Steve Annis, que agrava a sensação com a inserção dos planos fechados. Sputore também naturaliza com maestria a relação entre as personagens principais, fazendo a quem assiste acreditar na “mãe” assim como a filha acredita, sensação essa que só é quebrada com a introdução do terceiro personagem. E a atuação impecável de Swank provoca, na medida certa, as dúvidas essenciais para o seguimento do roteiro e também promove uma humanização em contraste com a perfeição cibernética apresentada desde o início do filme.

A estrutura criada pelo roteirista Michael Lloyd Green se assemelha ao “Mito da Caverna de Platão”. Mito esse que já foi explorado em diversas outras produções cinematográficas como por exemplo em “O Show de Truman”, onde todas as condições em que personagem principal está inserido o faz acreditar que sua vida é legítima quando não passa de uma projeção simbólica da realidade.

O roteiro também se mostra preocupado em enfatizar quando a “mãe”, que aparentemente foi programada para comportar todas as qualidades maternas, se mostra fria e mordaz mesmo no momento que tenta ser empática. Expondo que nenhuma inteligência artificial consegue reproduzir os sentimentos de um ser humano em sua totalidade, pois seus mecanismos ultra tecnológicos e meticulosamente desenvolvidos no fim das contas são meramente artificiais.

Então, se engana quem pensa que o longa trata somente da eterna questão ética e moral dos seres humanos e de que se as máquinas portadoras de inteligência artificial também podem ser portadoras de sentimentos válidos. É muito mais delicado. Assim como sugere o título, “I Am Mother” trata da relação materna entre as personagens principais pelo extremo realismo construído, assim como dos desafios e conflitos que surgem no meio desse relacionamento. A sensibilidade é tanta, que o roteiro nos faz crer em vários momentos que eram mãe e filha protagonizando em tela. E não um robô e uma criança gerada em vitro.

Essa percepção é incentivada pelos personagens não possuírem nomes e serem chamados sempre de “mãe” e “filha”, e se referindo a invasora por apenas “ela”. Aproximando as personagens principais e distanciando a terceira das outras duas. Um recurso tão bem encaixado que não gera estranheza no espectador (talvez alguns não tenham se quer notado, nem mesmo após assistir a todo o filme).

“I Am Mother” se difere dos outros filmes do gênero pelo direcionamento pouco explorado e pelo dinamismo criado pelo diretor Sputore que não deixa o longa desacelerar, entregando diversos plot twists que capturam com eficiência a atenção do público. Suas quase duas horas de duração não são cansativas, muito pelo contrário, é fluido pela excelente montagem e ritmo dado a trama. Ritmo esse que se aproxima mais à filmes dramáticos e de suspense do que os de ficção científica, como “Eu, Robô” e “AI: Inteligência Artificial” – nos quais o longa claramente foi inspirado ficando mais claro pelos discursos fomentados-. E mais, a história é ousada em subverter as padrões ficções científicas masculinas inserindo apenas personagens femininos, entregando uma produção profunda sem deixar de lado a ação que o filme pedia. E, o que mais agrada são as resoluções pouco mastigadas, não insultando a inteligência de quem o assiste, permitindo que o espectador tire suas próprias conclusões.

Mas como nada é perfeito, a obra se torna uma experiência angustiante para quem prefere roteiros redondos que respondem, mesmo que de modo latente, todos os questionamentos e mistérios, algo que não ocorre neste caso. “I Am Mother” possui diversos furos no roteiro e mistérios em aberto. Por outro lado, mesmo que pouco provável, este pode ser um artifício para gerar debate e não deixar que o filme caia em esquecimento tão rapidamente. Um método bastante usado, como em “Caixa de Pássaros” e “Um Lugar Silencioso”, se transformando em um desafio para os espectadores mais “conspiracionistas”.

De qualquer maneira, as dúvidas levantadas não conseguem destruir a experiência satisfatória de quem o assiste. Já que até mesmo os efeitos visuais, importantes para filmes sci-fi, são visualmente agradáveis levando em conta o baixo orçamento, provando que é possível fazer algo de qualidade com os recursos possíveis e se tornando mais um acerto da Netflix.


Imagens e Vídeo: Divulgação/Netflix

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