Se por um lado é indescritível a importância do trabalho de Spike Lee em 2018, por outro, sua necessidade revela tristes lados da humanidade. Seu cinema é desde sempre carregado pela luta contra o racismo, contra as desigualdades sociais entre negros e brancos nos EUA e no mundo e, acima de tudo, a favor da democracia e dos direitos humanos. É um dos artistas que assume esse tipo de posicionamento de forma mais assertiva e ácida que há, não fazendo diferente em Infiltrado na Klan.

O longa retrata a insólita trajetória de dois policiais que se infiltram na Klu-Klux-Klan para que possam sabotar as criminosas atividades do grupo por dentro. O curioso reside, ainda, no fato de que um dos homens envolvidos é negro, enquanto o outro é judeu. Aliás, o filme é todo cheio de humor, mesmo em situações nas quais normalmente não entrariam piadas, aliviando o peso dramático da história que é contada, mas sem nunca entregar galhofa ou desmerecer a importância do discurso que aparece em tela. As pautas estão lá, nas falas e ações dos personagens, e se escancarando no prólogo do filme, feito para incomodar o espectador. Isso, no entanto, é um recurso que é utilizado como alerta, como espelho daquilo que foi exibido ao longo da projeção na realidade. Spike Lee faz questão de mostrar como aquela história que ele conta, passada nos anos 70, continua mais próxima e palpável do que se possa imaginar.

Nesse sentido, “Infiltrado na Klan” também apresenta ótima eficiência, na medida em que os figurinos retratam bem os anos em que a trama se passa, seja no estilo ou nas cores. Corroborando para isso, a direção de arte e fotografia não ficam atrás, reproduzindo tonalidades em tela e formatos para objetos e lugares que remetem diretamente a um mundo setentista, mas recriando-o sem apelo nostálgico ou afetivo. Tal qual como já foi mencionado anteriormente, fica explícita a intenção dos realizadores de tratar do passado como algo presente, e é por isso que não vemos uma representação caricata aqui, tudo é muito bem calculado. Certa ambiguidade existente no que tange a representação temporal é muito bem-vinda, já que não é um elemento gratuito e muito menos confuso para o espectador. Em realidade, o que Spike Lee busca a todo momento é responder questionamentos do presente através do passado. E é nesse sentido que é mais bem-sucedido.

Provocativo, necessário, forte e curiosamente bem-humorado, “Infiltrado na Klan” não poderia ter sido lançado em tempos mais convidativos para sua exibição. Sabe inserir ácidas críticas sem demonizar aqueles que parecem já demonizados por sua própria natureza, na mesma medida em que dosa bem o impacto de momentos mais chocantes com momentos mais cotidianos. Daqueles longas que, inclusive, começam em clima leve e que terminam levando parte do público a lágrimas. É um ótimo título dentre as produções que vem correndo os circuitos dos festivais e que, mais recentemente, estreou no circuito comercial. Assistir ao mais novo trabalho de Spike Lee transcende o cinema e pode ser considerado, por tudo aquilo que representa, um ato de resistência.


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Mauro Machado

Ser envolto em camadas de sarcasmo e crises existenciais. Desde 1997 tentando entender o mundo que o cerca,e falhando nisso cada vez mais.

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