Crítica: O Rei do Show

"This is me" (O Rei do Show)
Depois de se tornar um estilo decadente, Hollywood traz novamente um musical

Após os anos dourados em que grandes musicais bem produzidos eram tão populares quanto os filmes de super-heróis, o estilo perdeu espaço nas salas de cinema e a apreciação da grande massa. Apesar disso, Hollywood tem feito tentativas de manter vivo com eficientes produções.

O Rei do Show nos traz um musical em que conta a história de P.T Barnum (Hugh Jackman – de “Logan”), lendário empreendedor em shows de entretenimento. Em um ritmo bastante frenético, somos apresentados a Barnum criança, no século XIX, levando uma vida humilde com seu pai alfaiate. Nas primeiras cenas nosso pequeno protagonista mira Charity (Michelle Williams – de Manchester a Beira Mar), o grande amor de sua vida.

Filha de família rica, Charity sente um carisma instantâneo pelo pequeno Barnum, que encara sem relutar o desafio de conquistar sua amada e seu rigoroso pai. Como vemos na sequência seguinte Jackman levando Michelle pela mão da casa de seus pais com a promessa de fazê-la feliz, percebemos então o mote da trama, a aceitação.

Contrário a ideia de ver sua filha casada com um homem pobre, o pai de Charity se despede do casal com a crença de que uma vida humilde jamais a satisfará. Barnum, em contrapartida não desanima e com o mesmo entusiasmo promete uma vida farta e feliz.

Após duas filhas, o casal ainda se encontra numa vida humilde, mas não infeliz. Porém para nosso personagem a felicidade só seria completa quando conquistasse a aceitação de seu sogro e pudesse dar a sua família tudo o que precisassem. Ele inicia então uma ousada jornada em busca de sucesso, que o leva até a montagem de um espetáculo de excentricidades.

A veloz sequência que narra esse começo, um tanto apressada, mescla o ritmo ao qual o longa propõe e maravilhosas cenas com transições poéticas. Um destaque para o ponto em que vemos Jackman e Michelle dançando por entre os lençóis no varal. A dança, o sincronismo com a movimentação dos lençóis ao vento e a canção nos despertam encantamento típicos de um espetáculo de mágica.

Dividindo opiniões, o singular grupo vai conquistando apreciadores e rivais em busca de sucesso e aceitação. Para um filme que fala de diferenças, ele separa vilões e mocinhos de forma muito linear, tirando a complexidade da questão no mundo real com vilões óbvios.

É notório como a trama faz questão de reunir diferenças e expor preconceitos da época ainda tão atuais. O roteiro emocionante e bem construído de Jenny Bicks (“Sexy and The City”, “Rio 2”) em parceria com o especialista no gênero Bill Condon (“Chicago” e a A Bela e a Fera) reúne elementos fundamentais para uma obra bem sucedida: Canções cativantes, discurso sobre diversidade, romances impossíveis, lirismo e o argumento de que nada é inalcançável.

Um dos grandes méritos do longa está nas envolventes canções, o que não é de se admirar, já que Justin Paul e Benj Pasek (“Trolls” e “La La Land”) estão a frente das composições. A dupla ganhadora de Oscar captura toda emoção da trama e consegue agregar as canções de forma complementar sem ejetar o espectador da cena. Destaque para a canção “This is Me” interpretada por Keala Settle, na pele da carismática mulher barbada. Além propor um ótimo trabalho, ainda dá vida a canção chave do filme.

O design de produção é outro ponto forte no longa, que consegue nos transportar para o glamour do século XIX e toda a magia circense. Visualmente também há grande contribuição do experiente Seamus McGarvey (“O Solista”), que faz nos traz uma bela fotografia, contribuindo para a sedução do show.

Para fazer da obra ainda mais completa, temos grandes atuações que conseguem prender o espectador. Hugh Jackman e seu talento já conhecido para o estilo é tão fascinante que faz o público suspirar com seu entusiasmo e força de vontade inabaláveis. Não há o que criticar na entrega de Jackman a seu papel. Zac Afron (“Um Homem de Sorte”) não faz por menos, nascido no gênero, ele interpreta o burguês Carlyle de forma bem sucedida.

Zendaya vive Anne Wheeler (“Homem Aranha: De Volta ao Lar”), a jovem que interpreta suas próprias cenas no trapézio e já mostra talento e autonomia para estrelar outras produções.  Rebecca Ferguson, no papel da intensa Jenny Lind, nos revela uma personagem em chamas por tamanha intensidade (originalmente seu papel estava destinado a Anne Hathaway). Todos encontram a cerne de suas personas e conseguem segurar o público de alguma maneira, transmitindo a energia e magia necessária tão característica da produção.

Com três indicações ao Globo de Ouro, a proposta é fazer com que o público deixe seus problemas do lado de fora da sala. Com leveza, energia e entusiasmo somos transportados a graça de um espetáculo circense e a acreditar, mais uma vez, na importância do politicamente correto. Discurso também defendido no longa “Extraordinário”. Apesar de pecar no tom ingênuo como descreve o preconceito as diversidades, podemos dizer que temos um filme que entrega tudo aquilo a que se propõe.


Por Isa Fernandes

Crítica: O Rei do Show
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