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CríticaFilmes

Crítica: Papillon

Luiz Baez
2 de outubro de 2018 3 Mins Read
“- Essa é mesmo a sua história?
– É a história de muitos homens.”

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Em 1969, após anos na Venezuela, um antigo prisioneiro retorna à França para publicar suas memórias. Questionado sobre a autenticidade do material, não afirma a experiência própria; ao contrário, compartilha a vivência com a dos demais exilados. A cena final de “Papillon” (2017), ausente na versão de 1973, chama a atenção para algo ignorado durante as mais de duas horas anteriores. Três décadas depois do lançamento do livro homônimo, colocou-se em dúvida a história de Henri Charrière. Segundo o pernambucano Platão Arantes, estudioso do caso, o famoso relato pertence, na verdade, a René Belbenoît, figura de liderança intelectual entre os presos na Guiana Francesa. Charrière, um homem de poucos estudos, teria se apropriado de seus escritos. Alheio a essa discussão, entretanto, o roteiro de Aaron Guzikowski (“Os Suspeitos”) toma o relato do protagonista como verdadeiro.

Henri Charrière (Charlie Hunnam) apresenta-se, assim, como um arrombador de cofres injustamente acusado do assassinato de Roland Legrand. Condenado à prisão perpétua na América, Papillon conhece Louis Dega (Rami Malek), um milionário falsificador. Os dois homens estabelecem, então, uma parceria: em troca de proteção física, Dega custeia quaisquer tentativas de fuga de Charrière. As adversidades, no entanto, são muitas: dois guardas em constante vigília, uma floresta labiríntica e um mar repleto de tubarões. Caso capturados, ainda, os fugitivos recebem penas progressivas na solitária ou, pior, na temida Ilha do Diabo, colônia penal isolada e formada por penhascos.

Partindo da conhecida história, Guzikowski pouco inova. Reaproveita, de outro modo, diálogos inteiros do longa-metragem estrelado por Steve McQueen e Dustin Hoffman. Diferentemente do roteiro assinado por Dalton Trumbo e Lorenzo Semple Jr., porém, a nova adaptação ignora qualquer relação simbólica entre o anseio por liberdade e a borboleta tatuada no peito do protagonista – papillon, em francês. Além disso, falha no retrato da violência prisional: muito por conta, é verdade, da inabilidade do cineasta dinamarquês Michael Noer (“R”) de criar momentos de apreensão. Nesse sentido, mesmo os delírios de Charrière, pontuados por sequências oníricas, resultam antes em tédio que em desespero.

 

 

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Enquanto os carcereiros assistem a “King Kong” (1933), Papillon e Dega tentam uma fuga. Ainda que de maneira indireta – e provavelmente não intencional -, essa cena indica uma certa visão dos realizadores a respeito do cinema. Para eles, a Sétima Arte não passa de uma espécie de divertimento anestesiante, exterior a qualquer ação efetiva. A projeção dentro da projeção serve, afinal, apenas para desviar a atenção dos guardas. O verdadeiro movimento, ou seja, o escape das personagens, está fora das imagens metalinguísticas. Entende-se, assim, a proposta deste novo “Papillon” (2017): longe de questionar a versão única do protagonista ou de promover uma reflexão sobre as mazelas do sistema penal e sobre as barbáries do colonialismo etnocêntrico, Noer quer apenas distrair o espectador. Para tanto, o diretor opta por uma abordagem palatável de temas como a amizade e a superação de adversidades.

Considerada essa proposta, talvez seja possível afirmar o sucesso de “Papillon”. Consumido por um inebriante tédio, o público acompanha, com pouco investimento, os esforços de Charlie Hunnam (“Círculo de Fogo”) e Rami Malek (“Mr. Robot: Sociedade Hacker”). Diante do potencial inaugurado pelas recentes investigações sobre a autoria, contudo, é de se lamentar que o filme mais pareça uma incompetente cópia do sucesso de Franklin J. Schaffner.

* O filme estreia dia 4, quinta-feira.

 

Reader Rating1 Vote
9.9
4

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Tags:

AventuraBiografiaCharlie HunnamCinebiografiaDramaprisão

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Luiz Baez

Carioca de 25 anos. Doutorando e Mestre em Comunicação e Bacharel em Cinema pela PUC-Rio.

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