Crítica: Reza Lenda

Quando a poeira torna-se poesia

É importante, em nosso cinema, mostrarmos a realidade de nosso país. A verdade que se esconde por trás de algumas belezas naturais e/ou construídas pelo homem. Contudo, é importante lembrarmos que cinema também é diversão! É o momento onde, por muitas vezes, você busca se desligar desse “realismo” para embarcar em um mundo amansado por sua imaginação. É a fuga de certos paradigmas.

No cinema nacional, sobrevivemos embalados numa ideologia na qual tratam essa realidade em demasia. Muitos filmes importantes para nossa cultura abordam isso, e fazem seu trabalho com qualidade, contudo o subgênero “Favela movie” acaba assolando o mercado de produtos que possuem o mesmo estilo e intuito. Nesse ponto aonde encontra-se o prazer, a diversão?! Não que não deva ser realizado, pelo contrário: é preciso ser realizado! Mas, é necessário também uma dose dupla de ficção com ideias mirabolantes que façam o espectador viajar nem que seja por meros instantes.

Fugindo completamente de um ritmo marcado, “Reza Lenda”, aporta em 2016 com uma inovação no que diz respeito ao nosso cinema. O filme, dirigido por Homero Olivetto, busca alcançar o que há de melhor do cinema internacional e traz para telona do nosso Brasil uma perseguição ao melhor estilo “Mad Max” e consegue prender a atenção do espectador do início ao fim.

Com um produção bem trabalhada, o filme abusa com qualidade nos efeitos e proporciona um espetáculo original ao misturar ritos populares a uma violência fria e objetiva, trazendo para o mercado um produto bastante publicitário e digno de grandes bilheterias. Sim, você leu direito, de grandes bilheterias!

O roteiro parte do argumento do próprio Olivetto, que também participa do desenvolvimento do mesmo ao lado de Patrícia Andrade e Newton Canitto. Utilizando-se de uma suposta lenda que serve de premissa para o desenrolar da história, somos apresentados a personagens fortes que fogem completamente do que estamos acostumados a enxergar no cinema brasileiro. Ao unir isso a uma estrutura bem trabalhada e ótimas cenas de ação, com diálogos determinantes para história, constroem uma narrativa interessante e envolvente. Embora, possua alguns pequenos problemas no script, o mesmo é superior a dezenas de outros filmes lançados nos últimos meses em várias partes do mundo.

O bem escolhido e preparado elenco proporciona ainda mais energia ao filme. Todos os personagens são relevantes e merecem aplausos. Na ponta temos o galã Cauã Reymond, talvez em seu melhor e mais construído trabalho. É possível enxergarmos a dedicação do ator para se transformar em Ara. Em seguida a belíssima Luisa Arraes, protagonizando cenas fortes, mantém uma atuação imponente, através de olhares perdidos e inocente. Sua personagem é crescente e rouba muitas cenas. Sophie “Charlize Theron” Charlotte (Impossível não brincar com uma comparação, entre trejeitos e corte de cabelo), sempre melhor no cinema do que na televisão, decepciona um pouco nesse filme e faz com que sua excelente personagem se perca em alguns momentos, contudo continua mostrando uma atuação mais crível e evoluída a cada trabalho. Jesuíta Barbosa, mais uma vez, é incomparável! É impossível não associarmos sua enlouquecida atuação a um Mel Gibson em plena forma de… quem diria: Mad Max. Já Humberto Martins é a grande surpresa do filme. Acostumado a interpretar personagens másculos e sem força psicológica ou emocional, vemos um trabalho excepcional aqui, na pele de um homem que não gosta de ser passado para traz.

Com o trabalho impecável da fotografia de Marcelo Corpanni, ora limpa e/ou granulada, dando intuído de um mundo abafado e empoeirado, a gastura e a sede aparecem a todo momento deixando-nos ainda mais envolvidos no filme.

A belíssima direção de arte de Valdy Lopes e figurino de Cássio Brasil compõe o restante do filme com perfeição. Embora muitos possam achar que o figurino não condiz com o lugar e época, um estudo sobre o comportamento da sociedade perante a determinada localidades do país, pode comprovar a verossimilhança no mesmo.

A arrebatadora e fúnebre trilha sonora criada pelo “Instituto”, completa esse trabalho que precisa ser visto. A ambientação causada pela música, nos remete a algo quase similar a “Morte e Vida Severina” (Claro, digo isso com suas distinções) de João Cabral de Mello Neto.

Cinema realidade, Blockbuster ou pipoca, independente de qualquer desses, queremos cinema, queremos diversificação, qualidade. queremos mais filmes como “Reza Lenda”. Vá e divirta-se!

Crítica: Reza Lenda
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