Entre rádio, neon, culpa e transformação, o álbum de The Weeknd funciona como uma travessia simbólica entre os excessos de After Hours e a busca por redenção em Hurry Up Tomorrow
Dawn FM é o momento em que The Weeknd finalmente encontra a luz, ou quase isso. Se After Hours descreveu a longa noite de um homem em ruínas, o álbum seguinte apresenta uma espécie de travessia, deixando claro que essa “luz” não representa necessariamente salvação, mas sim um encontro direto com tudo aquilo que o personagem abandonou.
Na nova trama, The Weeknd parece confrontar tudo o que deixou para trás em After Hours. Depois de se perder em cassinos, ruas iluminadas por neon, impulsos destrutivos e imagens perturbadoras, a persona desenvolvida por Abel Tesfaye desperta entre a vida e a morte em um lugar ainda mais intrigante.
Antes mesmo dos clipes começarem, Abel deixou claro que aquela obra não se tratava apenas de um álbum, mas de um lugar. Uma atmosfera cheia de questionamentos, guiada por uma rádio fictícia, com anúncios, jingles, canções e a icônica narração de Jim Carrey, que interpreta um locutor de voz suave e quase perturbadora.
Segundo o próprio The Weeknd, em entrevista à Variety, esse álbum seria o segundo de três capítulos de uma história densa e envolvente.
“Há três capítulos nesta história (…) estou terminando a terceira parte desta saga, desta trilogia”, revelou.
LEIA TAMBÉM
The Weeknd | After Hours e a Longa Noite de um Homem em Ruínas
Twisted Nerve | Como o Assobio de Kill Bill Virou Símbolo da Cultura Pop
O Espaço das Mulheres no Rap | Por Que a Cena Ainda Precisa Ouvir Suas Próprias Contradições
Dawn FM como sala de espera
Em Dawn FM, o personagem surge com uma aparência mais velha, cansada e exausta. Muitos fãs especularam, na época, que essa representação poderia estar ligada à exaustão e ao envelhecimento precoce causados pelas situações perturbadoras do capítulo anterior, mas nada foi confirmado oficialmente.
Antes das faixas começarem, a narração funciona quase como um guia. É como se o ouvinte estivesse em uma sala de espera junto com o personagem central, aguardando a própria chamada para atravessar para algum outro lugar.
“You’ve been in the dark for way too long, it’s time to walk into the light (…) scared? don’t worry, we’ll be there to hold your hand.”
A mensagem é clara: ele passou tempo demais na escuridão. Agora, precisa caminhar em direção à luz.
Mas essa luz não é confortável.
“Take My Breath” e o vício pelo extremo
Tudo começa em “Take My Breath”, onde o personagem surge andando pela cidade, atraído por um pôr do sol. Caminhando por ruas esburacadas, ele segue por um corredor de luz baixa e encontra uma mulher misteriosa, que o conduz para um salão escuro.
Em determinado momento, o clima ganha um tom ritualístico de poder e submissão. A mulher alterna entre oferecer alívio e retirá-lo, fazendo a persona experimentar sofrimento e prazer ao mesmo tempo.
Uma coisa interessante é que “Take My Breath” fala justamente sobre dependência, vício e busca por sentimentos extremos. Dessa forma, a música coloca o personagem em uma espécie de looping em relação aos acontecimentos do álbum anterior.
Ele ainda não saiu completamente daquele ciclo.
“Sacrifice” e a resistência em abrir mão do passado
Seguimos para “Sacrifice”, onde ele se encontra exatamente no ponto em que “Take My Breath” termina: em uma sala subterrânea, cercado por pessoas desconhecidas.
Em determinado momento, o personagem é levado para o centro de um ritual, enquanto figuras ao redor parecem conduzir uma espécie de transformação. A ideia aqui é bastante clara e combina diretamente com o nome da música: para seguir em frente, ele precisa sacrificar algo, talvez um fragmento de si mesmo.
Em contrapartida, na própria canção, ele reforça que não está disposto a renunciar à sua liberdade e à vida antiga. Mesmo diante da necessidade de mudança, permanece em negação.
“Gasoline” e o confronto com a própria decadência
Na cena inicial do clipe “Gasoline”, vemos nos primeiros segundos um dos ouvidos do personagem com um aparelho auditivo repleto de formigas, sinalizando oficialmente o fim da vida. A fotografia muda: de vibrante, passa para um tom mais escuro e azulado. Um tipo de eclipse acontece, o carro em que a persona está sofre um acidente e o painel do rádio começa a piscar descontroladamente.
Ele desce do carro atordoado e outras formigas surgem.De repente, o rádio começa a tocar um som eletrônico, com a voz de The Weeknd um pouco mais robótica e peculiar, criando uma atmosfera de dúvida e novidade tanto no personagem quanto no telespectador.
Assustado, ele é direcionado para uma espécie de balada, onde mãos saem do chão tentando puxá-lo para baixo da terra. Aos poucos, sua forma jovem volta a moldar a aparência do corpo, como se aquele ambiente o atraísse de volta para uma versão antiga de si mesmo.
Nesse ponto, surge uma mulher de aparência jovial e bonita que começa a feri-lo com suas unhas. Em algumas cenas aparecem cobras sobre ela e seu rosto borrado, ao mesmo tempo em que as mãos continuam tentando puxá-lo para baixo. Isso, de certo modo, simbolizaria os pecados que o personagem deveria abandonar. Desesperado, ele ri de nervoso e chora de desespero enquanto tenta encontrar uma saída.
Depois, já adaptado à situação, ele se entrega ao ambiente e dança com as outras pessoas. Flores brotam das paredes e desabrocham. De repente, ele é surpreendido pela versão idosa de si mesmo o encarando fixamente com uma expressão de pavor, ao mesmo tempo em que alucina com essa mesma versão apodrecida. Ele se aproxima da outra metade envelhecida e desfere um soco nela, fazendo tudo parar e as flores morrerem. Ele continua agredindo o senhor até as luzes se apagarem por completo.
“Out of Time” e a fantasia de um amor leve
Em um tom mais tranquilo, chegamos a “Out of Time”. Aqui, o alter ego de The Weeknd aparece em busca de viver uma fantasia amorosa leve, quase como uma pausa no caos que atravessa o álbum.
Mas essa leveza não dura muito. O clipe termina com ele em uma mesa cirúrgica, sendo encarado pelo locutor da rádio.
“How Do I Make You Love Me?” e a transformação inevitável
Com um visual de desenho animado, somos arremessados para a música “How Do I Make You Love Me?”, onde a persona acorda em uma maca de hospital com uma máscara marrom, sendo segurada por médicos.
Ao lado dele, uma senhora de olhos vazios e bizarramente arregalados encara um aparelho hospitalar. Ao tentar fugir, seu braço é arrancado e uma borboleta pousa em sua mão. Automaticamente surge outro pequeno braço no lugar do antigo e ele pula pela janela.
Uma mulher assustada o observa de dentro de um carro. O personagem para debruçado sobre o capô e todos os tipos de insetos voadores saem pelos olhos e pela boca da máscara, deixando a mulher aterrorizada.
Talvez a parte mais simbólica desse clipe seja a mariposa gigante. As mariposas representam transformação e atração pela luz; ela guia o personagem como uma mudança inevitável que estava por vir.
No final do clipe, depois de muito apanhar e ter seu corpo completamente destruído, uma criança surge do que sobrou, representando a forma mais pura do personagem depois de atravessar o purgatório e chegar ao outro lado.
“Is There Someone Else?” e a dificuldade de abandonar velhos padrões
“Is There Someone Else?” é um clipe com interpretação mais ambígua. Nele, a figura central da história aparece observando uma mulher, enquanto outra figura mascarada parece assumir sua identidade em determinados momentos da trama.
Marcado por ciúme, paranoia e desconfiança, o clipe segue na contramão da ideia central do álbum: mostrar uma transformação espiritual, mesmo que mínima.
A máscara tem um papel importante porque remete à ideia de identidade e ilusão, temas recorrentes em Dawn FM. O personagem parece incapaz de distinguir o que é real daquilo que é projeção dos próprios sentimentos.
Mesmo atravessando o purgatório e sendo confrontado por suas falhas, ele continua preso a emoções humanas como posse, obsessão e medo da perda.
COMPRE AQUI
DAWN FM (VERSION 2) (TRANSLUCENT SILVER VINYL)
Hurry Up Tomorrow (Complete Edition)[2 LP]
After Hours [2 LP]
A tentativa de se desfazer de The Weeknd
Os últimos álbuns parecem tentar mostrar Abel Tesfaye se desfazendo de The Weeknd, reforçando que abrir mão completamente dessa persona não seria uma tarefa simples. E então surge uma última tentativa de redenção: “Hurry Up Tomorrow”.
“You are now listening to 103.5 Dawn FM.”
Imagem Destacada: Divulgação/The Weeknd/Universal Music/Republic Records


Sem comentários! Seja o primeiro.