Criado por Carlinhos Brown em 1991, grupo chega aos 35 anos mantendo viva uma história que mistura percussão, ancestralidade, arte e transformação social
Timbalada chega aos 35 anos em 2026 com um encontro marcado com o público do Rock in Rio. No dia 12 de setembro, o grupo ocupa o Espaço Favela, na Cidade do Rock, em uma programação que também reúne Priscila Senna e Soul de Brasileiro. É mais um capítulo de uma história que começou muito longe das estruturas gigantescas dos festivais: nas ruas do Candeal, em Salvador.
Antes dos grandes palcos, discos e sucessos que atravessariam gerações, havia uma ideia de Carlinhos Brown: recuperar o protagonismo de um instrumento que ele considerava marginalizado e explorar novas possibilidades para sua sonoridade.
O instrumento era o timbal. A experiência virou banda. A banda virou movimento cultural.
E o som que nasceu daqueles encontros ajudaria a construir uma das identidades percussivas mais reconhecíveis da música brasileira.

Uma banda criada para colocar o timbal no centro
A Timbalada nasceu em 1991, no Candeal, bairro popular de Salvador onde Brown cresceu cercado por uma forte tradição musical e percussiva. Segundo o próprio artista, a vontade inicial era difundir novamente o timbal e encontrar novas maneiras de utilizá-lo.
A formação daquele primeiro núcleo estava longe da ideia convencional de montar uma banda.
Brown chamou percussionistas de diferentes lugares, mas também abriu espaço para crianças e pessoas sem experiência musical. Décadas depois, ao relembrar o processo, definiu o timbal como uma espécie de “guitarra baiana”: um instrumento de enorme potência individual que precisava encontrar uma linguagem coletiva.
Era quase uma escola experimental de música funcionando dentro de um grupo.
Em 1993, a Timbalada lançou seu primeiro álbum homônimo pela Philips/PolyGram. O repertório já apresentava músicas como “Toque do Timbaleiro”, “Beija-Flor” e “Canto pro Mar”, ajudando a levar aquela sonoridade criada no Candeal para o restante do país.
A partir dali, a percussão deixava de funcionar como simples acompanhamento. Ela ocupava a frente do espetáculo.
Quando mudar o jeito de tocar também mudou o som
Uma das histórias mais importantes da Timbalada envolve justamente a maneira de tocar o instrumento que lhe deu nome.
A memória histórica do grupo registra que o timbal costumava ser executado na horizontal e predominantemente com uma das mãos. Brown passou a utilizá-lo na vertical, trabalhando com as duas mãos sobre o instrumento. Essa adaptação ajudou a criar a base percussiva que seria associada à Timbalada.
Pode parecer uma mudança pequena vista de fora. Musicalmente, abriu outras possibilidades.
O próprio Brown já destacou que o timbal possui características rítmicas e melódicas e defende que sua presença pode ser percebida em diferentes vertentes da música popular. Em entrevista ao Gshow, afirmou reconhecer o instrumento no axé, no sertanejo e no pop.
Anos depois, foi ainda mais longe.
Ao falar sobre a importância da Timbalada à Band, Brown disse reconhecer ecos daquela linguagem no reggaeton, no funk carioca, no funk paulista e na música sertaneja.
Isso não significa que a Timbalada tenha inventado esses gêneros, nem que seja possível atribuir suas estruturas rítmicas a uma única origem. A declaração mostra, porém, como Brown enxerga a circulação da linguagem percussiva desenvolvida naquele período.
E ajuda a dimensionar o alcance de uma experiência que começou dentro de um bairro de Salvador.

As pinturas transformaram os corpos em parte do espetáculo
Ouvir a Timbalada nunca foi a única maneira de reconhecê-la.
As pinturas corporais se tornaram uma assinatura tão marcante quanto os próprios tambores e nasceram quase por acaso.
Brown contou que tudo começou quando o figurino de um integrante não chegou antes de uma apresentação. O músico decidiu subir ao palco pintado. No dia seguinte, a banda participaria de um ensaio para uma revista e resolveu estender as pinturas a todos os integrantes.
A escolha ganhou outro significado com o tempo.
Para Brown, as pinturas carregam uma relação de respeito, espiritualidade e referência a Iansã, além da influência de Mestre Pintado do Bongô, figura importante em sua formação musical.
O artista plástico Ray Vianna, que conheceu Brown em 1991, também passou a participar dessa construção estética, trabalhando nas pinturas dos integrantes, na cenografia dos trios e na identidade visual de diferentes fases da banda. As pinturas chegaram inclusive às capas dos discos e se tornaram inseparáveis da imagem da Timbalada.
A música ganhou cor. E a apresentação passou a reunir som, movimento, ancestralidade, moda e artes visuais dentro da mesma linguagem.
O Candeal cresceu junto com esse movimento
A importância da Timbalada para o Candeal também precisa ser contada sem transformar a história em uma narrativa simplista de “banda que salvou um bairro”. O que aconteceu ali foi mais amplo.
A projeção da Timbalada ajudou a colocar o Candeal no mapa cultural de Salvador, enquanto Brown expandiu sua atuação para iniciativas de educação e desenvolvimento comunitário.
Em 1994, surgiu a Associação Pracatum Ação Social, criada para desenvolver programas educacionais, culturais e sociais dentro da comunidade. Ao longo de mais de três décadas, cerca de 12 mil alunos já passaram pela instituição, segundo dados divulgados pelo Ministério da Cultura em 2026.
A Pracatum oferece formação ligada à música e à cadeia profissional que existe ao redor dela, com atividades em áreas como percussão, gravação digital, sonoplastia, operação de áudio e trabalho técnico de palco.
Esse ecossistema ajuda a entender por que a Timbalada nunca coube perfeitamente na definição de “banda”.
Existe um grupo musical, claro. Mas ao redor dele também existe uma história de formação de músicos, valorização da cultura afro-brasileira, ocupação do espaço urbano e construção de uma identidade coletiva.
O Candeal não aparece apenas como o endereço onde a banda surgiu. Ele está dentro do som.

35 anos depois, a Timbalada continua em movimento
Muita gente passou pela Timbalada durante essas três décadas e meia. A banda mudou de formação, atravessou diferentes fases do axé e viu a indústria musical ser completamente transformada.
O timbal continuou lá.
Atualmente, Denny Denan e Buja Ferreira comandam os vocais do grupo e carregam um repertório que reúne músicas como “Beija-Flor”, “Mimar Você”, “Água Mineral” e “Toque de Timbaleiro”. Em julho de 2026, os dois falaram à Billboard Brasil justamente sobre as comemorações pelos 35 anos da Timbalada e sobre a permanência da ancestralidade e da percussão como elementos centrais do projeto.
Essa história agora volta a cruzar o caminho do Rock in Rio.
Depois de participar da edição de 2024 durante o Dia Brasil, a Timbalada retorna à Cidade do Rock em 2026 com uma apresentação própria no Espaço Favela. A presença está confirmada para 12 de setembro, mesmo dia em que Maroon 5, Demi Lovato, J Balvin, Pedro Sampaio e Mumford & Sons também fazem parte da programação do festival.
Há uma coerência difícil de ignorar nesse caminho.
Uma banda criada no Candeal para colocar um tambor novamente em evidência chega aos 35 anos ocupando justamente um espaço pensado para celebrar sons, artistas e histórias vindos das periferias brasileiras.
Do Candeal à Cidade do Rock, muita coisa mudou. Mas basta o primeiro toque do timbal para saber de onde aquela história veio.
Imagem Destacada: Reprodução/Rock in Rio


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