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Literatura

Resenha: Não Sou Uma Dessas – ou memórias que precisamos contar

O best-seller de Lena Dunham “Não Sou Uma Dessas”, essa segunda parte tomei a liberdade de acrescentar. Apenas porque esse é o tipo de livro que não vai agradar muita gente, e ainda assim, é um livro necessário. Nem todo mundo quer escrever uma biografia, ou mesmo quer ler sobre a vida de qualquer pessoa, mas a verdade é que todos nós temos memórias para contar. E que precisamos colocar pra fora.

Lena, que é a criadora da série Girls (além de também dirigir e atuar nela), recebeu uma quantia bem alta da editora Random House para escrever uma autobiografia e cumpriu a missão de forma louvável. Em seu livro, que saiu em 2014 – e que eu só consegui comprar a versão original e impressa em inglês no ano passado – Dunham fala sobre diversos assuntos de sua vida, como a perda da virgindade, garotos, experiências gays, trabalho, dietas e relação com o corpo, doenças e distúrbios psiquiátricos e praticamente tudo que toda garota viveu. Sua escrita é bastante cômica e envolvente, criando imediatamente um laço entre o leitor e a protagonista. A obra foi best-seller em diversos países e recebeu críticas excelentes do NY Times e outros autores. No entanto, parece que a sinceridade exacerbada e detalhista de Lena não agradou a todos. Alguns críticos, em especial, norte-americanos, pegaram pesado chamando-a de ‘pobre menina rica’ ou mesmo ‘sociopata perigosa’.

O que por um lado causou aversão em algumas pessoas, em mim teve o efeito inverso, eu gosto da honestidade com que ela fala de si mesma: egocêntrica, prepotente, ingênua e insuportável, às vezes. Quem nunca se sentiu dessa forma, ao menos uma vez na vida? Inclusive, me manter fiel à forma com que Lena se expõe foi o que me fez optar por ler a versão original, em inglês. Queria ter certeza que não iriam trocar palavras tabus por sinônimos mais agradáveis. A experiência só seria completa para mim se eu mergulhasse na linguagem crua e incômoda da autora.

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A roteirista queridinha de Hollywood conta sobre diversas experiências frustrantes e de como ela transformou-as em memória, ainda que, muitas vezes, não sejam totalmente confiáveis, como ela mesmo afirma. Um exemplo disso é o capítulo em que ela fala de Barry (pseudônimo escolhido por Lena), um republicano de sua faculdade que a estuprou. Ela relata tudo o que aconteceu na noite, deixando no ar a incerteza se aquilo era também uma escolha dela ou não. Tenta finalizar dizendo que foi uma escolha ruim, e logo no capítulo seguinte afirma que foi um estupro, onde ela jamais teve escolha. Lena também conta de forma engraçada sobre a história de seus pais e a relação com eles e com sua irmã Grace, que ela diz chamando-a de intrusa quando nasceu.

Outro ponto extremamente profundo no livro, apesar da linguagem cômica que a jovem usa, é sua relação com o transtorno obsessivo-compulsivo e de como isso modificou por completo sua vida. Falar sobre transtornos psiquiátricos e sobre como lidar com eles, é sempre uma tarefa árdua e dolorosa. Lena, no entanto, se abre totalmente e faz isso com certa graça e leveza, como se contasse sobre qualquer outra doença mais comum (ou mais aceitável pela sociedade normativa em que vivemos).

O que talvez seja necessário frisar, e admirar, é que o livro é uma grande exposição de situações e experiências embaraçosas, onde a autora não poupa a sua protagonista (ela própria) em nenhum momento. Falar de si mesma com tanta acidez e vulnerabilidade, colocou Dunham em um outro patamar no meu ranking de autores. Gosto de saber que não fui a única adolescente que passei por situações tão vergonhosas e gosto de saber que existe alguém com tamanha visibilidade que expõe isso em uma biografia. Lena cumpre bem seu papel de ser uma pessoa normal, cheia de falhas, erros e qualidades – e ensina de forma natural que garotas não são, nem deveriam pensar que podem ser, simples objetos descartáveis. A voz de uma mulher que fala de si e de outras, em tempos como esses, é música para os nossos ouvidos (e olhos!). Como ela mesmo diz: “Acho que talvez eu seja a voz da minha geração”. Se não é A voz, é certamente uma das vozes, e isso nos empodera como sociedade.

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Lena Dunham se despede de sua série Girls esse ano, com a última temporada já em exibição na HBO, e é uma ótima oportunidade para conhecer mais talentos dessa mulher que não parece ter medo de ser quem ela é.


Por Patricia Janiques

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