Pianista mostrou por que sua carreira vai muito além do Maroon 5 em uma apresentação de voz, banda e groove que merecia uma plateia bem maior
PJ Morton subiu ao Palco Sunset do Rock in Rio 2026 às 20h10 de sexta-feira, 11 de setembro, diante de uma situação curiosa: havia espaço de sobra diante dele enquanto, a poucos minutos de caminhada, milhares de pessoas permaneciam concentradas no Palco Mundo à espera de Alok e, principalmente, do Stray Kids. O quinto dia havia sido praticamente construído em torno da estreia do K-pop no festival, e Morton acabou colocado num horário pouco favorável para um artista cuja música depende de piano, banda, dinâmica e atenção. A plateia era pequena. Quem estava ali, porém, parecia ter feito uma escolha consciente.
Essa diferença ficou evidente desde “Mutual”, primeira música do repertório. Morton não precisou combater o vazio aumentando artificialmente o tamanho do show, tampouco tentou transformar o Sunset numa apresentação pop carregada de recursos visuais. O palco estava montado em torno dos instrumentos, com o piano como centro e uma banda capaz de sustentar mudanças entre soul, R&B, gospel e funk sem deixar cada passagem parecer uma demonstração técnica. O cantor apareceu de gorro em tom terroso, óculos transparentes, camiseta branca e uma jaqueta marrom que combinava com a discrição de toda a produção visual. A elegância estava menos no figurino em si do que na coerência entre aparência, repertório e maneira de conduzir a apresentação.
Há uma ironia inevitável nessa imagem. Morton é conhecido por milhões de pessoas como tecladista do Maroon 5, grupo que pisaria no maior palco do festival na noite seguinte diante de uma multidão. Naquele Sunset, porém, não havia Adam Levine, “Sugar” ou “Moves Like Jagger” para criar reconhecimento imediato. Havia um compositor, pianista e cantor defendendo uma carreira própria que já lhe rendeu seis Grammys e um catálogo muito mais ligado à tradição da música negra norte-americana do que ao pop da banda que o tornou familiar para um público mais amplo.
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O piano deixou de ser lugar de apoio e virou centro do show

Morton passa boa parte da carreira ocupando um instrumento que, dentro de uma banda pop, frequentemente trabalha atrás do vocalista. No show solo, essa relação se inverte. O piano determina a dinâmica, abre espaço para sua voz e serve como ponto de partida para a própria personalidade musical. “My Peace” veio logo depois da abertura e utilizou o conhecido sample de “SpottieOttieDopalicious”, do OutKast, colocando hip-hop e soul dentro do mesmo arranjo sem precisar anunciar a mistura.
Em “Good Morning”, a característica mais interessante do show ficou ainda mais clara: Morton gosta de construir músicas que parecem familiares mesmo quando parte da plateia nunca as ouviu. Há acordes e harmonias herdados do gospel, linhas de baixo que apontam para o R&B dos anos 1990 e uma maneira de cantar que carrega muito de igreja sem transformar o repertório secular em culto. Essa memória musical compartilhada cria um caminho de entrada diferente daquele de um grande hit. O público pode não saber a letra inteira, mas entende rapidamente onde bater palma, responder ou acompanhar um refrão.
A sequência também mostrou o quanto a banda era parte ativa do resultado. Bateria, baixo e vozes de apoio davam elasticidade aos arranjos, permitindo que Morton atrasasse frases, aumentasse notas ou simplesmente deixasse o instrumental respirar. Num festival em que muitas apresentações dependem de bases programadas e marcações rígidas para vídeos, pirotecnia e coreografias, havia algo particularmente prazeroso em observar músicos reagindo uns aos outros dentro de uma música.
Esse formato também exige confiança. Sem bailarinos, grandes estruturas cenográficas ou trocas constantes de imagem nos telões, qualquer fragilidade fica exposta. Morton parece confortável justamente nesse ambiente. Sua técnica não é exibida como atração separada; ela aparece no modo como toca enquanto canta, na maneira como muda a intensidade de uma frase e na facilidade com que conduz a banda sem interromper a apresentação.
Ready tirou Morton do piano e mudou a temperatura do Sunset

A primeira grande mudança veio com “Ready”. Morton deixou os teclados e passou a caminhar pelo palco, provocando uma resposta mais física de quem estava diante dele. O gesto parece simples, mas tinha função importante dentro de um set que vinha sendo construído principalmente pela musicalidade. Depois de algumas faixas com o cantor sentado ou concentrado nos instrumentos, vê-lo ocupar a frente do Sunset ampliou a relação com aquela plateia pequena.
O público respondeu porque já estava envolvido. A falta de densidade no gramado criava uma proximidade rara para um palco daquele tamanho: havia espaço entre grupos, era possível enxergar pessoas dançando sem o aperto de outros horários e Morton conseguia identificar reações individuais. O que poderia parecer fracasso de público acabou oferecendo uma experiência mais próxima para quem permaneceu.
O cantor também aproveitou os intervalos para falar sobre a própria trajetória. Em uma das primeiras conversas, lembrou o período em que outras pessoas tentavam dizer como sua música deveria soar e até como deveria se apresentar visualmente. O comentário combinava com a situação daquele show. Num festival que poderia vendê-lo simplesmente como “o tecladista do Maroon 5”, Morton estava usando quase uma hora para mostrar tudo aquilo que essa descrição deixa de fora.
A reflexão não precisou virar discurso motivacional prolongado porque o próprio repertório sustentava a ideia. “Claustrophobic” carrega justamente parte dessa tensão entre expectativas externas e identidade artística, enquanto “Sticking to My Guns” reforça uma personalidade musical que prefere continuidade a mudanças calculadas para alcançar tendências. Ouvir essas músicas num palco grande e relativamente vazio dava à discussão uma dimensão quase literal: ele poderia tentar parecer outra coisa para conquistar mais gente, mas o show permanecia absolutamente fiel ao artista que estava apresentando.
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O Gospel como linguagem
O pai de PJ Morton é o bispo e cantor gospel Paul S. Morton, e essa origem religiosa aparece profundamente em sua forma de construir harmonias e trabalhar vozes. No Sunset, o gospel está distribuído por praticamente toda a apresentação, e não surge como uma parte temática isolada do repertório. Ele especialmente na maneira como backing vocals respondem ao cantor e nas progressões que fazem determinadas músicas crescerem em camadas.
“Mercy” e “Sell My Soul” deixaram isso particularmente evidente. O show ganhava força sem aumentar necessariamente o volume porque as vozes começavam a ocupar mais espaço, o piano ficava mais intenso e a bateria trabalhava acentos maiores. Morton conhece muito bem o mecanismo emocional do gospel e sabe utilizá-lo fora de uma experiência religiosa, conduzindo a plateia de maneira parecida com aquela de um coro.
Essa característica chega ainda mais forte em “The Better Benediction” e “Everything’s Gonna Be Alright”. A segunda encontrou um público disposto a participar e mostrou uma diferença importante em relação ao tamanho daquela plateia. Pouca gente pode produzir pouco volume, mas atenção concentrada cria outro tipo de resposta. Quem havia escolhido sair da programação de K-pop para assistir Morton estava olhando para ele, cantando quando conhecia e reagindo às mudanças da banda.
Não havia grupos grandes conversando enquanto aguardavam outra atração nem uma multidão passando pela área sem prestar atenção. Esse comportamento tornou o espaço vazio menos desconfortável do que poderia parecer em fotografias. O Sunset não estava cheio, mas também não estava indiferente.
First Began colocou o romantismo no centro

Se a primeira metade apresentou as diferentes origens musicais de Morton, “First Began” abriu uma região mais romântica do set. A canção trabalha uma melodia ampla e uma interpretação menos preocupada com virtuosismo, permitindo que a voz encontre outra intensidade. É uma das músicas que melhor mostram por que ele funciona como cantor além de pianista: há controle suficiente para sustentar as notas, mas o interesse está na maneira como as frases carregam vulnerabilidade.
O ambiente do Sunset ajudou bastante. Sem uma produção visual agressiva, a música podia simplesmente existir diante do público, sustentada pela banda e pela voz. É também uma boa lembrança de como a escala de um festival nem sempre precisa ser preenchida por elementos grandes. Determinadas canções conseguem ocupar um espaço imenso justamente quando o artista confia que silêncio, pausa e dinâmica também alcançam grandes distâncias.
Depois veio “Say So”, uma das músicas mais reconhecidas de sua carreira solo e vencedora de Grammy em sua gravação com JoJo. Sem a participação da cantora, Morton precisou sustentar sozinho uma faixa construída originalmente como diálogo, e a adaptação deu muito certo porque sua banda entende quando abrir espaços e quando preencher a ausência de uma segunda voz. O resultado deixa a composição mais próxima de um grande R&B clássico do que do dueto gravado em estúdio.
Esse bloco foi ponto em que o tamanho pequeno da plateia mais combinou com a apresentação. As músicas românticas ganhavam algo quando não precisavam disputar atenção com uma multidão inquieta. Quem estava perto do palco conseguia acompanhar cada inflexão e recebia um show com intimidade pouco comum dentro de um evento desse porte.
How Deep Is Your Love? terminou a noite olhando para uma história maior
Morton escolheu “How Deep Is Your Love?”, dos Bee Gees, para encerrar o show. A música poderia ser utilizada apenas como recurso fácil de reconhecimento, principalmente diante de um público que talvez conhecesse pouco de sua discografia solo. O arranjo evitou esse caminho ao trazer a canção para dentro de sua própria linguagem, usando piano, harmonias vocais e soul para afastá-la da reprodução nostálgica do original.
A escolha também conversa com tudo o que havia acontecido antes. Morton é um artista profundamente interessado em tradição. Gospel, soul, R&B, funk e pop aparecem em sua música como materiais vivos, capazes de ser reorganizados. Terminar com Bee Gees reforça essa maneira de trabalhar: uma canção mundialmente conhecida deixa de pertencer apenas aos anos 1970 e passa a funcionar dentro do vocabulário de um músico de Nova Orleans em 2026 e todo o público presente no evento.
Foi um encerramento sem fogos, convidados surpresa ou qualquer tentativa de fabricar uma imagem monumental. A banda terminou tocando, Morton agradeceu e deixou uma sensação um pouco incômoda para quem acompanhou a apresentação inteira: aquele show merecia ter sido visto por mais gente.
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O único problema estava no encontro entre público e horário

A menor plateia do Sunset naquele dia pode ser explicada por uma série de fatores que nada têm a ver com capacidade artística. O Rock in Rio havia vendido a sexta-feira como a estreia do K-pop em grande escala, com NEXZ, Hwasa e Stray Kids no Mundo. Milhares de fãs chegaram cedo e passaram horas evitando qualquer deslocamento que pudesse comprometer sua posição. PJ Morton começou às 20h10, entre Hwasa e Alok, justamente quando essa concentração estava mais consolidada.
O Sunset oferecia naquele horário quase a experiência oposta. Enquanto o Mundo trabalhava com coreografias, telões gigantes, fandom, lightsticks e uma longa espera pelo headliner, Morton tinha piano, banda e canções que exigiam outro tipo de disponibilidade. A curadoria criou diversidade, mas não necessariamente uma circulação equilibrada entre as atrações.
Esse é o principal ponto baixo do show, embora esteja fora de seu controle. Morton não encontrou o público que uma apresentação desse nível poderia reunir em outra data da edição. Um dia como o de Gilberto Gil, Péricles e Jon Batiste talvez criasse um trânsito completamente diferente para seu repertório. Na sexta do Stray Kids, muita gente simplesmente não quis correr o risco de abandonar o Mundo.
Também fica uma pequena frustração com a duração. O registro disponível aponta aproximadamente 55 minutos, das 20h10 às 21h05, ainda que a janela do Sunset permitisse um espaço maior antes da atração seguinte. Com apenas 13 músicas, o set terminou quando aquela banda parecia capaz de continuar desenvolvendo muito mais repertório.
Um dia depois, outra multidão veria PJ Morton sem perceber toda a história
Menos de 24 horas depois, PJ Morton voltaria à Cidade do Rock para ocupar uma posição completamente diferente. Desta vez, estaria no Palco Mundo com o Maroon 5, diante de dezenas de milhares de pessoas. No show da banda, chegou inclusive a assumir os vocais de “Heavy”, faixa de sua própria carreira incorporada ao repertório do grupo durante a turnê.
A comparação torna o Sunset ainda mais curioso. Na sexta, Morton era protagonista diante de pouca gente; no sábado, apareceria como integrante de uma máquina pop gigantesca diante de uma das maiores plateias do festival. Quem acompanhou as duas apresentações viu praticamente dois músicos diferentes ocupando o mesmo evento.
O show solo ajuda a entender por que essa comparação é injusta. Morton não precisa do Maroon 5 para justificar uma hora de palco. Sua carreira possui repertório, linguagem, reconhecimento crítico e uma banda capaz de sustentar uma apresentação inteira sem depender de qualquer associação com Adam Levine. A ligação com o grupo é parte de sua história profissional, mas talvez seja justamente o aspecto menos revelador sobre sua música.
No Rock in Rio 2026, o tamanho da plateia acabou contando uma história diferente daquela do palco. Havia pouca gente diante de PJ Morton, mas, no Sunset, sobrou música.
PJ Morton | Imagem: Divulgação/Rock in Rio (Crédito: @MorivaFilmes/@AlexWoloch)


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