“… o homem da sua vida, era um necrófilo.” (p.25)

Darkside(!)

Só pelo nome da editora já sabemos que “Bom dia, Verônica” não vai ser nenhum romancezinho adolescente com final feliz e passarinhos cantantes.

É… um minuto de silêncio para essa obra.

Começar a escrever a resenha de “Bom dia, Verônica” nos é complicadíssimo. Tudo nessa obra é um mistério. A começar pela autora “Andrea Killmore”, que na verdade é um pseudônimo de um autor que acha melhor não se identificar. Seria devido ao conteúdo tenso e psicótico desse livro? Não, gente… a autora (ou o autor… vai que…) preservou seu nome por questões de segurança. Se-gu-ran-ça… Leia essa informação e pronto. Já sabe o que pode esperar dessa narrativa (ou não). E se estamos começando a resenha já falando o que, normalmente, falamos no final, é porque nada nesse exemplar merece ordem cronológica.

A história se passa em São Paulo. E partindo desse pressuposto, sabemos que foi escrito no Brasil e quem o escreveu estava muito familiarizado com os nomes de ruas e afins. Isso coloca o romance policial nacional em um novo patamar aqui em terras brasileiras. Autores como Tony Belloto e Raphael Montes – que já tiveram suas obras resenhadas nessa coluna – vêm calcando esse caminho rumo ao crescimento do gênero. Mas o que Killmore faz nesse livro, nossa… está muito fora da caixinha.

Verônica Torres – personagem que dá nome ao título – não tem nada de heroína. Mas nada mesmo. Ela é uma policial frustrada, que trabalha como secretária do delegado do Departamento de Homicídios de São Paulo. Por problemas psicológicos – que envolvem uma tentativa de suicídio – Verônica seria exonerada do seu cargo, se delegado, grande amigo de seu pai, não a tivesse puxado para trabalhar com ele.

Como secretária, Verônica não tem muitas aventuras. Ela odeia seu chefe, seu serviço, sua vida. Ela queria poder fazer mais. Queria voltar à ativa, ir para rua, ajudar as pessoas. Mas tinha que se contentar com seu trabalho burocrático.

Um belo dia, no entanto, uma mulher entra aos prantos na delegacia e exige falar com o delgado. Depois de horas de conversa a portas trancadas, Marta – a vítima – sai da sala pior do que entrou. Verônica, na vã tentativa de ajudá-la fala aquelas palavras de consolo, tenta fazer com que ela se abra… mas… Marta, sabendo que era o fim da linha para si mesma, se joga da janela. Uma queda livre de onze andares entre a sala de Verônica e o chão.

Daí o leitor deve estar pensando assim: “Nossa, que loucura!!”. Bem… calma que piora.

Carvana – o delegado – lava suas mãos. Considera Marta mais uma daquelas malucas que sempre aparecem na delegacia, não dá a devida importância ao caso e manda Verônica arquivá-lo para não ter problema para a corregedoria. E o que Verônica faz? Resolve que ela é capaz de fazer essa investigação escondida de todo mundo; e é aí que sua vida vem ladeira abaixo.

“Bom dia, Verônica” é uma história carregada de clichês. A protagonista definitivamente não sabe o que faz. E nós ficamos pensado que “senhor, que mulher idiota”. Sério… Verônica nos dá raiva. Ela justifica um erro com outro erro, comete adultério, mente, é irresponsável com seus filhos e não tem feeling.  Até para ser uma pessoa inquieta, há de se ter um pouco de discernimento. Ela não faz ideia do que seja isso.

Em contrapartida, ainda que a personagem principal não ajude muito, a obra tem um bom desenvolvimento em outro campo. A história de Brandão e sua esposa Janete tem uma boa evolução. São personagens complexos – talvez, também cheios de clichês – mas são eles que fazem a trama se desenvolver melhor. Ruim de um lado, bom do outro, ao longo da leitura o leitor vai encontrando pontos onde equilibrar-se.

Brandão é o grande vilão da história (e não… isso não é um spoiler). Em compensação Janete cai na máxima de esposa fiel que vive em um relacionamento abusivo. A combinação entre ambos é explosiva. E diríamos que cruel. Brandão é um homem sádico, psicopata. E obriga a mulher a cometer crimes “em nome do amor”. Mas não são crimes pequenos. Estamos falando de tortura física e psicológica. Sequestro, masoquismo, estupro… e por ai vai. É coisa bem pesada mesmo.

N’um terceiro viés temos outra história. São duas investigações acontecendo em paralelo – a de Brandão e Janete, e a de Marta; que cometeu suicídio – e Verônica consegue estragar as duas (talvez isso seja um “spoilerzinho”). Nessa outra história/ investigação, até necrofilia encontramos.

Sim! Nós avisamos que iria piorar. É Darkside, né queridos.

O livro foi lançado em 2016, mas só agora ganhou uma visibilidade maior. E sua diagramação está sem comentários. A Editora sempre arrasa na edição dos seus livros.

Para os que gostam de pensar fora da caixinha (isso foi um spoiler recheado de ironia), “Bom dia, Verônica” vai te virar a cabeça. E revirar o estômago também.

“A casa de uma pessoa reflete o espírito dela. Como seria a casa de um assassino de mulheres?” [p.49]


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Kinha Fonteneles

Érica nasceu no subúrbio do Rio de Janeiro, mas deveria ter nascido nesses lugares onde se conversa com plantas, energiza-se cristais e incenso não é só pra dar cheirinho na casa.
Letrista na alma, e essa bem... é grande demais por corpinho de 1,55 que a abriga.
Pisciana com ascendente E lua em câncer. Chora quando está feliz, triste, com raiva e até mesmo com dúvida.
Ah! É uma nefelibata sem cura.

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