“Feliz,  feliz natal, que nos traz de volta as ilusões da infância, recorda ao idoso os prazeres da juventude e transporta o viajante de volta à própria lareira e à tranquilidade do seu lar”.

Natal é tempo de reflexão, de amor, de alegria, de paz. É época de generosidade, de perdão. É quando as pessoas parecem estar mais dispostas a abrir o coração livremente. É quase impossível permanecer insensível aos bons sentimentos e à troca de carinho. O amor da família e dos amigos mais chegados paira no ar e assim ficamos conectados dentro da mesma energia.

Mas, mesmo com todo esse clima contagiante, sempre tem alguém que chega carregando um peso nas costas. Sentimentos como tristeza, mágoa, raiva, inveja, fazem parte dessa capa que envolve a pessoa por completo. E nada que pareça bom, faz sentido nesse dia.

No livro “Um cântico de natal e outras histórias”, o autor Charles Dickens traz à tona todos esses sentimentos. Através de uma viagem em contos e histórias natalinas, o leitor vai poder mergulhar em muitas experiências relatadas na ficção, mas que certamente são vividas de igual modo na vida real. São 8 narrativas reunidas em um mesmo lugar, recheadas de muita aventura, mas também de muita reflexão. Tudo isso sempre trazendo de volta a magia do natal, ao mesmo tempo que nos faz refletir sobre o verdadeiro significado da data. Com certeza em algum momento você vai se reconhecer. “Festas de Natal”; “A história dos duendes que raptaram um coveiro”; “Um episódio de natal de O relógio do Senhor Humphrey”; “Um cântico de natal em prosa que é uma história natalina de fantasmas”; “O homem possesso e o pacto com o fantasma”; “Uma árvore de natal”; “O que é o natal quando ficamos velhos” e “Os sete viajantes pobres”.

Durante a leitura, somos transportados para a Inglaterra Vitoriana, com suas ruas e vielas cobertas de neve, em uma atmosfera mágica, bem característica dessa época do ano. E assim, absorvidos por completo, somos levados como que por um encanto às famílias reunidas em volta da lareira, relembrando bons momentos da infância e da vida. Do lado mais sombrio, vemos fantasmas que assombram um avarento e também duendes que tramam e executam o rapto de um coveiro.

O conto mais conhecido de Dickens é “Um Cântico de Natal”, onde vemos a história de Ebenezer Scrooge, um comerciante solitário, avarento e mesquinho, que prefere passar bem longe dessa coisa de espírito natalino. E aí, de um lado, identificamos a preocupação de seu sobrinho tentando convencê-lo a passar o dia com a família e de outro, percebemos o egoísmo de Scrooge – que só pensa em si mesmo e em sua fortuna – diante da humilhação do seu empregado mais fiel, lhe negando passar o dia de folga no natal com sua família. Até que na véspera de natal tudo muda, quando o fantasma do seu antigo sócio aparece para avisar que ele receberá 3 visitas muito importantes: do Espírito do natal passado; do Espírito do natal presente e do Espírito do natal futuro. E a medida que os Espíritos começam a confrontar Scrooge mostrando cenas de seus natais passados, presentes e até dos futuros, o coração começa a amolecer e ele se arrepende por tantos atos egoístas. E na manhã de natal ele acorda outra pessoa, completamente transformado.

“Um cântico de Natal” é um dos contos mais lidos nos últimos tempos. E é um dos precursores nas histórias com o argumento de reavaliar valores ao ser confrontado pelos erros do passado. É sem dúvida uma história bastante comovente, que faz a gente refletir.

“Assim o natal me envolveu, de longe e de perto, até que eu chegasse a Blackheath e percorresse a longa avenida de velhas árvores nodosas de Greenwich Park, e fosse levado por um trem a vapor, através da neblina que tornava a se formar, até as luzes de Londres. Brilhantes reluziam elas, mas não tão brilhantes como meu próprio fogo e os mais brilhantes rostos ao redor, quando nos encontramos para festejar esse dia”.

Em “Festas de Natal”, o autor trata das festas natalinas em família de uma forma doce, mas claro, sempre usando doses de sarcasmo. Ele fala que cada uma tem sua particularidade, suas características e tradições, mas, no geral, são todas bem parecidas. O tiozão do pavê; o par de meias no amigo oculto; aquela tia que faz tempo não aparece na reunião da família e aí quer saber tudo sobre nossa vida; aquela situação constrangedora entre parentes que não se falam e precisam dividir o mesmo ambiente… E por aí vai… Coisas comuns que acontecem em qualquer família.

“A história dos duendes que raptaram um coveiro” traz um toque de suspense e sombrio e tem como tema principal o sentimento de passar o natal sozinho

“Um episódio de Natal de O Relógio do Senhor Humphrey” fala sobre uma improvável amizade que surge entre 2 homens solitários que estão passando o natal sozinhos, em um restaurante. Vai tecer sentimentos em torno das dores da solidão, fala de como é deprimente passar o natal sozinho e estes dois estranhos criam um laço que vai perdurar por muitos e muitos natais.

Em “O Homem Possesso e o Pacto com o Fantasma”, o professor Redlaw é visitado por um fantasma que pede pra ele esqueça as memórias que o angustiam. O desafio foi aceito! Logo depois, ele descobre que vai poder fazer com que as pessoas esqueçam seus passados sombrios. A importância das nossas memórias é o tema em voga. Aquelas que nos faz sofrer, pois o conjunto delas é responsável pela construção da nossa identidade.

Dickens usa situações natalinas nos demais contos. Muitas vezes o contexto pode ser fantástico, mas sempre estudando e explorando a alma e a psique do ser humano, para que as histórias não deixem de ser atuais.

A editora Martin Claret publicou em 2015 uma edição linda, com capa dura e na parte de dentro as letras em detalhes dourados, fazendo uma alusão à época do natal. O papel utilizado é de altíssima qualidade. As páginas são amareladas e as gravuras são lindas e muito bem escolhidas. As ilustrações, muito bem feitas. Ou seja, um primor! Um livro que precisamos ter em casa.

Resenha: Um cântico de natal e outras histórias, de Charles Dickens
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