9 de dezembro de 2019
Uma viagem ao interior da Terra

Nesta história, dois alemães seguem para a Islândia a fim de procurar uma passagem para um mundo subterrâneo que provavelmente se estende até o centro do planeta. Um deles está convicto de que a encontrará e o segundo tem certeza de que a jornada é pura perda de tempo. Naturalmente, a passagem é descoberta e muitas surpresas acontecem nesta viagem sem precedentes às vísceras do nosso planeta.

Apesar de ser um texto bastante respeitado, neste livro Verne usa a mesma narrativa simplificada que se observa em sua primeira obra, Cinco Semanas em Balão. Talvez por isso “Viagem ao Centro da Terra” tenha sido um livro tão popular, que agradou a tantos leitores. Ele não adota o tom poético que usará com tanta habilidade em “O Capitão Háteras”, seu livro posterior.

“Ora, há em mineralogia muitas denominações semigregas, semilatinas, difíceis de pronunciar, rudes palavras que esfolariam os lábios de um poeta. Não quero menosprezar a ciência. Longe de mim tal pensamento. Mas quando se se depara com palavras como cristalizações romboédricas, resinas retinasfálticas, glenites, fungasites, molibdatos de chumbo, tungstatos de manganês e titaniatos de zircônio é natural embatucar até a língua mais flexível.”

Desta vez a história é narrada em primeira pessoa e Verne usa esse artifício para adicionar uma dose de humor curiosa, pois a personagem responsável pela narrativa tem uma visão peculiar dos acontecimentos que ocorrem ao longo do livro.

Neste livro, um dos mais famosos e adaptados para o cinema e televisão do autor, Verne esbanja conhecimento geológico e paleontológico e leva o leitor por uma viagem literal às entranhas do mundo. Ele descreve muito bem as rochas e minerais que se esperaria encontrar na crosta. Aproveita para debater hipóteses científicas que eram colocadas na época, como a existência – ou ausência – de grande calor interno no planeta. Este livro é uma verdadeira carta de amor à geologia e à Terra.

Imagem: Divulgação/Júlio Verne

“O que a sonda, máquina sem inteligência e grosseira, não podia trazer à superfície do globo, do fundo de sua textura interna, iríamos estudar com nossos olhos, tocar com as mãos.”

Apesar da descrição de camadas geológicas corresponderem ao que a Geologia ainda coloca para as porções mais superficiais do planeta, hoje a imagem que esta ciência descreve para as profundezas é muito diferente do que foi pensado por Verne. A ciência atual não admite a existência de túneis naturais ou bolsões com ar e água no interior do mundo, e as temperaturas estimadas para as camadas mais profundas estão na escala de centenas e milhares de graus célsius. Isso inviabilizaria a existência real de uma viagem nos moldes da descrita pelo autor, o que é um fato raro no conjunto de sua obra, onde ele tende mais a acertar.

O texto é muito interessante e conta com várias cenas de ação que seriam perfeitas para transposição para o cinema. Entre os capítulos 26 e 28, por exemplo, um dos personagens se perde dos demais e permanece sozinho, preso entre camadas de rocha, no mais absoluto silêncio escuro dos minerais. Este trecho é bem escrito e desenvolve como seria a angústia da sensação de claustrofobia, solidão, abandono, impotência e terror de quem fica encarcerado na escuridão muda de uma caverna profunda. Infelizmente, apesar de tantas adaptações já vistas para o cinema e televisão, nunca foi produzido algo digno do livro original de Verne. Quem sabe um dia a veremos?

“Então, perdi o controle. Levantei-me com os braços estendidos para a frente, tateando. Em seguida, pus-me a fugir, precipitando-me ao acaso naquele inextrincável labirinto, descendo sempre, correndo através da crosta terrestre, como habitante das fendas subterrâneas, chamando, gritando, bramindo, contundindo-me nas saliências das rochas, tombando e levantando-me ensanguentado, procurando beber esse sangue que me inundava a face e esperando sempre que muralha imprevista viesse oferecer à minha cabeça obstáculo para massacrá-la!”

Um detalhe importante sobre os livros de Verne é não ler as versões adaptadas, infanto-juvenis. Leia apenas as traduções baseadas no texto original, sem alterações. Neste quesito, as impressões da editora Matos Peixoto, da década de 1960 e 1970 são imbatíveis. Recomendo também que leia acompanhando pelas ilustrações originais, que podem ser encontradas aqui. Infelizmente as edições brasileiras não são ilustradas.

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