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CríticaFilmes

Crítica (2): Dora e a Cidade Perdida

Avatar de João de Queiroz
João de Queiroz
10 de novembro de 2019 3 Mins Read

Dora poster

A animação pré-escolar “Dora, a Aventureira” é uma rica fonte de chacotas para qualquer um que esteja acima da faixa etária de seu público-alvo. O caráter interativo e o clima inocente do programa rendem momentos minimamente curiosos, como as constantes quebras da quarta parede; a “cegueira” da protagonista quanto a objetos, em tese, facilmente visíveis por ela; a facilidade com a qual Dora espanta o inimigo Raposo; a exaustiva repetição das regras das brincadeiras interativas etc. Portanto, a adaptação de um desenho animado como esse para o cinema (ainda mais como um filme live action) representa uma dificuldade: afinal, como atingir um público mais amplo – que, geralmente, vê “Dora, a Aventureira” como uma grande piada –, mas sem alienar as crianças pequenas que o assistem diariamente na televisão?

A resposta encontrada pelo diretor James Bobin e pelo co-roteirista Nicholas Stoller é: faça um longa decididamente infantil, mas que tenha total consciência de seus aspectos ridículos e use isso a seu favor. De certa maneira, é uma estratégia semelhante àquela utilizada pelos mesmos realizadores ao rebootar a franquia “Muppets” há alguns anos atrás, porém os resultados de “Dora e a Cidade Perdida” são mais irregulares.

Um dos maiores motivos disso é o público-alvo mais restrito. Apesar das personagens de Jim Henson possuírem um forte apelo infantil, é inegável que, no geral, os “Muppets” são muito mais um produto “para toda a família” do que algo especificamente voltado para crianças. “Dora, a Aventureira”, por sua vez, é um desenho feito para pequenos em idade pré-escolar, sem a menor preocupação em atrair jovens e adultos. Dessa forma, o equilíbrio a ser alcançado em “Dora e a Cidade Perdida” é muito mais traiçoeiro, uma vez que dificulta bastante a expansão do público sem, ao mesmo tempo, excluir aqueles que mais terão interesse em assistir-lhe. Logo, excetuando uma referência a alucinógenos aqui e uma sátira às políticas de prevenção a massacres escolares acolá, “Dora e a Cidade Perdida” é um longa com humor bastante bobo e de pouco apelo a espectadores mais velhos.

Entretanto, os realizadores encontram algumas maneiras de, volta e meia, contornar essa questão. Seguindo uma tendência recente, “Dora…” aposta bastante na nostalgia, mesmo que não de forma tão explícita quanto outras obras. Tirando uma sequência totalmente animada, na qual é óbvia a tentativa de reavivar a memória afetiva dos espectadores, no todo, o conteúdo nostálgico do longa se dá em pequenos detalhes: a versão CGI do Raposo remete ao Coiote dos “Looney Tunes”; os desafios encontrados pelas personagens parecem versões ficcionais de provas do game show dos anos 1990, “Lendas do Templo Perdido”, entre outros exemplos.

Dora 2

Além disso, ao periodicamente fazer piada com as marcas registradas do desenho, Stoller e seu parceiro de roteiro Matthew Robinson conseguem construir a persona outsider extremamente otimista e de comportamento esquisito da Dora cinematográfica (Isabela Moner), ao mesmo tempo em que reconhecem o quão estúpida é a ideia de tentar transpor fielmente o desenho para a tela grande. Nem sempre essa estratégia funciona (as quebras da quarta parede, em particular, soam forçadas demais até como motivo cômico), mas, no geral, ela é bem-vinda (a recorrente piada com a infinidade de coisas que Dora traz em sua mochila sempre diverte).

No final das contas, tem-se a impressão de que “Dora e a Cidade Perdida” é provavelmente a melhor versão possível de uma adaptação cinematográfica do desenho. Ademais, mesmo que acabe se estendendo além do necessário e não seja necessariamente empolgante, o filme de James Bobin tem um certo charme graças à sua mitologia pseudo-arqueológica e configura um bom exemplo de representatividade no cinema mainstream, uma vez que, apesar de ser intencionalmente cartunesco, apresenta uma visão múltipla da comunidade latina. Mesmo assim, seja levando a sério ou como piada, o desenho ainda é mais divertido.


Imagens e vídeo: Divulgação/Paramount Pictures

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Tags:

CinemaDora e a Cidade PerdidaNickelodeon

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João de Queiroz

Passava tardes de final de semana na locadora. Estudou Cinema. Agora escreve sobre filmes.

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