Crítica (2): Em Ritmo de Fuga

Original e divertido: um presente para cultura pop

Quando falamos em humor inglês, pelo menos nos dias atuais, é possível citarmos uma grande quantidade de filmes que entrariam facilmente em qualquer lista. Contudo, são poucos os que realmente trazem um produto construído de forma inteligente e bem elaborada. Dentre esses, com certeza, destaca-se parte do trabalho desenvolvido pelo produtor, diretor e roteirista Edgar Wright.

O mais conhecido deles é a curiosa “Trilogia dos três sabores de cornetto” – ou, como também é chamada, “Trilogia de sangue e sorvete” – uma clara referência a famosa Trilogia das Cores (“A Liberdade é azul”, “A Igualdade é Branca” e a “Fraternidade é vermelha”) do polonês Krzysztof Kieślowski -, que nasceu de uma parceria com o também produtor e roteirista Simon Pegg (“Star Trek: Sem Fronteiras”) e conquistou os cinéfilos do mundo inteiro com um humor ácido, diálogos rápidos e personagens totalmente fora dos padrões. “Todo Mundo quase louco”, “Chumbo Grosso” e “Heróis de ressaca”, fizeram de vez o nome do diretor no mercado internacional, proporcionando-o se envolver em produções inusitadas como “Scott Pilgrim Contra o Mundo”, “Homem-Formiga” e o recém chegado aos cinemas: “Em Ritmo de Fuga”.

“Baby Driver”, título original – que por sinal é mais interessante que o brasileiro -, é simplesmente o melhor trabalho de Wright até o momento, e tem tudo para entrar para história como dos filmes mais irreverentes  dos últimos anos. Ao melhor estilo “Velozes e furiosos”, o enredo nos apresenta o ritmo frenético que envolve a vida de Baby, um jovem rapaz que sofre com um trauma de infância – um estranho zumbido que o obriga a escutar música frequentemente como forma de aliviar o tormento diário. Situação que transforma sua vida completamente, fazendo-o encontrar um compasso para cada momento. Ocasionalmente, mesmo sendo uma boa pessoa, Baby serve de piloto de fuga para o perigoso Doc, uma vez que mantém um estranha dívida com o criminoso. Contudo, sua vontade de se distanciar dos problemas é recorrente e aumenta ainda mais quando conhece Débora, um linda garçonete que sonha em ser cantora e viajar pelo mundo. Não obstante, a cada dia que passa, os planos de Baby tornam-se um pesadelo sem fim e ele percebe que sair desse meio pode não ser tão fácil quanto imaginava.

A produção, desenvolvida por nomes que fizeram da “Trilogia do Cornetto” um verdadeiro sucesso, realiza um trabalho inquestionável. Mesmo com um orçamento pequeno, aos olhos do mercado americano, os produtores conseguem desenvolver um filme de grandes proporções, capaz de colocar muito blockbuster no chinelo.

Escrito e dirigido por Edgar Wright, “Em ritmo de fuga” é um verdadeiro presente para cultura pop, um primor que chega na hora certa, literalmente, como música para os ouvidos. De forma competente, o roteirista soube desenrolar a narrativa manipulando diferentes gêneros sem se deixar seduzir por clichês desnecessários e/ou caricaturas vazias criadas para preencher o espaço. Os diálogos acelerados, aqui praticados no estilo ping-pong, funcionam perfeitamente para os personagens e sua características. Enquanto as referências utilizadas, acabam sendo um ponto chave para o desenrolar da história que bebe em inúmeras produções.

Como diretor, Wright também prova que sabe muito bem o que está fazendo. Desde o excelente trabalho realizado com os atores, até a detalhada decupagem que oferece enquadramentos que dialoga plenamente com o carrossel de emoções vivido pelo protagonista. Tudo é arquitetado com elegância, seguindo a batida de cada cena, como de um coração, até um vertiginoso e instigante final.

Com um elenco afiado, cheio de estrelas do calibre de Kevin Spacey, Jamie Foxx e Jon Hamm, é interessante vermos o show vindo do trabalho do ótimo Ansel Elgort, em um performance cheia de sagacidade, e a talentosa Lily James que rouba várias cenas em que aparece. Uma tristeza é não terem usufruído corretamente de Jon Bernthal, que revelou um personagem formidável no início da projeção. Eiza González é outra que poderia ser melhor aproveitada, mas fica perdida dentre os demais.

A belíssima fotografia de Bill Pope, o mesmo que assinou a “Trilogia Matrix” e “Mogli – O menino lobo”é um incontestável deleite visual. Totalmente trabalhada em paletas de cores quentes, somos convidados a adentrar o particular da personagem principal, a singularidade que existe através dos fones de ouvido, e isso torna o filme ainda mais envolvente. Os únicos momentos em que o fotógrafo foge dessa vivacidade apreciada por “Baby”, é quando ele se encontra próximo da criminalidade. Ali, temos uma fotografia um pouco mais obscura, escancarando a tristeza que afeta o seu estado emocional.

A direção de arte de Nigel Churcher (“Homem-Formiga”) e Justin O’Neal Miller (“O Contador”), bem como o figurino de Courtney Hoffman (“Django Livre”), são outros dois pontos altos do filme e trazem um estilo retrô fundamental à trama.

O mesmo acontece com a excepcional trilha sonora desenvolvida pelo premiado Steven Price, responsável por “Gravidade” e “Esquadrão Suicida”. Funcionando como um personagem a parte, entre trilhas e canções, somos lançados a desfrutar de caminhos que navegam por diferentes ritmos musicais. Em um segundo estamos curtindo um blues com a personagem, quando somos forçados a apreciar um eletrônico ou um clássico do Rock – tudo de acordo com o seu movimento, com o próximo passo dado por ela. Algo que torna o filme ainda mais intenso, vivo.

“Em Ritmo de Fuga” chega como um alívio depois de uma infinidade de produções sufocantes e repetitivas. É um trabalho engenhoso, extremamente bem montado e totalmente divertido. Merece ser visto diversas vezes.

Crítica (2): Em Ritmo de Fuga
8.5Pontuação geral
Produção9
Roteiro8.5
Direção8.5
Fotografia8.5
Direção de arte8.5
Figurino8.5
Elenco8
Trilha sonora9
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