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Crítica

Crítica (2): Uma Espécie de Família

Por trás do para-brisa de um carro, Malena chora. Como se secasse suas lágrimas, o limpador escoa a forte chuva de Buenos Aires. Os misteriosos momentos iniciais de “Uma Espécie de Família” (Una especie de familia, 2017), mais recente co-produção Brasil-Argentina, pouco antecipam a respeito do enredo. Ao contrário, levantam muitas questões, gradualmente esclarecidas – ou deixadas em suspensão – pelo roteiro da dupla Diego Lerman e María Meira – a mesma de “Refugiado” (idem, 2014) e Olhar Invisível” (La mirada invisible, 2010).

Na trama, Malena (Bárbara Lennie), uma médica de 38 anos, recebe um telefonema do obstetra Dr. Costas (Daniel Aráoz). Seguindo sua solicitação, ela viaja para Misiones, província do nordeste argentino, com o objetivo de acompanhar o nascimento de um menino. A jornada, no entanto, aos poucos se revela o início de um processo ilegal de adoção. Limites jurídicos e morais colocam-se, então, entre a personagem e o seu sonho de maternidade.

Sempre em cena, a hispano-argentina Bárbara Lennie (A Garota de Fogo) nunca foge à responsabilidade de conduzir o filme. Sua intensa performance ajuda a construir uma complexa protagonista, cujo arco de transformação parte de uma desilusão inicial para alcançar, por fim, o desespero total. Essa perceptível mudança, canalizada com habilidade pela atriz, decorre da inserção de sua personagem em uma lógica burocrática e corrupta, sucessivamente desvelada ao espectador. Contracenando com ela, a estreante Yanina Ávila não fica para trás e se destaca no papel de Marcela, a mãe biológica da criança. Por meio de sua comovente atuação, a novata encarna com vigor o sofrimento de uma classe à mercê dos mais abastados, alheia até mesmo às próprias vontades. Como sentencia um diálogo entre as duas, afinal, “quem tem dinheiro fica com tudo”.

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Para marcar visualmente esse profundo contraste, o fotógrafo polonês Wojciech Staron (O Muro), documentarista de formação, aguça o olhar e identifica elementos conflitantes dentro de um universo verossímil e reconhecível. Dessa forma, suas lentes capturam com frequência Malena dentro de seu carro, como em um road movie, enquanto ela dirige por uma região predominantemente agrária. O automóvel, signo de sua vida urbana, invade o ambiente rural de Marcela e reforça, assim, as diferenças entre ambas. Essas dissociações manifestam-se com maior clareza no plano final. Com um long shot, Staron situa o veículo discretamente no canto esquerdo do quadro, rodeado por um vasto cenário de extrema miséria.

Ainda que a classe social afaste radicalmente as personagens, elas aproximam-se, contudo, em igual medida pela condição comum de mulheres em conjunturas machistas. Malena, de um lado, se vê cada vez mais isolada diante da recusa do marido, Mariano (Claudio Tolcachir), em viajar para auxiliá-la com o processo de adoção. Já Marcela, de outro, perde qualquer poder de escolha, até mesmo sobre o próprio corpo, quando precisa se desfazer de seu bebê em troca de compensações financeiras para a família. Entendendo esses diferentes níveis de opressão aos quais as protagonistas estão sujeitas, o roteiro de Lerman e Meira evita simplismos e ganha novas camadas.

Apesar de uma malograda metáfora bíblica no meio do caminho, o também diretor Diego Lerman conduz, durante a maior parte do tempo, um filme simples, porém eficaz. Como resultado, “Uma Espécie de Família”, eleito pelo júri o melhor argumento do Festival de San Sebastián de 2017, recebeu, ainda, oito indicações ao Prêmio Sur, entregue no próximo dia 28 pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas da Argentina (AACCA). Trata-se, enfim, de um multifacetado retrato das adoções ilegais em Misiones, tema urgente e atual.

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* O filme estreia dia 8 de março, quinta-feira.

 

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Carioca de 25 anos. Doutorando e Mestre em Comunicação e Bacharel em Cinema pela PUC-Rio.

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