Não é possível afirmar que o diretor Richard Linklater entenda plenamente de sentimentos humanos, ou mesmo que ele tenha, para si, uma concepção fechada daquilo que eles significam. Contudo, é fato que ele, através de sua filmografia, procura respostas para essas perguntas. “A Melhor Escolha” confirma isso com contundência, analisando relações humanas e suas mudanças pelas décadas, ao lado de como indivíduos se transformam, para o bem ou para o mal, concomitantemente. Se “Boyhood” procurava fazer o estudo de um indivíduo específico com verossimilhança, seu novo filme faz isso com um grupo de amigos, veteranos de guerra americanos.
O do roteiro é neles três, companheiros que passam um longo período de tempo sem terem contato. Dada a morte do filho e da mulher de um deles, apelidado de “Doc” (Steve Carell), o mesmo busca seus velhos amigos para encontrar forças nesse difícil momento de sua vida. O que a princípio seria um drama tenso acaba por surpreender com toques de comédia. Ainda existe um contexto de forte melancolia, mas a forma com a qual os protagonistas interagem, diferem-se entre si e tem seu próprio arco narrativo balanceia isso, diminuindo a chance do longa de cair para o melodrama excessivo. É nisso, portanto, que o filme tem sua maior força, que se expressa pelos diálogos espontâneos e orgânicos que são entregues, dignos de verdadeiros amigos que se conhecem há muito tempo. O elenco funciona de forma ótima, estando os atores isolados ou interagindo entre eles.

Outro ponto positivo do roteiro é a característica de road movie que ele adquire logo que entra no segundo ato. Esse estilo talvez seja um dos mais adequados para fazer o que “A Melhor Escolha” pretende, ao manter o foco em três homens e tentar entendê-los. É uma decisão que se dá de forma eficiente, mas que encontra problemas por ser um pouco inchada. Em outro momento, sentimos algumas cenas descoladas, ou mesmo que a narrativa não avança. Certamente que o grau de funcionamento do tom da obra se beneficiaria se ela se desse de forma mais contida, levemente simplificada.
Já a fotografia é bem sóbria, apostado em tons de marrom, bege, cinza e cores neutras. Também é uma paleta de cores que vemos no figurino, e combina também com a discreta direção que Linklater nos dá. São aspectos técnicos que estão aqui de forma funcional, mas que não se sobressaem por si só durante a projeção. Se há algo nessa linha para ressaltar, é o pontuado uso de música folk americana, coerente com o que é estabelecido pela viagem dos personagens pelos EUA.
O que é mais problemático em “A Melhor Escolha” é a mensagem que é passada e como ela é passada. No início, é bem fácil identificar uma crítica ácida ao militarismo americano e ao próprio governo dos Estados Unidos durante a década de 2000, principalmente em sua política externa no Oriente Médio. Paralelos entre a Guerra do Vietnã e a Guerra do Golfo, tal qual a invasão ao Iraque são feitos a todo momento entre personagens que são mais velhos com os mais novos. O papel interpretado por Bryan Craston explicita isso por diálogos também, muitas vezes feitos de forma agressiva, e é essa que parece a mensagem passada pelos realizadores. Ocorre que, durante as últimas cenas do filme isso é subvertido, onde vemos uma espécie de condenação, traição daquilo que tinha sido concebido. Não apenas cria-se uma lição de carga moralista pesada como é algo que vem do nada, a partir de um fraco recurso de roteiro. Esse fator empobrece a obra e enfraquece aquilo que estava sendo pregado até então.
Por fim, “A Melhor Escolha” consegue, de todo modo, ser divertido e comovente na medida certa. Conseguimos entender e nos afeiçoar aos personagens, que acompanhamos muito próximos. Existem problemas significativos, mas eles não apagam de forma completa os méritos que também nos são apresentados.

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