Quando a Netflix começou a produzir conteúdo original, pareceu que a marca se tornaria um tipo de selo de qualidade, já que além do sucesso de suas séries, filmes como “Beasts of No Nation” (2015) e “Okja” (2017) foram aclamados pela crítica e pelo público. Essa impressão, porém, não durou por muito tempo, já que recentemente a empresa parece ter emplacado uma sequência de longas de qualidade questionável: Death Note (2017), “Bright(2017), “Vende-Se Esta Casa(2017) e “The Cloverfield Paradox(2018), para mencionar alguns. Se encaixando nessa última categoria, está “Mudo”, uma produção ambiciosa, mas que morde mais do que consegue engolir.

A trama se passa em Berlim de um futuro não muito distante e segue Leo (Alexander Skarsgard), um bartender que, quando criança, sofreu um acidente que o deixou mudo, graças à recusa da mãe em fazer uma cirurgia por causa de sua religião. Quando Naadirah (Seyneb Saleh), sua namorada, desaparece da noite para o dia, o barman deve seguir as dicas que encontrar para descobrir o que aconteceu com ela. Ao mesmo tempo, Cactus Bill (Paul Rudd), um soldado americano desertor que virou cirurgião da máfia local, tenta conseguir novas identidades para conseguir sair do país sem ser recapturado pelo exército que abandonou. Essas duas histórias são desenvolvidas separadas e eventualmente se convergem em uma só narrativa.

O que mais chama atenção no início do longa é a sua ambientação em um universo cyberpunk, que é construído através do ótimo trabalho de fotografia de Gary Shaw e de um design de produção coeso. Esses aspectos, porém, têm um referencial tão claro em “Blade Runner” (1982) que é difícil enxergá-los como algo além de uma homenagem ou recriação, faltando uma personalidade própria para o filme.

O trabalho de design é bem representado por diversos produtos tecnológicos “inovadores” (alguns que fazem sentido, outros que nem tanto) e enquanto os seus efeitos visuais são decentes na maior parte do filme, existem algumas cenas onde a computação gráfica é evidente. Além disso, todo esse ângulo futurista não parece afetar a história em momento nenhum, que poderia seguir exatamente a mesma se acontecesse no presente, tornando todo o cyberpunk bem gratuito e supérfluo. Não é de surpreender que, de acordo com o diretor e escritor Duncan Jones, o roteiro originalmente era uma história contemporânea, já que parece que muito pouco foi feito para adaptá-lo a sua nova premissa.

Essa ambientação dispensável não é o único problema com o script, que sofre com diversas outras inconsistências, que incluem pontos da trama que não levam a nada, personagens inúteis e, o mais grave, um mistério sem graça e sem aspecto de urgência. Nenhum suspense é construído com o desaparecimento de Naadirah e nem é perceptível que algo está errado até o protagonista começar a chutar portas mostrando fotos da namorada.

O sentimento de desorientação também é compartilhado pela direção confusa e pela montagem redundante. Atrás da câmeras, Jones toma boas decisões, como a apresentação sutil do personagem através de planos detalhes de seu quarto, mas mesmo assim não consegue manter a história interessante. Batendo em 126 minutos, o longa tem um ritmo lento e uma conclusão que se arrasta por meia hora a mais do que deveria.

Já a montagem parece ter sido feita com o intuito de lembrar uma audiência que não presta muita atenção do que ela está assistindo. Flashbacks desnecessários são a norma, além das muitas sequências repetitivas que apenas regurgitam informação que o espectador já sabe. A primeira coisa que o filme faz é mostrar o acidente do protagonista e o porquê de não ter feito a cirurgia, e na cena seguinte tem um diálogo de Naadirah explicando exatamente a mesma coisa para um amigo.

Isso tudo, porém, não são os piores aspectos da produção. Essa honra vai para os seus personagens. A ideia de fazer um protagonista mudo pode funcionar muito bem quando feita de maneira correta (vide o vencedor do Oscar,A Forma Da Água”), mas em “Mudo” isso só provoca uma falta de caracterização inigualável, e nem Alexander Skarsgard consegue salvar Leo de ser uma caricatura inexpressiva. “Ele não precisa de palavras” diz a frase que acompanha o pôster, mas o longa demonstra o contrário, já que sem elas, Leo não tem personalidade alguma.

É bizarro como os vilões têm muito mais dimensão do que seu protagonista, o que é acentuado pelas atuações de Paul Rudd e de Justin Theroux (esse último cujo personagem é pedófilo, só para deixar a experiência de assistir o filme mais desconfortável). A dupla consegue fazer os personagens de Cactus Bill e Duck funcionarem até certo ponto, mas a tarefa é difícil com um roteiro em que uma ameaça de morte é seguida de um convite para ir ao bar.

Mudo” é, ironicamente, um filme que não diz muito. Com um roteiro que precisava de mais duas ou três revisões, um protagonista entediante e uma atmosfera que, apesar de bem feita, lembra tantoBlade Runner” que chega a distrair, o longa é mais uma aposta errada da Netflix.


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Oswaldo Marchi

Publicitário formado no Rio de Janeiro, tem mais hobbies e ideias do que consegue administrar. Apaixonado por cinema e música, com um foco em filmes de terror trash e bandas de heavy metal obscuras. Atualmente também fala das trasheiras que assiste em seu canal do Youtube, "Trasheira Violenta".

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