Considerada uma das maiores atrizes brasileiras, Tônia Carrero deixa saudade e a memória de viver grandes mulheres

Nascida e criada na zona sul carioca, Maria Antonieta Portocarrero Thedimapesar da formação em educação física, estudou interpretação na França para se dedicar ao seu maior desejo: se tornar atriz. Em seu retorno ao Brasil, em 1947, aos 25 anos, estrelou seu primeiro filme, “Querida Suzana”, de Alberto Pieralise. Em 1949, estreou no Teatro Brasileiro de Comédia (TBC), em São Paulo, com a peça “Um Deus Dormiu Lá em Casa”, onde teve como parceiro o ator Paulo Autran. Estrelou inúmeras peças do TBC nos anos seguintes ao mesmo tempo em que chamava atenção do mundo cinematográfico. A convite do empresário Franco Zampari, ela integra a Cia Cinematográfica Vera Cruz, da qual se tornou um dos rostos mais conhecidos. Foi protagonista de “Apassionata” (1952), de Fernando de Barros; “Tico-tico no Fubá” (1952), de Adolfo Celi e “É Proibido Beijar” (1954), de Ugo Lombardi.

A década de 1960 foi agitada para Tônia. Em 1967, ela deu adeus às personagens elegantes e viveu a prostituta Neuza Suely ao lado de Emiliano Queiroz e Nelson Xavier em “Navalha na Carne”, de Plínio Marcos, dirigida por Fauzi Arapi. A montagem é um marco em sua carreira por ter mexido com a ditadura militar vigente na época. Em 1969, recebeu um convite do autor Vicente Sesso, para fazer “Sangue do Meu Sangue”, dirigida por Sérgio Britto, ao lado de Fernanda Montenegro e Francisco Cuoco. Em 1979, foi dirigida por Antunes Filho no espetáculo “Quem Tem Medo de Virgínia Wolf”, de Edward Albee.

Tônia em “Navalha na Carne” (1979), dirigida por Fauzi Arap

Um papel definitivo em sua carreira foi o da socialite Stella Simpson de “Água  Viva”, novela de Gilberto Braga. A personagem sacudiu o conservadorismo na época numa cena em que fazia topless na praia – Se até hoje vemos represália sobre o assunto, imagina lá no anos 1980 – Década em que Tônia voltou a trabalhar com Gilberto Braga em “Louco amor” e que também deu vida a Rebeca de “Sassaricando” – “Haja Coração” foi baseada nessa mesma novela e Malu Mader foi quem interpretou Rebeca.

Na pele da socialite Stella Fraga Simpson, em “Água Viva” (1980), de Gilberto Braga

Sua última novela foi “Senhora do Destino” (2004), de Aguinaldo Silva, na qual fez uma participação especial logo no início. No cinema, sua última aparição foi em “Chega de Saudade”, dirigido por Laís Bodanzky em 2008. Além disso, foi a grande homenageada do Prêmio Shell do mesmo ano e atuou no teatro pela última vez no ano anterior, em “Um Barco Para o Sonho”, de Alexei Arbuzov, peça produzida pelo filho, Cécil Thiré, e dirigida pelo neto, Carlos Thiré.

Numa época que ser atriz, por si só já era um ato revolucionário, Tônia Carrero se destacou por militar pelo o que acreditava. Ela estava sempre à frente, contra o regime militar e a censura. Em 1968 estava no front da Passeata do Cem Mil, nas escadarias do Teatro Municipal, ao lado de guerreiras como Leila Diniz, Eva Wilma, Norma Bengell, Odete Lara e Cacilda Becker.  O meio artístico não perde apenas uma diva, um símbolo da beleza e uma grande artista, perde também um exemplo de mulher para todos que zelam pelo direito de se ser por inteiro. Debruçar-se de corpo e alma sobre o que acredita e o que mais se quer. 

Tônia Carrero teve uma carreira magnífica, pois esteve no elenco de 54 peças, 19 filmes e 15 novelas. Tamanha sua dedicação à profissão que serviu de inspiração para os membros da família que também se aventuraram na arte. Foi mãe de Cecil Thiré, avó de Miguel e Luísa Thiré e bisavó de Vítor Thiré, todos atores também. Todos cheios de talentos.


Por Rayza Noiá