Uma corrida contra o tempo para concluir a volta ao mundo em prazo curto.

Fíleas Fogg é uma pessoa fria e racional. O exemplo perfeito do inglês pontual. Em uma conversa com amigos do jogo, comenta-se que um jornal definiu que em apenas oitenta dias pode-se percorrer a volta completa ao globo. Fíleas aposta sua fortuna de que completará o circuito no tempo previsto, ou até menos, para provar que uma pessoa organizada e pontual é capaz de superar os erros imprevistos que surgem ao longo da viagem. Ele segue em viagem acompanhada de seu recém-contratado criado, João Fura-Vidas (ou, em algumas versões, Jean Passpartout).

“A Volta ao Mundo em 80 Dias” disputa com “Vinte Mil Léguas Submarinas” o posto de livro de maior popularidade do autor. Já foi várias vezes transposto para o cinema. Essa popularidade se deve a dois fatores: a leveza da narrativa e a criatividade impressionante que o autor demonstra tanto para colocar obstáculos aos personagens como para criar soluções a estes empecilhos. Neste livro Verne praticamente abandona a inserção de definições e debates científicos e foca simplesmente na descrição de uma viagem juvenil empolgante e repleta de reviravoltas.

“Os grandes ladrões parecem sempre homens honrados. Bem deve compreender que aos que tiverem cara de tratante não resta outro partido senão ficarem pobres, pois de outro modo logo seriam presos. As caras honradas são as que devem principalmente ser desmascaradas.” p. 40 cap. 6

A história simples, que permite leitura rápida, alcança o público que não se sente à vontade com ficção científica, e esse ponto foi a causa da imensa distribuição que o livro teve no mundo todo, aliada à narrativa direta, pouco descritiva e muitas passagens de humor. Esse estilo leve de escrita lembra o livro Viagem ao Centro da Terra, que também tinha boa dose de humor, acima do que Verne costuma colocar em seus textos.

Imagem: Divulgação/Julio Verne/A Volta ao mundo em 80 dias

Verne usa o personagem Fíleas Fogg como exemplo de que a paz de espírito, mesmo nas ocasiões mais conflitantes, é o caminho para se superar obstáculos por meio da pura racionalidade. É um pouco do lado científico do autor que povoa a história em suas entrelinhas. E por mencionar a ciência, o final do livro tem resolução a partir de um conceito científico e é genial, digno apenas de um escritor do nível de Verne.

“Fura-Vidas, como celibatário, olhava com certo espanto aquelas mórmons encarregadas de fazer a felicidade de um só mórmon [polígamo] e compadecia-se do marido. Parecia-lhe coisa terrível ter que guiar tantas mulheres pelas vicissitudes da vida e conduzi-las assim em multidão ao paraíso mórmon, com a perspectiva de aí tornar a encontrá-las na eternidade, em companhia do glorioso Smith [fundador da religião], que devia adornar com a sua presença aquele lugar de delícias.” p. 189 cap 27

O contraste entre as culturas locais, tão visíveis a um viajante que percorre rapidamente o globo, é um dos pontos importantes do livro. O autor descreve rapidamente como existem diferenças arquitetônicas e religiosas principalmente entre a Índia, China, Japão e EUA. Perceber e comparar estas diferenças são um dos pontos altos do livro.

Ainda no tema cultural, pode-se notar uma pequena depreciação da cultura indiana quando da passagem dos personagens por este país.  Parte da população é descrita como idólatra e praticante de sacrifícios humanos. Provavelmente esta visão que Verne inseriu foi influenciada pelas narrativas dos ingleses, que colonizavam o país indiano na ocasião, e que propagavam na Europa as ideias de que os indianos tinham práticas selvagens.

Por outro lado, o autor volta a criticar a colonização inglesa, como havia feito em livros anteriores. Desta vez a crítica vem na atuação dos ingleses em Hong Kong, onde os colonizadores viciaram os chineses em ópio e o governo chinês tentava, em vão, libertar sua população cujos indivíduos morriam em cinco anos por consequência do uso da droga.

“Fura-Vidas, recuperando sua antiga habilidade de ginasta, avançava por debaixo dos vagões, agarrando-se às correntes, apoiando-se nas alavancas dos freios, rastejando de um vagão para o outro com maravilhosa facilidade. Depressa chegou à locomotiva, sem que ninguém percebesse a sua manobra.” p. 205-206 cap 29

Um detalhe curioso é que a “Linha Estrela Branca” é mencionada no capítulo 32, quando Fíleas Fogg procura por uma embarcação que o transporte dos EUA para a Europa. Esta empresa realmente existiu e, cerca de quarenta anos depois operaria o Titanic em sua única viagem.

É importante, sobre os livros de Verne, não ler as versões adaptadas, infanto-juvenis. Leia apenas as traduções baseadas no texto original, sem alterações. Neste quesito, as impressões da editora Matos Peixoto, da década de 1960 e 1970 são imbatíveis.


Texto: Henrique Zimmermann

Resenha: A Volta ao Mundo em 80 Dias, de Júlio Verne
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