12 de dezembro de 2019

Com um modo peculiar de contar a história, Michael Crichton desenvolve o enredo de “Jurassic Park” com uma grande introdução que nos cerca de um mistério subtendido à existência do Parque dos Dinossauros, por meio de acontecimentos inerentes, a história nos guia por uma linha tênue que desencadeia o caos.

“Jurassic Park” não é apenas um livro sobre dinossauros, ele na verdade usa o tema sabidamente amado por Crichton para expor um a questão essencial à época em que a história se passa: a ética da até então recém explosão da engenharia genética.

Como o próprio autor afirma, esse é o maior poder que o homem obtinha em mãos naquele momento e parafraseando Ian Malcolm, “… manipulam esse poder com uma criança que encontra a arma do pai.”. E é, dessa forma, que a história é contada, nos mostrando que a falta de amor e de responsabilidade pelo curso natural das coisas leva a própria destruição e coloca em perigo aquilo que se ama, trazendo uma reflexão entre o poder e o dever de fazer algo.

De imediato, no primeiro capítulo, o livro nos recheia de detalhes sobre as características que carregam os dinossauros mesmo sem mostrá-lo ou sitá-los. Fala-se na saliva, no cheiro, o que aquilo causam (sua saliva tóxico como veneno). Dessa forma, a história abre um caminho com fatos anexos que levam a história principal até que chegamos ao “Jurassic Park”.

Existe nas primeiras cem páginas bastante explicações e amarração da história, mesmo sendo os principais fatos desconhecidos até esse ponto pelos personagens principais. E de uma forma que talvez seja proposital (ou não), Crichton  nos desenrola a primeira metade da história sem massificar os personagens que mais na frente assumem o protagonismo.

Mas e após isso que a trama ganha seus melhores contornos, tanto científico, quanto como thriller de suspense. A ilha Nublar se mostrar deslumbrante a primeiro momento. Os personagens protagonistas começam a ganhar mais personalidade quando Allan Grant, Ellie Sattler e Ian Malcolm já apresentados expõem diálogos muito bem trabalhados e se relacionam entre si, assim como o excêntrico John Hammond (aqui bem diferente e mais perverso que o velhinho que vemos no filme de Steven Spielberg). O melhor parte do livro, por sua vez, se dá nos diálogos entre Sattler e Malcolm, e também nos diálogos entre Malcolm e John Hammond. Sendo Malcolm o personagem mais rico da história e conhecidamente, sendo ele a personificação do próprio Crichton.

“Porque a história da evolução é de que a vida escapa a todas as barreiras. A vida se liberta. A vida se expande para novos territórios. Dolorosamente, talvez até perigosamente. Mas a vida encontra um jeito.”

Nesse ponto, ganhamos primeiro com uma visão geral e rica de detalhes da Ilha Nublar. As formas da ilha vulcânica se desenham na cabeça enquanto lemos as palavras de Michael. Com excesso de detalhe nas descrições, ele apresenta os ambientes internos e externos das instalações, e utilizando-se de gráficos e arquivos no meio da história ele nos mostra como é feito o controle daquele ambiente e dos seus animais.

Nesse ponto, a história se desenvolve de forma linear por um determinado período com todos os personagens em um mesmo ambiente. Mas isso muda quando chegamos a parte de ação incisiva, quando os problemas causados por Dennis Nedry deixam todos na ilha em perigo e os dinossauros a solta. O caos montado por Crichton, e explicado a todo momento no livro pelo personagem Ian Malcolm, vem a tona.

Dessa forma, as coisas começam a dar errado, existe um clima de tensão e ação inserido no perigo iminente dos dinossauros a solta, mas correlacionado a isso, temos uma série de ações equívocas cometidos por humanos. Crichton, equilibra-se entre contar a história fictícia e trazer um realismo para aquilo que está escrito. Dessa forma, parece extremamente possível para quem lê que aquilo realmente possa ser  real, o que nos faz viajar na leitura.

“A ciência, como qualquer outro sistema fora de moda, está se destruindo. Conforme adquire mais poder, mais se mostra incapaz de lidar com esse poder. Porque as coisas estão acontecendo muito depressa atualmente. Há 50 anos, todos ficaram de queixo caído por causa da bomba atômica. Aquilo sim era poder. Ninguém poderia imaginar algo além dela. No entanto, menos de uma década depois da bomba, começamos a ter poder genético. E o poder genético é muito mais potente que o poder atômico. E estará ao alcance de todos.”

Imagem: Divulgação/Editora Aleph

O personagem de Grant, nesse ponto se torna mais participativo e é aquele que possui mais contato durante todo o livro com os dinossauros. Nesse caso, Crichton de forma certeira coloca o personagem que é paleontólogo para explicar e dar todos os detalhes sobre as espécies. Um facilitador para trazer aspectos científicos, que funciona bem e em momento algum fica descarado na história. em contraponto temos as duas crianças, Lex e Tim, que servem como motivar e atrasar o personagem de Grant durante a história.

Momentos de tensões e mortes com bastante detalhes dividem o trecho mais próximo ao fim do livro, com um pouco mais de ação incisiva que leva a um ápice. Entretanto, diferente dos cinemas não é aí que a história acaba. O livro mantendo um viés realístico, busca uma solução para os pontos soltos dando um final.

Por fim, Crichton, nos entrega não só um livro sobre dinossauro, ele nos entrega também uma discussão sensível sobre o poder da genética e como isso é manipulado ou mais precisamente era manipulado pelo homem. Extremamente superior e com uma enorme riqueza de detalhes que nem se comparam ao filme, “Parque dos Dinossauros” (“Jurassic Park”) é uma obra literária que merece ser lida, mas não apenas pelos fãs do longa de Steven Spielberg e sim por todos que gostam de um bom livro e ficção cientifica.

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Dan Andrade

Cursando Produção Cultural atualmente, sempre foi apaixonado por cinema e decidiu que de alguma forma trabalharia com isso. Tendo como inspiração Steven Spielberg e suas histórias que marcaram gerações, escreve, assiste, lê e aprende, para um dia produzir coisas tão grandes e que inspirem pessoas como um dia ele o inspirou.

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1 thought on “Resenha: Jurassic Park, de Michael Crichton

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