Em seu derradeiro show no festival, a lendária banda brasileira recusa a nostalgia fácil da era Cavalera, enfrenta a tempestade carioca com foco na fase Derrick Green e encerra sua trajetória na Cidade do Rock com integridade intacta
A história de amor e ruído entre o Sepultura e o Rock in Rio começou em 1991, quando os quatro jovens mineiros, ainda liderados pelos irmãos Max e Igor Cavalera, invadiram a segunda edição do festival no Maracanã e finalmente conquistaram, enfim, o público brasileiro, no dia reservado ao metal naquele ano.
A banda já desfrutava de status na cena internacional, mas, em seu país natal, eram meros desconhecidos. Trinta e cinco anos e oito edições depois — transitando com a mesma autoridade pelo Rio de Janeiro, Lisboa e Las Vegas —, a banda retornou ao Palco Mundo neste sábado (5) para a sua nona e derradeira apresentação no evento. Contudo, o ar da Cidade do Rock trazia um peso diferente: a certeza solene de que um capítulo histórico da cultura pop nacional chegava ao seu epílogo.
O show integra o trecho final da turnê Celebrating Life Through Death, um giro de despedida programado para encerrar em definitivo as atividades do grupo em novembro, em São Paulo.
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Um encontro histórico que chega ao fim

Diferente de tantos dinossauros do rock que perambulam pelos palcos arrastando a sombra do que já foram, o Sepultura não se despede por decadência técnica ou incapacidade física. Quem assistiu à abertura dos trabalhos no palco principal testemunhou um quarteto operando em um nível de precisão cirúrgica e agressividade visceral. Se houvesse qualquer dúvida sobre a saúde criativa da banda, o EP recente The Cloud of Unknowing encarrega-se de sepultá-la.
O trabalho explora linguagens densas e até momentos contemplativos, como a surpreendente “Beyond the Dream” — faixa de vocais limpos que abriga, com folga, um dos solos mais inspirados e líricos da carreira de Andreas Kisser. Ao incluir este e outros temas recentes como “Sacred Book” no repertório, o grupo provou que recusou o papel de virar sua própria banda tributo.
Despedida sem sinais de decadência
Cabe observar que a banda merecia um destaque maior no dia do metal, afinal, além de ser uma instituição do som pesado brasileiro, essa é a última dança, tanto no festival, quanto do Rio de Janeiro. Deixá-los abrindo o Palco Mundo, com dia claro, público ainda chegando, iluminação e tempo limitados, foi injusto. Não seria nada descabido colocá-los como headliners (nem que fosse no Sunset). Diante de um relógio inflexível que concedia apenas uma hora para resumir mais de quatro décadas de trajetória, o quarteto tomou uma decisão conceitual de enorme coragem.
Em vez de apelar para o conforto garantido dos hinos imortais da era Cavalera — deixando de fora pedras fundamentais como “Refuse/Resist”, “Territory” e “Roots Bloody Roots” —, Kisser, Derrick Green, Paulo Jr. e o jovem prodígio da bateria Greyson Nekrutman optaram por valorizar os 28 anos da fase liderada por Green. A escolha deu tom de justiça histórica ao repertório, reafirmando que a identidade do Sepultura nas últimas três décadas foi erguida com o suor e o peso da voz do frontman americano.
Uma escolha corajosa no repertório

Essa entrega artística impecável, no entanto, travou uma batalha ingrata contra as intempéries. Sob uma chuva miúda (porém insistente e incômoda) que transformou a área do festival em um ambiente hostil, a maior parte do público permaneceu encolhida sob capas de plástico, travando a expansão da energia que vinha das caixas de som. Ainda que o núcleo duro de fãs abrisse mosh pits vistosos e acendesse sinalizadores de fumaça vermelha nas faixas mais velozes, a apatia de uma plateia encharcada impediu a catarse total. Mesmo quando Andreas convocou a multidão a unir as rodas antes de “Corrupted”, o máximo que se viu foram movimentos contidos em meio ao desconforto do clima carioca.
Fins de ciclo carregam uma melancolia inevitável, mas a atitude do Sepultura impõe respeito. No mercado contemporâneo, saturado por falsas aposentadorias e reuniões motivadas unicamente pelo ganho financeiro, escolher desligar os amplificadores enquanto ainda se é capaz de fazer o chão tremer é um ato de pura integridade. Ao recusar o caminho fácil da nostalgia, o Sepultura deixa o Rock in Rio de cabeça erguida, lembrando ao mundo que a verdadeira grandeza de uma lenda também se mede pela coragem de saber a hora exata de parar.
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Setlist Sepultura
- Against
- Choke
- All Souls Rising
- Kairos
- Means to an End
- The Place
- Phantom Self
- Convicted in Life
- Sacred Books
- Mind War
- Corrupted
- Beyond the Dream
- Sepulnation
- Sepultura
Sepultura | Imagem destacada: Divulgação/Rock in Rio (Crédito: @MorivaFilmes/@VansBumbeers)


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