13 de dezembro de 2019

No atual contexto em que nos encontramos, com ocupações massivas e discussões a respeito de Leis de incentivo fiscal, muitas vezes propagadas por líderes religiosos, a forma que se opõe ao poder seria uma coisa mínima mas ainda permanente, já que ela fica, sendo ou não atemporal. Porém, ainda há os que criam a ilusão de que ela é uma inutilidade separando a cultura do âmbito da educação não percebendo o quão contraditório é afirmar essa inutilidade quando assistimos a um show (mesmo que grátis), vamos ao cinema ou nos admiramos com os grafites espalhados pelos muros da cidade.

Baseado nisso, não posso deixar de fazer referência a dois filmes que a meu ver se encaixam muito bem na nossa sociedade contemporânea carregada de valores fragmentados que disputam um espaço na vida cotidiana do cidadão.

A laranja mecânica, filme do diretor norte-americano Stanley Kubrick, gravado nos anos 70, deriva do livro de Anthony Burgesss, escritor britânico, escrito nos anos 60. Em um cenário futurista para a época e bastante atual para os pós-modernos hoje, a violência “rola solta” e a malícia e o desejo de levar vantagem são tratados de forma poética ao som da nona sinfonia de Beethoven. Assim como a hipocrisia dos políticos ali apresentados de diversas correntes. Tanto os patrocinadores do “tratamento ludovico”, a terapia de ocasião apresentada na trama que cura e transforma psicopatas e sociopatas em “cidadãos de bem” como os que antes defendiam o livre arbítrio do protagonista que quando encontram a oportunidade de se vingarem do antes carrasco, Alex, assim o fazem. Apesar do período em que foi lançado o filme, parece que a lógica do individualismo, hedonismo e do oportunismo, tão marcante e presente hoje ainda gera as mesmas discussões.

O livro abre com Alex fazendo a pergunta:

– Qual vai ser o programa, hein?

Já no filme, ele entra em primeiro plano nos encarando de forma insolente.

Mas a sua arrogância não nos deixa ter antipatia por ele. A princípio, ele é um monstro. Mas a ironia do filme (assim como no livro) é assegurar a tão discutida liberdade dentro da sociedade. E como o Estado está presente na vida de todos não importando em qual lado joga.

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Já no Pagador de promessas, filme de 1962, dirigido e escrito por Anselmo Duarte e baseado na obra do aclamado dramaturgo Dias Gomes, a excelente movimentação de atores, trabalha com contundência as raízes afro-brasileiras e expressa o sincretismo religioso das duas religiões que antes faziam parte da maioria dos brasileiros. O pagador transcende a intransigência religiosa e,  na verdade, o filme retrata a própria intransigência generalizada e o reflexo das lutas em toda a América Latina que ocorriam naquele momento, tratando de encontrar um novo modelo político-social que resolvesse as dificuldades existentes. Nessa luta árdua do cristianismo, seja por correntes evangélicas contra os cultos afro-descendentes ou pelo catolicismo que instaurou um papa latino-americano no Vaticano em um momento extremamente propício pra isso, “O pagador de promessas” nos remete a fé mais genuína que poderia existir, aquela que muitos de nós buscamos, a que as teorias não podem explicar, nem sentir.

Referências bibliográficas:

BURGUESS, Anthony. A laranja mecânica; tradução DANTAS, Nelson. Rio de Janeiro: Ediouro S.A. ,1994.
SALEM, Helena. 90 Anos de cinema, uma aventura brasileira. Imprinta gráfica e Editora Ltda,1988.


Por Susana Savedra

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4 thoughts on “A arte é realmente uma arma para combater o poder?

  1. Muito bem elencados os filmes pois de fato eles retratam sociedades que vivem sob o peso do estado que não se coloca ali como protetor ou guardião do cidadão mas sim como seu patrão. Esses dois filmes mostram essa relação de “David contra Golias” que existe em nossos tempos quando esses personagens sentem todo o peso da mão do estado sob eles
    A arte e a cultura de fato são mecanismos que ainda que talvez não possa alterar isso de forma significativa mas ao menos dê um significado às nossas vidas.
    Muito lúcida e pertinente essa sua analise.

  2. Excelente artigo. Muito pertinente e muito bem analisados, esses paralelos que se confluem entre a arte e a sociedade. Assim foram nas épocas de nossos avós, pais e hoje, no eterno “a arte imita a vida, como a vida imita a arte”. Sempre os mesmos pontos centrais. A luta contra a opressão, a exploração e o conservadorismo. Educação, cultura e arte, juntas se traduzem em amor. Amor a vida.
    Adorei.

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