Hoje eu falei com Laila. Prefiro pensar que ela me escondeu seu sentimento. Embora sua voz mostrasse alguma frieza, ao mesmo tempo que escondia uma certa expectativa por ouvir de mim palavras que desejava muito. Enquanto me contava as novidades, ela dizia, nas entrelinhas, as coisas que estavam presas na sua garganta, eu me esforçava para ouvir o que ela realmente falava, na conversa paralela que ela entabulava do outro lado da linha.

Como de outras vezes, Laila era a mulher inversa ao conteúdo de suas poesias. Como se a poetisa que me falava ao coração e a que me falava aos meus ouvidos fossem pessoas diferentes. Receoso, eu não falei da saudade que eu senti, pela manhã, quando eu recebi a resposta do torpedo que eu lhe havia enviado, logo cedo. Que vontade louca. Que desejo imensurável de vê-la. Eu queria correr para os seus braços. Eu queria ver Laila. Que vontade louca de fazer uma loucura.

Percebi que ela pensa em mim, e ela deseja partilhar comigo seus bons momentos. É bom saber que, às vezes, ela esquece de que não somos livres, que somos cativos da sorte que escolhemos, e que atitudes impensadas podem trazer consequências danosas para as nossas vidas. Nestas horas, eu lamento que não possamos ir além das palavras.

Já fazia algum tempo e a saudade era grande, e os poucos minutos que dispomos nunca são suficientes para nossos espíritos alcançarem a calma necessária para olharmos para nós mesmos, para nós dois. Lamento de novo, esse amor abstrato, e fico me perguntando: como são os sonhos de Laila? Por onde vagueiam os seus pensamentos? Gostaria que as minhas palavras fossem suas companheiras inseparáveis e o conforto dos meus versos, uma presença constante na sua vida.

Às vezes, quero estar enganado. Outras vezes, quero estar certo do que ela sente por mim. Ela mesmo me disse que quando deitamos nossos pensamentos no papel, eles são mais completos e mais sinceros. Livres. Talvez, por isso, a mulher que derrama os seus sentimentos numa folha em branco nunca é a mesma que se reserva o direito de não dizer aos meus ouvidos aquilo que eu quero tanto ouvir.
Laila é livre, e não se deixa prender por nenhum laço. Nem mesmo o laço do amor, pelo laço do meu amor. Tomara que ela não seja prisioneira do laço do medo. Oxalá, seja a prudência exacerbada a razão da sua cautela. Daí o meu temor, diante da tristeza que percebo em seu olhar, pela angústia que virgula as nossas conversas.

Laila ama ao extremo. Age sempre com a razão. Mas isso sempre ocorre em detrimento da emoção. Sinto que Laila vem sendo arrastada pela correnteza da vida, gozando de uma liberdade mascarada, angariada aqui e ali. Uma liberdade frágil, imposta por si mesma, como uma atitude de auto-defesa. Ela já identificou, ou melhor, elegeu o seu algoz, e o trata com indiferença, quase o ignora.

Ela é amada e querida pelas pessoas que usufruem da sua amizade. Porém, a sua responsabilidade contrasta com a sua ingenuidade. Laila ainda é a menina que se expõe ao perigo e acredita na sua esperteza. Ignora a força física de um malfazejo oportunista. Salvo melhor juízo, os seres racionais – diferente dos seres irracionais – são os únicos que planejam o seu amanhã. Os selvagens correm para viver. Uns como caça, outros como caçadores. Sempre vejo Laila correndo para viver, voltando pra casa, aparente ilesa, para os braços do predador.

Fico sonhando com Laila, acolhida em meus braços, num aconchego gostoso, me falando da sua vida, do seu dia, da sua liberdade que tanto preza. Penso em todos os dias, ela voltando pra mim.

Que bom que Laila não me esqueceu. Que bom que nunca deixou de ser menina, aquela menina dos meus sonhos, dos sonhos que eu sonho acordado; que acelerava a batida do meu coração, cada vez que se aproximava de mim, que me deixava com as mãos geladas e a voz embargada. Coisa que ainda hoje acontece, quando ouço a sua voz, apenas a sua voz.

Acho que ninguém, além de nós dois, sabe o que houve entre nós dois. Talvez, nem ela, porque para ela talvez não tenha havido nada. Eternizar nossos momentos foi uma decisão minha, só minha. Na fantasia, tudo pode acontecer. Assim, Laila tornou-se mulher à minha maneira: acompanhou as fases da minha vida. Muitas vezes, foi o meu único consolo, meu único amparo, meu único refúgio.

Laila agora está em silêncio, ocupada, sem tempo de pensar em si mesma, sem tempo de pensar em mim; mas eu sei que, mais hora menos hora, a saudade vai falar no seu ouvido e dizer o meu nome. E ela vai abrir um sorriso largo e vai lembrar de mim. Ela sabe que pode me encontrar, cheio de saudade, cheio de amor, no lugar de sempre.

Laila,
O que seja verdade, não sei.
O que seja inverdade, não sei.
Eu te amo. É apenas o que sei.

Por Ivo Crifar

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