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CríticaFilmes

Crítica: Bom Comportamento

Avatar de Daniel Gravelli
Daniel Gravelli
24 de outubro de 2017 3 Mins Read

Um excitante thriller psicológico

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Em meio a correria do dia a dia, muito acontece e quase nunca percebemos o que está a nossa volta. Estamos tão acostumados com os grandes momentos que o insignificante torna-se invisível aos olhos. E é exatamente aí que mora o perigo.

Desenvolvido de forma expressiva, tateando os pequenos e escondidos detalhes, o underground “Bom Comportamento” nos arrasta de forma realista para um mundo desconhecido a primeira vista, mas que faz parte diariamente de nossa existência. Bebendo na fonte de mestres do cinema marginal como Martin Scorsese, Sidney Lumet e até mesmo Brian de Palma – que no auge de suas criatividades nos entregaram verdadeiras obras primas – o filme irrompe barreiras e transforma o simples no excepcional em um brilhante exercício de direção e atuação.

Realizado de forma completamente independente, sem os devaneios dos grandes estúdios ou as “pinturas” bonitinhas que marcam o atual cinema independente, a produção nos proporciona uma obra tomada de consciência e transformações comportamentais.

Intenso e por vezes psicodélico, o roteiro de Ronald Bronstein e Josh Safdie é repleto de atitude e constante movimento. Muito mais trabalhado na ação do que nos diálogos, ele reflete o ser humano e suas as idiossincrasias diante certas situações. Cada um dos personagens é extremamente bem desenvolvido, mesmo aqueles que ficam pouco tempo em tela conseguem passar sua história. Embora pretenda atingir a sociedade como um todo, como vimos nas cenas das reportagens sobre o que acomete a cidade, é no indivíduo que o roteiro se concentra. São as minucias da realidade que compõem o cotidiano da forma mais inclemente e verossímil possível.

A direção fica por conta dos irmãos Safdie (Benny e Josh), também conhecidos pelo excêntrico e profundo “Amor, Drogas e Nova York”. Aqui, os diretores optam por uma estilo mais objetivo, indo direto ao ponto, com uma pegada documental. Os planos adotados estabelecem uma intrínseca comunicação com o espectador, que são colocados quase dentro da cena, como se não só observassem os acontecimentos, mas os vivenciassem a todo instante. E essa intensão acaba causando certa estranheza, de forma funcional, devido aos ângulos incomuns utilizados para compor propositalmente uma dramaticidade mais rudimentar.

Sean Price Williams nos entrega uma fotografia primorosa, tombada para uma textura mais saturada – que provoca e se distancia do comum. A proposta não é embelezar, mas sim mostrar o ordinário, o imperfeito por traz das sombras. Sombras essas que permeiam os cenários e personagens em quase toda projeção, sendo rebatidas apenas por um simplório ponto de luz quente que destaca o necessário e nada mais. Com sua câmera nervosa, orquestrada por uma direção imponente, Williams mantém a tensão ao mesmo tempo que a curiosidade do espectador – com ajuda de uma edição ritmada que nos conduz rispidamente através de cortes secos utilizados de forma certeira.

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Todo design de produção é trabalhado em paletas que destacam o visual de cada cena. A simplória e genuína direção de arte nos mantém em nossa própria essência, com os pés no chão. Enquanto o figurino proporciona ainda mais veracidade ao trazer vestimentas de tamanhos e cores diferentes, não combinando muito bem, criando um aspecto tosco (no melhor dos sentidos) para estética.

Em uma atuação digna de atenção, Robert Pattinson (“Saga Crepúsculo” e “Cosmopolis”) nos entrega uma personagem com ares de esperto, porém sofrida. Sua construção denuncia o quanto o seu personagem Connie é calejado, seja por constantes manias desenvolvidas para cena ou pelo penetrante olhar baixo. Benny Safdie, também nos dá a honra como ator em seu próprio filme. E faz isso de forma impecável. Suas cenas são sinceras e bastante convincentes. Para deixar tudo ainda melhor, a trama também é permeada por ótimos atores coadjuvantes, com destaque para uma intrigante participação de Jennifer Jason Leigh.

Já a poderosa e incidente trilha sonora, composta por Daniel Lopatin, quase toda desenvolvida a partir de sintetizadores, surge de forma avassaladora – despertando a atenção de quem assiste – e se mantém em um crescente violento até o derradeiro final.

“Bom Comportamento” questiona, impõe, e a todo momento nos lembra de que ninguém é perfeito. Que somos todos afetados por um tipo de distúrbio diferente e casuais imbróglios que nos consomem. É um excitante thriller psicológico que vai te tirar do eixo. Impactante na medida certa, entra para galeria dos melhores filmes do ano até o momento.

Sinopse
Prós
Contras
8.6
Nota

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Tags:

crepúsculoRobert Pattinson

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Daniel Gravelli

Daniel Gravelli é diretor e cofundador da Woo! Magazine, especialista em comunicação, storytelling e cultura. Com mais de 30 anos de experiência no mercado cultural como diretor, produtor, ator e roteirista, traz para a Woo! um olhar único sobre a arte e seu potencial de conexão humana. Escreve sobre entretenimento, comportamento e tudo que movimenta o cenário cultural brasileiro.

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