Crítica: Fahrenheit 451

Imagine um mundo onde os livros e, consequentemente, todos os tipos de arte são proibidos. Nesse mundo, os bombeiros não combatem incêndios, porque são os agentes causadores do fogo; uma força policial que procura rebeldes acumuladores de arte e faz fogueiras de livros em praça pública a mando de um governo ditatorial que controla a população por meio de uma ideia deturpada de felicidade. No ideal desses homens, para que servem os livros, filmes e musicas com suas propostas autorais, fazendo com que as pessoas fiquem confusas em suas entrelinhas ou em suas confusões filosóficas? O controle vem por meio da tecnologia onde o big brother vigia a todo o momento e transmite ao vivo a privacidade dos cidadãos em rede nacional.

Ray Bradbury escreveu o ícone da ficção cientifica distópica “Fahrenheit 451” na década de cinquenta, mas a sua história se encaixa perfeitamente na sociedade moderna. A escravização tecnológica promovida pelas telas de celular e internet pode ser o inicio de uma realidade próxima ao do livro, só falta um governo como, por exemplo, o de Donald Trump nos EUA, para dar o golpe final. As ditaduras tomam forma quando a população está distraída com outros assuntos e não consegue perceber quando algo está errado. Retirar a arte e cultura é o estopim para formar cidadãos sem a capacidade de formar pensamentos críticos, sendo relegados a miseras formigas trabalhadoras. François Truffaut já tinha dado a sua visão em 1966 quando filmou a história com Oskar Werner e Julie Christie e conseguiu êxito com um filme que, assim como o livro, virou clássico.

Em 2018, a sempre confiável HBO lança a versão modernizada de “Fahrenheit 451” trazendo o astro do momento Michael B. Jordan no papel do bombeiro com peso na consciência Guy Montag. Como cadete, Montag espera a promoção de seu superior e amigo Beatty (Michael Shannon) para que fique em seu lugar como capitão. A péssima recepção crítica em Cannes, onde foi mostrado fora de competição, fez com que o longa caísse no limbo das preferencias cinéfilas, tendo um lançamento frio por parte do canal. Felizmente, os críticos de Cannes não estavam totalmente certos em suas análises. Claramente se trata de um filme que não transparece nenhum tipo de emoção em seu roteiro. Seus frios personagens são geram qualquer ligação com os espectadores. Frieza que parte principalmente de seu protagonista extremamente desinteressante. B. Jordan tem parte de culpa em relação a isso, já que cria um Montag sem inspiração, praticamente no automático. Já Shannon precisa urgentemente pedir a seu agente que lhe mande papéis diferentes do que ele fez em “A Forma da Agua”. Um ator de alto calibre como ele não pode ficar preso em estereótipos de vilões sem escrúpulos. Por fim, Sofia Boutella entrega o que pode nas linhas rasas de sua Clarisse McClellan.Todas as adaptações de livros consagrados ao cinema receberão por parte dos fãs e especialistas algum tipo de ressalva, o que não é diferente aqui. Talvez, a parte de ser exatamente uma adaptação não esteja sendo entendida por todos. Um roteirista não é obrigado a transcrever exatamente o que está na obra literária, e isso é impossível. O cinema possui suas particularidades e precisa se valer delas para destacar-se perante as outras artes. Dito isso, o roteiro de Ramin Bahrani não é totalmente um desastre ao criar novos personagens e situações, assim como alterar o final em prol de um fluxo narrativo mais de acordo com as propostas iniciais. Também cuidando da direção, Bahrani consegue de forma aceitável mostrar suas intenções em cenas bem construídas. Ajudado pela boa fotografia de Kramer Morgenthau, que ilumina um mundo de forma escassa, apostando nas penumbras e em cores que lembram destruição o tempo todo, o diretor usa do vermelho e amarelo do fogo refletido nos rostos para externar as suas facetas. Distorcendo os planos, principalmente quando caminhão dos bombeiros é mostrado em ação, Bahrani lembra que aquela sociedade está doente.

Tecnicamente bem executado, mas com falta de inspiração, essa nova aposta fica na média se comparado com as produções mais comerciais feitas nos EUA atualmente. Nada fora do comum, porém, bem longe da imagem execrável feita após o festival de Cannes. Afinal, Bahrani não é Truffault, dificultando a tarefa de fazer um filme que se tornasse memorável.

 

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